AS GRAVAÇÕES, AS DELAÇÕES E O FUTURO INCERTO - Jornal O Estado

“De delação em delação, nunca vai acabar a confusão.” Ouvido em boteco.

Estamos quase no fim de setembro e continua como não poderia deixar de ser, o estardalhaço da imprensa, da televisão e da Internet sobre o grupo J&S/JBS e correlatos. A melhor reportagem, ao meu talante, foi a publicada no dia 07 de julho de 2017, no Caderno Eu&Fim de Semana, do Jornal Valor.

O Caderno Eu&Fim de Semana é publicado às sextas-feiras e mistura economia, gestão, finanças, política, cinema, entrevistas, reportagem e cultura. Confesso, ao meu olhar, a parte mais interessante é a de Cultura. Entanto, quero chamar a atenção de todos para a reportagem de capa “A Saga da JBS”. Ela pode ser vista nas redes sociais ou no site do Jornal “Valor”.

É trabalho de fôlego escrito pelos jornalistas Luiz Henrique Mendes, Vanessa Adachi, Fernando Torres e Francisco Góes. Além deles, colaboraram Fernando Lopes, Stella Fontes e Fábio Murakava. São 10 páginas escritas em letras de tipo pequeno.

Deveria o Jornal “Valor” transformar essa reportagem, depois de aprofundada em livro. Um senão é citar fontes sem nomes. Invocam motivo de segurança, mas empobrecem a reportagem. No livro, quem sabe, poderiam ir mais a fundo e identificar algumas fontes, se elas não tiverem medo de sofrer represálias.

A história começa no interior de Goiás, em 1953. José Batista Sobrinho – JBS, conhecido por Zé Mineiro, cria a “Casa de Carnes Mineira”, em Anápolis, com entregas a domicílio. Anápolis é próxima de onde seria fundada Brasília. Poucos anos depois, surgia JK – Juscelino Kubistchek de Oliveira, empossado presidente em 1956, no Rio de Janeiro, capital do país.

JK havia sido prefeito interventor de Belo Horizonte de 1940 a 1946 e fez, entre outras obras, a bela barragem da Pampulha, juntando Niemeyer (arquitetura), Burle Marx (jardins) e Portinari (painéis). O slogan “50 anos em cinco” era o mote para a identificação do local, até invocando São João Bosco (teria apontado o local entre os paralelos 15 e 20 do hemisfério sul). Brasília surgia da prancheta de Lúcio Costa. Os edifícios são de Niemeyer.

As obras começaram e Zé Mineiro passou a ser fornecedor de carnes para centenas de empregados das empreiteiras. A construção de Brasília é matéria prescrita e cabe noutra narrativa.

Voltemos ao eixo. O crescimento da Friboi foi exponencial. Cresceu e cresceu. Expandiu-se em outras áreas e criou base multinacional. O foco desse relato é apenas dar destaque à delação premiada, depois da gravação sub-reptícia, às horas tantas da noite, no Jaburu, nome esquisito de Palácio. Igualmente, nova gravação faz furor. Dessa vez, inclui um diretor. Intencional ou não, acabou em prisões. O resultado é o estado caótico da política, com a segunda denúncia contra Temer pela Procuradoria Geral da República. Agora, de dirigente nova.

Por outro lado, a economia melhora desde julho. A Bolsa de Valores sobe. Ressalte-se a desenvoltura e otimismo do ministro da Fazenda, Henrique Meireles. Ele era, até bem pouco, presidente do Conselho da JBS. Vá entender o Brasil. Eu não consigo, embora tente.

João Soares Neto,

escritor

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 9/22/2017.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA