VOLTANDO O CALENDÁRIO - Jornal O Estado

A votação no Tribunal Superior Eleitoral foi 4 a 3, a favor da cassação da chapa presidencial Dilma- Temer. O Presidente Temer resiste, entra com recurso ao Supremo Tribunal Federal-STF. Há dúvida, se será decidido por ministro, turma ou pleno. Fachin, antecipa-se, nega efeito suspensivo.

O interino legal da Presidência da República é Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, do DEM, do Rio de janeiro. Ele aproveita alguns ministros do Governo Temer. Destrona outros. Há brigas entre deputados e senadores ao indicar novos nomes, todos velhos conhecidos, no terceiro rateio de ministérios, estatais, agências, BNDES, Banco do Brasil, Caixa, cargos nos Estados, no Distrito Federal e tudo o mais que compõe o complexo organograma do Governo Federal.

Os jornais aumentam tiragens e as televisões fazem contínuas transmissões ao vivo. Raul Jungmann é mantido no Ministério da Defesa. As Forças Armadas ficam de sobreaviso. Estados, em conjunto, decretam ponto facultativo para evitar tumultos.

Temer, aconselhado por Romero Jucá, não sair Palácio do Jaburu, como se nada tivesse acontecido no Planalto. Governos paralelos. Uma das alegações é que o meio ano letivo do Michelzinho ainda não terminou.

Estamos em período em que os partidos fazem sondagens para um novo governo de coalização. O Brasil fica sem chanceler. Faltou nome de consenso. Três embaixadores devem ser removidos. Embalaram pertences, mas o Itamaraty não tem quem autorize os traslados.

A Chikungunya faz mais uma vítima, o jovem e robusto Presidente da Câmara/República, Rodrigo Maia. Tem febre alta, convulsões e se faz necessário o rápido internamento em grande e bem cotado hospital. Passam-se dois dias discutindo que ele não deve ir para o Sírio Libanês ou o Einstein, em São Paulo.

É honroso ir para o Rio de Janeiro, a terra natal de Maia. Neurologista famoso é consultado, e, naturalmente, indica a sua clínica carioca. A Segurança da Presidência faz restrições ao local, por ser próximo de comunidades. O Estado de Maia se agrava e o novo Ministro da Saúde, Senador Ronaldo Caiado, decide o impasse. Vai mesmo para São Paulo.

Três dias se passam e as tarefas burocráticas, interrompidas, embora assinadas, teimosamente, por Temer. Índios do Pará marcham, acompanhados de membros do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, para desagravo em Belém do Pará. Marina Silva chega para acompanhar a marcha. Pretendem bloquear o Mercado Ver o Peso e o Aeroporto Val de Cãs.

Não há quem autorize a concretização da concorrência para o trecho que ligaria Milagres, no Ceará, às sonhadas águas do Rio São Francisco. Deputados e senadores cearenses ficam indignados. Há greve nos portos de Paranaguá e de Santos, em solidariedade a Michel Temer.

O VLT do Rio é incendiado por manifestantes e membros de comunidades invadem o Museu do Amanhã. Em São Paulo, os ex-ocupantes da Cracolândia resolvem fazer marcha pela Avenida Paulista e ocupar o vão do Museu de Arte de SP- MASP. Brasileiros de Nova Iorque levam bandeira e batucada para o Central Park. A polícia local os prende.

O jato da FAB pousa em Congonhas e Rodrigo Maia é levado, sob escolta, para o Einstein. Febre de 40º, sudorese excessiva e incapacidade de falar sobre as suas queixas por problema na glote. Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva chegam juntos para visitar o enfermo presidente, mas não têm êxito. Maia está em isolamento, em face da gravidade do quadro.

Cai uma chuva forte seguida de rajadas de vento, fico molhado e acordo. Sonho doido.

João Soares Neto,

escritor

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 6/16/2017.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA