ANTÔNIO CÂNDIDO - A CRÍTICA QUE MORRE? - Jornal O Estado

“Sua obra fundamental encerra o ciclo de grandes ensaios de interpretação do Brasil”. Manoel da Costa Pinto, prof. de Teoria Literária, da USP

Antonio Candido, crítico literário, morreu aos 98 anos, sexta passada, 12 de maio deste 2017. A Folha de São Paulo, no dia 14, domingo, resolveu reproduzir a primeira crítica literária escrita por ele no dia 07 de janeiro de 1943. A crítica tem o nome francês “Ouverture” ou Abertura, em Português. A língua gaulesa dominava a literatura da época. Depois, o inglês. Agora, é o internetês.

Nela, Antonio Candido desfila os seus postulados, que, no seu pensar de 24 anos, configurariam um padrão ou referência para alguém se tornar crítico literário. Ele diz: “Do crítico, espera-se geralmente muita coisa. Antes de mais nada, que defina o que é a crítica para ele. Acho isso muito justo, uma vez que ele é um indivíduo que vai emitir opiniões tendentes, em suma, a explicar uma obra ou um autor”.

Em seguida, ele fala na possível imodéstia de um crítico literário: “Este aspecto metacrítico do ofício – que é porventura o seu fundamento e o seu mais firme esteio – é, no entanto, às vezes, uma questão de tal modo pessoal, revestindo-se de uma necessária imodéstia no seu enunciar-se, que melhor seria pedir ao crítico literário qual a sua ética – quais as imposições que se faz e quais os princípios de trabalho com os quais não transige”.

A pergunta que faço aos professores Sânzio de Azevedo, Linhares Filho e Carlos Augusto Viana é se hoje, passados 74 anos desse enunciado, tais princípios teóricos subsistem?

Claro que eles não podem me responder agora, sequer sei se aceitarão essa lisonjeira provocação. Entretanto, emendo com outra questão que pode ou não ser pertinente: como anda a crítica literária brasileira, nestes tempos em que os escritores formam grupos para aparecer em eventos culturais estados afora, em memória de mortos ilustres, bienais de livros, nos possíveis encontros na “Casa do Saber”, seja no Rio de Janeiro e em em São Paulo. Ou, ainda, nas anuais edições da Festa Literária de Paraty.

Como se tivesse premonição, Candido afirma: “Sobretudo porque acredito que as atitudes intelectuais têm valor em função da época em que se manifestam e à qual se dirigem. Sendo assim, a tarefa do crítico será porventura integrar a significação de uma obra no seu momento cultural do que, tomando-a como pretexto, procurar tirar dela uma série de variações pessoais”.

Contextualizando essa época ao hoje, em que a inteligência artificial pode até produzir “obras” de todos os gêneros e a internet das coisas nos coloca em um baú em que sensos estéticos – duvido, ainda ‒ derivam de algoritmos de programas literários de grandes universidades, mundo afora. Ouso perguntar aos doutos Antonio Torres e Edmilson Caminha: estarei errado?

João Soares Neto,

escritor

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 5/19/2017.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA