CLICHÊS DE UNS E DE OUTROS - Jornal O Estado

“Diga-me uma coisa, compadre: por que você está brigando?” Gabriel Garcia Márquez

Não faz muito tempo os empresários resumiam as suas vidas em cuidar de suas famílias e de suas empresas. Depois dos anos foram surgindo entidades e alguns dos que antes mourejavam nos chãos dos seus negócios pequenos e médios passaram a ser líderes, encaminhando pleitos a governos municipais, estaduais e federal. Viraram seres falantes.

Foram tomando gosto e assentos em diretorias e conselhos, alguns remunerados, viajando por conta de nós todos e se acreditaram detentores de conhecimento, além do dia a dia de seus interesses por conta de um sistema rico e poderoso.

Para os alinhados a governos, partidos políticos e os que souberam descobrir licitações, concessões, aprovações de projetos por órgãos locais ou os de desenvolvimento regionais, tipo Sudene, Zona Franca de Manaus etc., o mundo se abria risonho e franco.

Depois, anos à frente, aos maiores ou audaciosos desejosos de crescer exponencialmente, os Fundos de Pensão das estatais, os bancos públicos regionais, a Caixa e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social- BNDES abriam créditos a juros subsidiados, bem amaradas. Criou-se um compadrio de resultados. O governo passou a ser sócio de muitas empresas privadas.

Nomes desconhecidos foram surgindo em reportagens amestradas a tecer loas a seus méritos, descortinos e as múltiplas empresas que criavam e, subitamente, passavam a fazer parte das listas de maiores e melhores. Prêmios para cá. Prêmios para lá.

Em cada Estado brasileiro há figuras assim. Do nada para o Olimpo, em pouco tempo. Ralar, por anos, é coisa de gente atrasada que não possui “networking”, aqui traduzida como a capacidade de conhecer e influenciar pessoas, gestores e políticos, com recepções opíparas, viagens conjuntas mundo afora e logo entrar no circuito dos muitos influentes.

Outros, que abriram empresas e não se deram bem, viravam consultores, diretores, assessores e, sempre simpáticos, circulavam em festas e ambientes em que bilhões eram cifras citadas sem medo e a certeza de que caminhos políticos e classistas os fariam participar do mundo dos muito ricos, esse lugar para poucos, em país de miseráveis.

Faço uma digressão e procuro em Lucy Kellaway, jornalista do “Financial Times”, de Londres, via Valor, no artigo “Como uma empresa consegue citar dez clichês em uma frase” comparativo com a linguagem empolada e vazia dos que pouco se instruíram e resolvem ser experts e oradores.

Ela registra o caso da empresa Mondelez, fabricante de biscoitos e chocolates, ao procurar um executivo na área de marketing. O texto: “Nossa busca por um sucessor vai se concentrar em encontrar um líder que seja ‘digital-first` (que dê prioridade, ou atue na esfera digital), disruptivo, inovador, que possa ampliar o legado e mobilizar um marketing em um cenário consumidor global em plena mutação”.

Como se vê, há bobagens ditas e escritas pomposamente não só aqui em Pindorama, mas em países desenvolvidos. Como todas as semanas brasileiras viraram cruciais, saio desta sinuca por escrever de véspera e não saber o desfecho no mundo real, do qual tento evadir-me com estes alinhavos meio “disruptivos”.

João Soares Neto,

escritor

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 5/26/2017.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA