DE MASCATE A VISCONDE - Jornal O Estado

“O prestígio sem mérito obtém considerações sem estima”.

N. De Chamfort, escritor francês, séc 18.



Em um dia como hoje, 28 de dezembro de 1813, há exatos duzentos anos, nascia Irineu Evangelista de Souza. Gaúcho do interior, de família pobre. Seu pai, João Evangelista de Souza, pequeno fazendeiro, foi assassinado. Em 1818 foi levado por um tio para o Rio. Partiu na vida, com três anos formais de estudo, como balconista, e já aos 15 anos, deu uma guinada.

Conheceu Richard Carruthers, escocês, ávido com a abertura do porto do Rio para o Reino Unido. Com Carruthers, de quem tornou-se amigo e, depois, sócio, Irineu aprendeu a ser guarda-livros e maçom, a falar inglês, e a saber que o mundo era maior que a única viagem que até então fizera.

A vida de Irineu deveria ser objeto de estudo nas boas escolas de administração deste XXI que se contentam em homenagear pessoas vivas, alguns dignos, e certos blefes nacionais. Essas escolas persistem em manter como referências modelos de gestão estrangeiros e incensa empresários europeus e/ou americanos. Pelo menos, a Associação Comercial do Rio de Janeiro, hoje presidida pelo cearense Antenor Barros Leal Filho, instituiu o prêmio Barão de Mauá, o pioneiro da industrialização brasileira. Esse galardão é conferido a pessoas e instituições que encerrem serviços prestados à formação e à difusão da educação.

Mauá teve fundição, estaleiro, navios, iluminação a gás, construiu estradas de ferro, foi deputado pelo Rio Grande do Sul, fundou banco e expandiu os seus negócios para o exterior. Em 1840, já estabilizado no Rio, mandou vir dos arroios gaúchos, sua mãe, Maria de Jesus; a irmã, Guilhermina, com a filha adolescente, Maria Joaquina. No ano seguinte, Irineu, de regresso de uma das muitas viagens de negócios à Inglaterra, traz uma aliança para Maria Joaquina, a sobrinha, que vira sua esposa. Tiveram 12 filhos.

Em 1854, aos 41, inaugura 15km da ferrovia que ligaria o Rio a Petrópolis, ocasião em que recebeu do próprio Imperador, Pedro II, com quem tinha desavenças, o título de barão de Mauá. Vinte anos depois recebe o título de Visconde, um nível acima do baronato, honra concedida pela monarquia por ele combatida com tanto fervor quanto o fim da escravatura.

Segundo Kenneth Maxwell, historiador britânico contemporâneo, “ele se opunha ao comércio negreiro e à escravatura…No auge de sua carreira, em 1860, controlava 17 empresas no Brasil,Uruguai, Argentina, Reino Unido, França e Unidos”. Nem tudo foi glória na vida de Irineu. Chegou a falir, mas conseguiu a plena reabilitação, antes de falecer em 1889, antes da proclamação da República.

Conheci, há tempos, Jorge Caldeira, professor e biógrafo, que tinha escrito, no ano de 1995, o livro “Mauá, o Empresário do Império”, pela Cia. das Letras. Fiz-lhe diversas perguntas sobre o livro e o Irineu. Jorge ficou intrigado com a minha curiosidade. Ela permanece. Irineus são poucos, ainda hoje.

João Soares Neto,

escritor

 

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/06/2018.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA