BALANÇO E FELIZ NATAL - Jornal O Estado

“Coisas e palavras sangram pela mesma ferida”. Octavio Paz



Hoje, sexta-feira, 15 de dezembro de 2017, nove dias antes do Natal, comunico aos meus raros e queridos leitores: vou destinar parte do meu tempo para arrumar estantes, colocar livros em ordem menos caótica, limpar a escrivaninha atulhada e identificar papéis perdidos, sob o ruído de betoneiras, de serras elétricas e o vai-e-vem de veículos em rua próxima. Qualquer dia, quem sabe, volto aos jornais. Agora, trabalharei no meu 10º Livro.

Há exatos 55 anos comecei a escrever em jornal, no Correio do Ceará. Era muito jovem e o dinheiro recebido, ao fim de cada mês, ajudava no meu projeto de poupar, sempre. Fazia, ao mesmo tempo, duas faculdades públicas, Direito e Administração.

Escrevia, então, sobre informes acadêmicos, os movimentos estudantis, as implantações de faculdades ao longo da avenida-eixo do Bairro do Benfica, cobria a área cultural/arte/musical da cidade, sem esquecer de dar espaço ao Centro Popular de Cultura – CPC da União Nacional dos Estudantes.

Depois, instado por Eduardo Campos, superintendente dos Diários Associados, passei a escrever sobre administração e negócios, procurando dar ênfase ao surgimento de empresas, ao celeiro de talentos saídos dos cursos de formação em técnicos em desenvolvimento econômico – TDE do Banco do Nordeste, noticiar a atuação do Projeto Azimov-UFC para implantar indústrias no interior do Ceará, entre outros. Nesse mesmo tempo, fui correspondente da Carta Econômica do Nordeste, Revista editada em Recife por Alexandrino Rocha e Fernando Câmara Cascudo.

Havia, entretanto, de cuidar da minha vida profissional e assim o fiz. Fiz dois anos de doutoramento. Não valeu. Gizela Nunes da Costa é testemunha da história. Dei aulas na Escola de Administração e no Cetrede-UFC, em cursos de pós-graduação. Cumpria dupla jornada. Durou até concluir não ser possível esse ritmo. Ao mesmo tempo, constituía família.

Não parei de escrever em jornal. Aqui e ali no “O Povo”. Com o surgimento do “Diário do Nordeste”, escrevia colunas soltas. Depois, por dezenas de anos, aos domingos, na sua página de Opinião. Em paralelo, “O Estado” passou a publicar artigos meus, às sextas, até o dia de hoje.

Já são vários lustros neste oitentão jornal em forma de tabloide “O Estado” antecipou-se, imagine, ao “The Guardian”, de Londres. Explico: a partir de 2018, o “Guardian” passa a ser tabloide, aderindo às novas plataformas da tecnologia da informação.

Neste final de 2017, pródigo em sacolejos políticos, notícias falsas (“fake news”), seca no Nordeste, ameaça de guerra nuclear, o Brasil parece ter deixado a recessão, fruto de descalabros públicos e privados, e parte para um ano eleitoral sem que o povo, este ente abstrato a incluir nós todos, saiba exatamente como votar nas eleições de outubro.

Somos, há muito, um país em desenvolvimento. A infraestrutura é precária, faltam água, esgotos, estradas, ferrovias, casas e empregos. Nada está pronto. Há carência de educação básica, os saídos dos milhares de cursos superiores, salvo exceções, têm baixo nível de conhecimento e isso aumenta o desemprego. A corrupção esperneia. As seleções dos RHs exigem mais do que os candidatos têm a oferecer. A segurança pública é atingida por cartéis a se locupletarem em assaltos pesados, produção e comercialização de drogas ilícitas. Age em desvantagem, contra facções com armamentos pesados.

Uma boa notícia, ao final. Pesquisa realizada, neste dezembro, deixa claro: os entrevistados preferem o Natal, com Cristo, que a figura do Papai Noel. Feliz Natal a todos. Obrigado pela companhia.

João Soares Neto,

escritor

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/12/2017.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA