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ERASMO PITOMBEIRA POR AUDIFAX RIOS - Jornal O Estado

 

 
Cedo, respeitoso, este espaço a Audifax Rios. Ele sumarizou, antes de ir para o além, a vida de Erasmo Pitombeira, agora falecido: “Pitombeira foi criado na Fazenda Mutuca, embora tenha nascido na Fazenda Pedras, ribeira do Palhano, Vale do Jaguaribe. Filho de vaqueiro e, por parte de pai e mãe, neto, bisneto e tataraneto de vaqueiros estabelecidos no vale do rio das onças, ele viveu seus primeiros tempos acompanhando as estórias contadas no alpendre da casa grande da velha fazenda assentada nas quebradas do riacho das Imburanas.

Levou a meninice botando bezerro para mamar na “tiração” de leite do curral das vacas, vendo a “ferra” dos bezerros e a “assinação” dos cabritos e cordeiros, dando banho nos animais de sela nos poços do riacho ou no açude velho, botando “pareia” de cavalo no caminho da capoeira e ouvindo os fuxicos que corriam pela cozinha e casa de farinha. Criou-se “vendo” a água cair aos “potes” nas imensas telhas da coberta da velha casa e “sentindo” o estremecido do estrondo do “pai da coalhada” lá para as bandas do caminho direito.

Quando acabou o aprendizado disponível na escola de casa, foi para a capital fazer o exame de admissão. Foi quando, somente aos dez anos, ouviu pela vez primeira a pancada do mar e ficou admirado com aquele lombo d’água bonito do oceano que jamais enxergara. Seguindo o destino traçado de “ser doutor”, depois de estudar em colégios na capital, passou no vestibular da UFC e graduou-se em engenharia civil. Na sequência, em busca de aumentar sua “sapiência”, se largou por este mundo de Deus, por “seca e Meca” divagando pelo Brasil e exterior e pósgraduouse, pasmem, em Engenharia hidráulica Maritima, que nada tinha a ver com suas origens. Voltando à terra natal, o “doutor” se abancou na sua antiga Escola de Engenharia, já então Centro de Tecnologia da UFC, onde há trinta anos é professor do Curso de Engenharia Civil, lecionando as disciplinas de Portos e Engenharia Fluvial e realizando consultorias.

Mas o caminhamento por este mundo afora não “afogou” o verdadeiro aprendizado que ele adquirira ao longo do tempo de menino, que foi ser sertanejo e assim, procura manter seus modos e tradições como tal e no meio da vida que leva na casa da rua sempre encontra tempo para as vivências interioranas. Conforme seus ideais de vida, quando se livrar do obrigatório trabalho e do cipoal de medo e insegurança em que se tomou a cidade, pretende voltar de vez à terra onde deixou seu umbigo enterrado na porteira do curral e por lá gastar o resto dos dias de vida que lhe foi destinado.

Esgotado esse prazo, literalmente entregará seu corpo ao chão e ficará em contato total com a terra áspera e pedregosa dos tabuleiros do seu sertão, lá poderá sentir o calor do chão e a terra se molhar quando chover, ouvirá o canto soturno da “cauã” chamando a desgraça da seca para o sertão, o piado do gavião “ripina” aboletado no gancho mais alto do galho morto do angico, o cantarolar monótono da asa branca na sombra da ramada do mulungu e o gritar sem fim dos tetéus nos ariscos. Sentirá o pisado das reses e o seu cheiro quando um magote de gado ficar se batendo ou malhado no tabuleiro, botado para fora da caatinga pelo aperreio da mutuca. Poderá ver o risco inflamado de uma “zelação” na noite escura de céu estrelado e se divertir vendo os fogos de santelmo caminhando em seus perambuleios no campo santo do alto do Cruzeiro. Para o todo o sempre, amém”.