INTIMORATO E A INTIMORATA HISTÓRIA - Jornal O Estado

Em 24 de setembro do ano passado, 2016, escrevendo sobre os 80 anos do “O Estado”, afirmei: O jornal é a fonte primária da história, cada edição equivale a um telegrama. Quando decifrados, temos a narrativa de um tempo.

A narração de Luís-Sérgio Santos, jornalista e professor universitário, é intensa e fecunda. Imagino as discussões para o título do livro comemorativo dos oitenta anos do Jornal O Estado-CE. O autor desse folhoso (704 páginas) volume de bela feição gráfica, com poucas fotos, optou por “Intimorata”.

Data vênia, discordo sobre o nome. O adjetivo seria o mesmo, mas no masculino, não por questões de gênero, mas por contar a odisseia de um jornal independente e não por apelido de uma máquina de escrever.

“Intimorato” (sem temor, intrépido) não é apenas quem escreve, tampouco a máquina usada, mas o jornal que o publica. Ele é feito por pessoas. Ao meu pensar, há uma aura a carimbar e definir o seu espírito, muito além de sua denominação.

Intimorata ou Intimorato, enriquece a historiografia da imprensa e do Ceará. Vem minguando a quantidade dos nossos jornais, desde a metade do século passado. De memória, fecharam “O Jornal”, sem ideologia; “O Democrata”, de esquerda; “O Nordeste”, da Igreja Católica; “Gazeta de Notícias”, livre pensar; “Unitário” e “Correio do Ceará”, dos Diários Associados, a quase Globo da época, de Assis Chateaubriand; e “Tribuna do Ceará”, classista.

Desde 1936, mudou várias vezes de “pensar” e de controladores. Esse fato está destrinchado no zigue-zague histórico de Luís-Sérgio Santos e não me atrevo a entrar nessa fogueira, não a de vaidades do Tom Wolfe, um dos criadores do novo jornalismo ao lado de Gay Talese, a quem tive a honra de conhecer.

LSS conta, na página 16, do Intimorata: “O jornal viveu dois grandes ciclos: o primeiro, iniciado por José Martins Rodrigues, em 1936… A continuidade por Alfeu Aboim e Walter de Sá Cavalcante e vai até o final de 1965, quando Venelouis Xavier Pereira, através do banqueiro José Oto de Santana, adquire o jornal”. E continua: “Está claro que uma das justas ambições de Venelouis era ser reconhecido no plano político e social”.

Raul Barbosa, Parsifal Barroso, Plácido Castelo e Ciro Gomes, ex-governadores, passaram pela sua redação. Esse periódico se confunde com a política, a cultura e a economia cearense. Muitos foram os ouvidos sobre a longa trajetória desse teimoso jornal, resistente às intempéries políticas, financeiras e até familiares. O jornal assumiu o modelo “standard” e circula de segunda a sexta-feira. Pode ter sido, quiçá, exemplo para o “Valor Econômico” a usar os mesmos dias.

O livro precisou de “energia cósmica gravitacional que me acompanhou nesta viagem ao longo do tempo”, refere, LSS. Ele fica inscrito, desde agora, no panteão dos poucos escribas da história e das estórias da imprensa cearense, justo no tempo das outras mídias e plataformas a confundir, não a informar. Um jornal bem editorado, impresso e distribuído não produz “fake news” (notícias falsas), mas pode ser um magazine fácil de ler. “O Estado” o é.

Estão de parabéns o autor LSS, colaboradores, entrevistados e todos os integrantes do Índice Remissivo. Igualmente, o superintendente Ricardo Palhano, familiares e a sua equipe. O livro será lançado hoje, às 19h00 na Livraria Cultura. Estudos substantivos acontecerão. Os meus tempos de leitura e de escrita foram corridos. O “Intimorata” pereniza “O Estado”. Ad aeternum.

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/20/2017.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA