IDA

O homem aquietou-se. Estava perplexo. Chovia e ele não sabia o que fazer. Era noite, não pela madrugada, mas escuro fazia.

Não sabia o que fazer. Fugia e parara. A perplexidade por sua atitude estancara-lhe o passo. Agora, parado em uma dobra de porta, ouvia o pulsar calmo de seu coração já conhecido por mãos médicas. Ouviu também a chuva e respirou o ar úmido. A lâmpada do poste estava aureolada, como se um arco-íris a tivesse composto.

Desaquietou-se com o tom monocórdio da chuva que aumentara. Os pés úmidos já não eram protegidos pelos tênis empapados. Seu peito voltou a arfar e refletiu que tinha de continuar a fugir. Ali não era o seu destino. Era passagem. Os cigarros, no bolso único da camisa, ainda existiam. Uma promessa que se esvaiu por não ter isqueiro. Deixara-o na sala de sua casa. A casa para a qual nunca mais voltaria. Isto havia decidido e não mudara de pensar. Era um velho isqueiro Zippo, metálico, ativo e eficaz. Por quê o esquecera ?

Também, tudo acontecera muito rápido. A consciência de que tinha de fugir o fizera perder o sentido das coisas. Já não importava mais. Agora era um homem sem volta. Só tinha ida e a chuva o fazia distante do seu sonho. Ou seria pesadelo? Fazia diferença alguma, era uma decisão sem remorsos. Os remorsos vinham do que a vida lhe aprontara e ele caíra na cilada do inesperado. Tudo corria tão bem, até as mazelas do seu coração haviam cessado, mesmo quando as estatinas deixaram de ser tomadas regularmente.

Voltou a andar. Tão rápido quanto lhe permitia o ar rarefeito pelo coração visitado e recomposto. Dobrou à esquerda. Estava saindo da cidade, faltava pouco, bastava atravessar a ponte e andar cem passos. Conhecia o trajeto desde criança. Agora seria a última vez que o faria. Só tinha ida. Limpou a testa, não sabia se era suor ou água, sabia que era líquido, mas tudo era líquido. A chuva, o suor e a certeza de que errara. O erro é líquido? Ou é sólido? Sabia não. Sabia que liquidara o seu tempo de passado. Fechara as portas da casa e jogara a chave no lago. Não se importava com o que ficara. Nada mais lhe dizia respeito. Era só ida.
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