RELEITURA DE NILTO MACIEL UMA LUZ QUE AZULA - Jornal O Estado

Estava na despedida de Nilto Maciel da face da terra, em 29 de abril de 2014. Será que um escritor do calibre de Nilto Maciel desaparece ao ir para além do além? Nilto me acolheu no meu começo e não era raro trocarmos ideias entre as suas baforadas de cigarro que borravam as suas grossas lentes de ler.

Quem quiser saber dele poderá ler seus livros ou consultar a Wikipédia. Lá estão a produção literária e os prêmios recebidos. É fácil perceber o descortino desse cearense, formado em Direito e nas ciências da vida. Foi-se para Brasília, mediante concurso público. Cumprido o tempo, aportou em Fortaleza e aqui se espraiava em contos, poemas e romances.

No oferecimento que me fez no livro de contos “Luz Vermelha Que se Azula”, Prêmio Moreira Campos, ele diz: “Ao amigo João Soares Neto, que escreve certo, estas linhas tortas”. Na verdade, Nilto não era homem de linhas tortas, tampouco de linhas óbvias, era um criador que se metamorfoseava em personagens nas histórias que criava.

Dou a palavra a NM: “A maioria das minhas composições literárias surge por acaso, de inopino ou inspiração, o que deve acontecer com quase todos os criadores, Não as busco. Vêm num piscar de olhos. Não as cato nas ruas. Apresentam-se a mim como folhas mortas, papéis velhos, cacos de vidro, esterco. Acolho algumas. Lapido-as, lavo-as e faço delas literatura”.

NM continua: “Outras, porém, não existem nem como ideias e, se existem, estão bem enterradas ou perdidas nas páginas de velhos alfarrábios. É o caso de algumas aqui reunidas. Fui procurá-las nas enciclopédias, nos dicionários, nas biografias, nos compêndios de história”.

Interrompo a dicção de NM e passo a palavra a Aíla Sampaio, que foi minha confreira na Academia Fortalezense de Letras:

“(…) O equilíbrio está no talento de Nilto Maciel para amalgamar realidade e ficção. Munido de vasta bagagem de leituras e domínio das técnicas de construção do texto literário, ele percorre veredas diversas, com seu apurado trabalho de linguagem, dá unidade ao que é diverso, puxa o leitor por caminhos inusitados e consegue, sem exauri-lo no longo percurso que se impõe da primeira à última página, prendê-lo espontaneamente ao universo de seres alucinados e fatigados de sua aventura existencial”.

Agora, neste abril de 2017, três anos após, relembro aos leitores, colegas, amigos e familiares a certeza de que Nilto Maciel está em todos os lugares por onde passou e espargiu a sua premiada literatura.

João Soares Neto,

escritor

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 4/7/2017.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA