AO LEITOR. QUE LEITOR? - Jornal O Estado

“Leitor, coautor do texto.” – Ledo Ivo

Quem escreve não pode ser escravo de um leitor que desconhece. Ora, isso é simplificar a coisa. Ao escrever não se pode ir atirando a esmo. Há que ter foco. Ao escrever em jornal a pessoa tem menos de 24 horas para captar e interessar o leitor. No dia seguinte, o jornal é descartável. Razão pela qual vou disponibilizando no meu ‘www’ ou nos dos amigos.

Procuro, portanto, escrever para quem não está apenas interessado no cotidiano. Tento, a cada semana, ir mudando de rumo. A única coisa permanente é a minha forma de contar. Isso é o que se chama estilo.

Para se ter estilo, seja bom ou não, é preciso mourejar com as letras, saber das vírgulas, dos pontos, das interjeições e não exclamar muito. Ser o mais natural possível. Se consigo, é outra coisa.

Hoje, o leitor se depara com muitas opções que o confundem ou o atraem. No mundo digital há muito de enganação. Promete-se uma coisa e, em seguida, o usuário cai em armadilhas que o levam a caminhos não imaginados. A curiosidade, na Internet, é uma faca de dois gumes, leva a novos conhecimentos/informações ou a simples engodo.

Há discussões acadêmicas sobre a natureza da crônica ou do artigo. Como diz Humberto Werneck: “Se não é aguda, é crônica.” Seriam eles alvitres literários? Trato um pouco de assuntos ligados ao cotidiano, a vidas das pessoas e os fatos que vão montando o nosso dia, desde as matinas até o arrebol. Matinas e arrebol foram apostas apenas como adereço.

Não é básico que o texto seja sempre ligado ao cotidiano, ao coloquial ou ao real. Ele pode ir, além disso. Divagar para que o leitor possa experienciar algo inusitado, como está sendo a tessitura deste escrito. O meu compromisso é trazer o leitor até o ponto final, mesmo sabendo que o ponto final é imaginário. Depois dele, cabe ao leitor maquinar o que se seguiria não tivesse o ponto existido.

O escritor deve aceitar como tema até uma pena que cai da asa de um pavão e isso nos levaria, por exemplo, ao Pavão Misterioso, do cantor e compositor Ednardo.

Eu não sigo cânones, vou lendo os dedos sobre o teclado e o que sai, muitas vezes, é o inesperado e não aquilo que, de princípio, gostaria de escrever. Como dizia Clarice Lispector: “Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me lê é por conta própria e auto risco”.

Se me tolherem a liberdade, se me pautarem, não serei eu, pois a liberdade é a minha característica. Sem ela, com certeza, ficaria aprisionado pelo assunto imposto, suas regras, seu número de palavras, a que não desejo me submeter, mesmo que a criatividade, como a de hoje, não seja o desiderato. Se não me encontro ou se me perco, resta a salvação e o arbítrio deste ponto final.

PERSONALIDADES

Ilona Szabó

Hoje damos destaque em nossa capa para a cientista política Ilona Szabó. Nascida em Nova Friburgo no Rio de Janeiro, Ilona Szabó de Carvalho, é uma referência quando o assunto é pensar no próximo e em um futuro sustentável, ela trata e discute assuntos polêmicos com uma visão mais ampla. Fundou em 2011 o Instituto Igarapé, que produz pesquisas pioneiras, novas tecnologias e influencia políticas públicas em segurança, justiça e desenvolvimento. É hoje um dos principais think tanks do Sul Global e trabalha em parceria com governos, iniciativa privada e sociedade civil para criar soluções baseadas em dados para problemas complexos.Ilona possue larga experiência em liderança de redes globais para alavancar reformas positivas. Foi coordenadora executiva do secretariado da Comissão Global de Políticas sobre Drogas entre 2011 e 2016. Anteriormente, ela coordenou o secretariado da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia.

Durante seu mandato nas duas comissões, foi responsável por auxiliar a definição de estratégias globais junto a ex-presidentes nacionais, intelectuais públicos, líderes empresariais e mundiais, incluindo o ex-Secretário Geral da ONU, Kofi Annan. Com mestrado em Estudos de Conflito e Paz pela Universidade de Uppsala, na Suécia, é especialista em Desenvolvimento Internacional pela Universidade de Oslo e bacharel em Relações Internacionais. Também participou de diversos cursos executivos, como Lideranças Transformadoras na Said Business School, da Universidade de Oxford, e Gestão de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) no Colégio de Defesa Nacional Sueco, em Estocolmo.Foi nomeada Jovem Líder Global do Fórum Econômico Mundial e Líder Responsável da Fundação BMW. Faz parte da Rede de Empreendedores Cívicos da RAPS e lançou diversas redes de experts, incluindo Pense Livre e a Rede de Transformação Pública. Ilona é descendente de húngaros. É mãe de Yasmim Zoe, nascida em 2014, e é casada com o economista e acadêmico canadense e também co-fundador do Instituto Igarapé, Robert Muggah.

João Soares Neto,

escritor

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 9/29/2017.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA