CORPOS CANSADOS - Jornal O Estado

Amigo liga e reclama do cansaço. Fala da fadiga em dirigir para chegar ao trabalho. Reclama dos pedintes, dos flanelinhas, dos manifestantes, dos desvios, das motos e do ar-condicionado quebrado, o que lhe dá duas opções: baixar o vidro e ficar inseguro ou subir o vidro e torrar a paciência com o calor. Liga o rádio e só ouve desgraça. Desliga. Sugiro que mande consertar o ar-condicionado do carro. Ele fala alto: como, se não tenho tempo.

Coloca um CD e lembra que já o ouviu tantas vezes que sabe até a sequência das músicas. Uma delas é de Roberto Carlos. Está cheio das notícias com os pré-candidatos às eleições de 2014 e com a polêmica sobre a publicação de biografias não autorizadas do dito Roberto Carlos e das posições do Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Resume para mim o seu pensamento: as pessoas passam mais da metade da vida querendo ser famosos ou conhecidos e, em seguida, rejeitam o assédio, a crítica sobre detalhes de sua vida privada que preferem esquecer ou não tornar público.

Uma ligação está na espera e peço desculpas para desligar. Zanga-se comigo. Respondo com o meu resto de resignação: retornarei. Atendo o novo chamado. A vida vai nos mostrando situações comuns às das outras criaturas. Há fatos e situações, mesmo administrados, que permeiam a nossa cota de resiliência. Todos passamos por situações semelhantes. Vivemos acossados por obrigações e somos instados a cumprir até três expedientes diários. Cobram-nos quando, exaustos, deixamos de ir a algum compromisso social ou de classe. Que jeito.



Sebastião Salgado

Hoje, estampa a capa do nosso caderno Linha Azul o consagrado fotógrafo Sebastião Salgado. Premiado internacionalmente, Salgado é considerado um dos maiores talentos da fotografia mundial pelo teor social em seu trabalho. Sua exposição Êxodos está em cartaz na Caixa Cultural, até dia 20 maio. Para chegar ao resultado de Êxodos, ele viajou durante seis anos, por 40 países, para mostrar a humanidade em trânsito, provocando uma reflexão sobre as questões políticas, sociais e econômicas de pessoas que foram obrigadas a deixar a sua terra natal. A curadoria é de sua esposa Lélia Deluiz Wanick Salgado e foi justamente com a câmera Leica, de Lélia, que Salgado iniciou no mundo da fotografia. Sebastião Ribeiro Salgado nasceu em Aimorés (MG), mais especificamente na Vila Conceição do Capim. Sua infância passou em expedicionário Alicio. Graduou-se em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1964-1967) e realizou pós-graduação na Universidade de São Paulo. No mesmo ano, casou-se com a pianista Lélia Deluiz Wanick. Eles se engajaram no movimento de esquerda contra a ditadura militar. Depois de emigrarem, em 1969, para Paris, ele escreveu uma tese em ciências econômicas, enquanto ela ingressou na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts para estudar arquitetura. Salgado inicialmente trabalhou como secretário para a Organização Internacional do Café (OIC). Em suas viagens de trabalho para a África, muitas vezes encomendado conjuntamente pelo Banco Mundial, fez suas primeiras sessões de fotos com a Leica da sua esposa. Fotografar o inspirou tanto que logo depois ele tornou-se independente em 1973, como fotojornalista. Em 1979, depois de passagens pelas agências de fotografia Sygma e Gamma, entrou para a Magnum. Encarregado de uma série de fotos sobre os primeiros 100 dias de governo de Ronald Reagan, Salgado documentou o atentado, a tiros, cometido por John Hinckley Jr. contra o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, no dia 30 de março de 1981, em Washington. A venda das fotos para jornais de todo o mundo permitiu ao brasileiro financiar seu primeiro projeto pessoal: uma viagem à África.

Seu primeiro livro, Outras Américas, sobre os pobres na América Latina, foi publicado em 1986. Na sequência, publicou Sahel: O “Homem em Pânico” (também publicado em 1986), resultado de uma longa colaboração, de 12 meses com a ONG Médicos sem Fronteiras, cobrindo a seca no Norte da África. Entre 1986 e 1992, ele concentrou-se na documentação do trabalho manual em todo o mundo publicada e exibida sob o nome “Trabalhadores rurais”, um feito monumental que confirmou sua reputação como foto documentarista de primeira linha. De 1993 a 1999, ele voltou sua atenção para o fenômeno global de desalojamento em massa de pessoas, que resultou em Êxodos e Retratos de Crianças do Êxodo, publicados em 2000 e aclamados internacionalmente.

Na introdução de Êxodos, escreveu: “Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas…”. Ao longo dos anos, Sebastião Salgado tem contribuído, generosamente, com organizações humanitárias incluindo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, (ACNUR), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ONG Médicos sem Fronteiras e a Anistia Internacional. Com sua mulher Lélia mantém a ONG TERRA, em Aimorés, um projeto de reflorestamento e revitalização comunitária.

João Soares Neto,

escritor

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 3/23/2018.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA