BODE IOIÓ, ANIMAL POLÍTICO

Era uma vez, no início do Século XX, precisamente no ano de 1901, uma aldeia portuguesa de Castelo do Bode, lugar modorrento, onde nasceu Joaquim Soeiro, vindo ao mundo de um parto difícil que levou sua mãe primípara para o além. Não o Além Tejo, mas o do insondável. Viveu ali até ficar adulto, sem perspectivas e ficou triste e sem graça alguma depois que o pai morreu de uma queda de cavalo. Isso fez Joaquim criar coragem de se aventurar para outro além, o além mar. Cofiou a nascente barba, ouviu histórias de patrícios no Brasil e veio dar com os costados em Fortaleza, em 22 de agosto de 1920. Era moço forte, de poucas letras, cabelos e olhos castanhos, estatura meã e pele que deixava transparecer, quem sabe, algum sangue mouro em suas veias.

Desembarcou do vapor cargueiro inglês Manchester, onde trabalhara na pintura do convés e ajudara na cozinha, a troco da passagem sem volta, trato feito com o comandante Thomas Cavendish, que estava temeroso com as verdes águas cearenses, pois há pouco ali havia afundado o navio Águia. O Manchester, guiado por um prático, aportou são e salvo, cheio de mercadorias para a Rossbach Brazil Company, uma empresa britânica que tinha como correspondente no nordeste o industrial Delmiro Gouveia. A Rossbach era localizada ali mesmo perto do caís, na Praia de Iracema, onde Joaquim logo conseguiu emprego de capataz, graças a ajuda do pernambucano José Magalhães Porto, que aqui representava os interesses de Delmiro Gouveia.

Dentre as muitas tarefas de Joaquim, uma delas era cuidar de um bode mestiço, da raça parda alpina, vindo lá das bandas de Canindé, uma espécie de mascote da firma. Joaquim ia sempre cortar capim nas margens ensombradas do Rio Pajeú, seguido do bode que não usava cabresto. Ao voltar, colocava, ao lado da água limpa, o molhe cortado no velho cocho de madeira onde o bode se resfastelava. Joaquim dormia ao lado, em uma espécie de enxovia, nos fundos da empresa, onde o bode até então reinava.

Para onde Joaquim ia, o bode o acompanhava, uma espécie de ioió, que subia lampeiro a ladeira da Prainha, de areias brancas e poucas casas, encimada pelo Seminário. Passava pela Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, alcançava a Praça do Conselho e daí pela Rua Direita até o centro da cidade. Era sempre noite jovem quando Joaquim chegava à Praça do Ferreira com o bode no seu encalço. Foi nessa época que passou a ser chamado de Bode Ioió, por suas idas e vindas com Joaquim, tal qual o brinquedo de rodas de madeira e cordão preso.

Na noite de 07 de setembro de 1921, aconteceu a inauguração do Cine Moderno, com cadeiras de madeira e palhinha, letreiro frontal anunciando o filme “Carmen”, com Paola Negri, e a banda de música tocando polcas e valsas na Rua da Palma, no lado oeste da Praça do Ferreira. Lá estavam no sereno, do outro lado da rua, Joaquim e o Ioió vendo as figuras importantes da cidade chegarem. Uns vinham a pé, outros de bonde, alguns poucos em dois carros Chevrolet e um único Ford-T, mas todos ataviados à espera do Governador Justiniano de Serpa e do Intendente Godofredo Maciel. Foi então que o Ioió calmamente atravessou a rua e se pôs a comer a fita simbólica verde-amarela. Quando repararam, só restavam uns tocos de fita de um lado e do outro da entrada principal do cinema e o Ioió recebeu aplausos dos boêmios e intelectuais que, de longe, olhavam tudo e o proclamaram como o inaugurador oficioso do Cine Moderno. Ainda não eram 19:30, a hora marcada para o início da única sessão.

Daí em diante, o Bode Ioió passou a ser figura popular e querida entre os boêmios e intelectuais que faziam ponto no Café Java, olhando para o coreto, do outro lado da Praça, ali mesmo onde nascera a Padaria Espiritual. Alguns deles jogavam cerveja, quinado e cachaça ao chão e o Ioió não se fazia de rogado, lambia tudo, mas ficava sempre sóbrio e obediente ao Joaquim e com ele voltava antes que fossem apagadas as luzes da cidade, quando não havia contrato com a lua cheia.

Joaquim sabia que precisava estudar e que o caminho para melhorar de vida era fazer um curso para contador. Ia às aulas sempre em companhia de Ioió, que ficava mansamente pastando na Praça da Lagoinha. Terminado o curso, passou a auxiliar de guarda-livros, já usando terno de zuarte. Conheceu algumas pessoas e foi convidado a entrar na Maçonaria, por seu bom caráter e referências. No dia de sua iniciação, chegou com o trajo regimental, roupa preta e gravata de laço, não sem antes de ter o cuidado de deixar o Ioió em um cercado próximo. Qual não foi a sua surpresa, ao conhecer o simbolismo, alegoria, ritual da confraria e as brincadeiras dos novos irmãos, de ser chamado de “novo bode”.

Joaquim seria então, pensava consigo mesmo, a partir daquela noite solene, um “irmão” do Ioió que, a essa altura, já derrubara o cercado e fuçava a entrada da porta fechada da loja maçônica. Voltaram juntos os dois “bodes”, mas na porta da loja “Igualdade e Fraternidade” ficaram marcados como uma xilogravura surrealista os buracos dos chifres do Ioió. A partir daquela data, Joaquim resolveu cultivar um cavanhaque, como a se mirar e inspirar no seu “irmão” Ioió.

Um belo dia, uma jovem estudante, morena fogosa, de largas ancas, longos cabelos cacheados e olhos pretos amendoados, fez a cabeça de Joaquim ficar perturbada. Passaram-se meses, até que a moça, Maria Braga, que vivia com a mãe viúva em uma meio-morada na pacata e arenosa rua da Soledade, 54, uma transversal ao Seminário, aceitasse a sua corte, pois se travava de rapaz estrangeiro trabalhador e de futuro. Maria se fazia feliz e dengosa, cheirando a alfazema, e saía com Joaquim e o bode a passear e a chupar roletes de cana, cujos bagaços eram pronta e alegremente mastigados por Ioió. Depois de meses, Joaquim resolveu-se: Maria era a mulher de sua vida. Falou com a viúva-mãe, mandou correr os banhos e casaram-se na Igreja do Rosário numa manhã meio chuvosa de sábado, enquanto o Ioió curtia sua solidão tomando restos de cervejas, quinados e cachaças no Café Java, tirando gosto com as páginas de um exemplar de “Libertação do Ceará”, livro de Rodolfo Teófilo, que descansava em uma desguardada cadeira. Foi nesse dia que ele se rebelou contra a oligarquia dominante, revelando-se a partir daí o animal político que foi.


<< Anterior Próximo >>