ENTREVISTA COM MÁRCIO CATUNDA - Jornal O Estado

Semana passada escrevi sobre Gerardo Mello Mourão- GMM e citei o poeta e diplomata Márcio Catunda, expert em GMM. Fizera-lhe algumas perguntas. Ele as respondeu. Assim, com alegria, dou espaço a Márcio. GMM merece reverências e Márcio Catunda, tem autoridade para isso:

JSN – Como você vê a trajetória de vida do poeta e do político GMM?

MC – Com admiração e apreço. Ele foi um dos mais ilustres cearenses e um dos maiores poetas da língua portuguesa. Foi mais poeta que político. Mas sua erudição, sua inteligência e sua sensibilidade contribuíram para que ele desempenhasse, de forma brilhante, toda e qualquer atividade. Na literatura, foi polígrafo, imensamente criativo e fecundo. Escreveu poesia, ensaio, romance, conto, artigo de jornal e biografia. Fez até hagiografia, ao contar a vida e os milagres de São Gerardo Majella, seu patronímico.

JSN – A entrada dele no integralismo foi arroubo de juventude ou pregação de Plínio Salgado?

MC – Foram as duas coisas e mais. O integralismo aparecia como nacionalista com forte vertente católica, cujo Guru principal, para Gerardo, foi o filósofo e ensaísta Alceu Amoroso Lima(Tristão de Athayde) que aderiu ao Movimento. Durante a Ditadura Militar, teve cassado o seu mandato de deputado federal por Alagoas (pelo PTB) e esteve no cárcere por algumas semanas. Ameaçado de morte, saiu de Brasília com documentos falsos, embarcou para Ponta Porã, atravessou a fronteira e foi até o Paraguai. Em Assunção, foi de avião para o Chile, onde passou dois anos exilado.

JSN – Depois, ele foi comunista ou era nova onda?

MC – Não foi comunista em nenhum momento da vida. Já havia, no entanto, renegado o credo integralista e, em razão de sua obra e sua capacidade de fazer amigos, ficou ligado a Leonel Brizola e Darci Ribeiro, que lhe reconheceram os méritos de grande intelectual e o nomearam presidente da Fundação Rio-Arte.

JSN – Como você destacaria a obra de GMM?

MC – Uma obra de profunda sensibilidade, humanismo e inspiração, pautada por sua erudição clássica. Gerardo fez uma poesia eclética, versátil, em que misturava imagens e signos do seu torrão nativo, Ipueiras, com a antiga história e os mitos da Grécia e de Roma. Essas referências extraordinárias de sua poesia estão marcadamente registradas nos livros Rastro de Apolo, Peripécia de Gerardo e O País dos Mourões. Escreveu outros livros magníficos, como Invenção do Mar, epopeia das navegações e da fundação da terra brasileira, que recebeu o Prêmio Jabuti em 1999, e Algumas Partituras, este a meu ver, o mais primoroso de seus livros, escrito já na maturidade, e publicado em 2002, cinco anos antes de sua morte. Veja o que GMM me declarou, de viva voz, quando tive a satisfação de entrevistá-lo em 1998:

“Rimbaud nunca vendeu nenhum livro, mas há pouco tempo uma edição daquele poeta vendeu 60 mil exemplares numa semana, quando distribuíram um de seus livros nas bancas de jornal. Nem Camões, nem Dante, nem mesmo Tales, na Grécia, encontrou mercado de trabalho para o triângulo retângulo, nem para o isósceles. No entanto, se ainda hoje existe um país chamado Grécia é porque um vadio, sem mercado de trabalho, talvez mesmo um cego de feira, chamado Homero, criou a língua e a glória sobre a qual se fundou a eternidade de uma nação”.

João Soares Neto,

escritor

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 4/3/2017.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA