A LATA E A MANIFESTAÇÃO - Jornal O Estado

O Apolinário é um velho conhecido meu. Encontrou-me esta semana. Horário do almoço, sol a pino. Estava suado e transtornado. Puxou-me para um bar no canto da rua e falou de sua preocupação: – Há um barulho esquisito, muito estranho, no meu celular. Perguntou-me o que achava. – Deve ser problema de sinal, depende do local onde você esteja; todos os telefones estão assim, e tentei mudar de assunto.

O Apolinário pegou no meu braço e falou: Creio que estou sendo escutado; coisa séria. O chiado é estranho. Todo mundo diz que a Dilma foi gravada. Imagine eu que não tenho ninguém para me defender e orientar. E o seu nervosismo aumentava. E soltou um “ajude-me”.

Eu estava apressado, mas o Apolinário não me dava trégua. Ele pedia ajuda e os seus olhos estavam marejando. Respirei fundo, olhei para o seu corpo avantajado, suado, cinturão no último furo, barba por fazer e mãos úmidas. Falei: você está com medo de quê? Fez algo errado? Há alguma coisa que não me tenha me dito? Ele pediu uma cerveja, pois o garçom nos olhava como a dizer: sentam e não vão pedir nada?

Tomou um gole, limpou a boca e arrematou: – Sabe aquela passeata, a que teve quebra-quebra e em que umas pessoas foram presas? Sei não, Apolinário, já são tantas manifestações e caminhadas. Ele me diz em voz baixa: – Aquela em que a polícia baixou o pau sem dó, nem piedade e na qual uma pessoa foi atingida na cabeça por uma lata de leite em pó? E emendou – Fui eu que joguei a lata. Estava no meu escritório, aporrinhei-me e mandei a lata lá do segundo andar. A desgraçada caiu na cabeça de um policial grandão que acabara de tirar o boné para limpar a testa. Tenho acompanhado o caso. De longe, é claro, mas não sei o estado dele. Não deu nada no jornal e agora esse chiado no meu telefone. Estou sem dormir, e nem falei para a minha mulher, sabe como é, ela anda com raiva de mim faz tempo. Você não podia dar um jeito para descobrir?

Fiz-lhe mais uma pergunta: – A lata estava cheia, lacrada? Ele abriu um sorriso meio maroto e gritou: não!, estou salvo, o leite voou e a lata seca não deve ter feito nenhum estrago. Sem paciência, perguntei: posso ir embora? Ele disse, distraído: pode ir, boa tarde, e concluiu: – Garçom, traga mais uma gelada.

João Soares Neto,

escritor

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/05/2018.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA