VIDA NOVA

Saíra fugida no meio da noite. Umas poucas roupas na sacola e o dinheiro que havia na carteira do marido dorminhoco.Dera para apanhar um ônibus e chegar ao Rio, comendo os trocados que sobraram. Não havia falado com nenhum parente. Todos estavam ocupados com suas vidas e ela a procurar refazer a sua, destruída por um casamento sem sentido, sem filhos e sem amor. O marido era baixo, gordo, velhote, e dono de padaria de subúrbio. Saia pela madrugada e chegava na boca da noite com odor de massa de pão e hálito de conhaque barato.

Cansara de ver televisão, passar roupa e requentar comida. Fugira. Não sabia o que era o Rio, mas sabia que lá poderia ter vida nova. Era o que ouvira e vira na televisão. Desceu do ônibus, olhou tudo em volta na grande rodoviária e saiu andando sem destino. Era manhã alta, fazia calor e a sacola estava cheia de roupa suja, usada na viagem. Menstruada, com o corpo alto, esguio e jovem moído da poltrona dura e os olhos castanhos inquietos procurando não sabia o quê. Andou por duas horas, estranhando o trânsito pesado e se viu em frente ao mar. Era um mar azul, quase sem praia, diferente do seu. Havia barcos, grandes e pequenos, em vez de jangadas e a brisa mudava. Fazia um vento que trazia sensação de frio e ela sentou em um banco vazio, tão vazio quanto seu olhar duro.

De repente, um homem moreno, musculoso, trintão, rosto bexiguento, calça branca, grosso crucifixo e camisa verde aberta de seda, sentou ao lado. Puxou conversa.

- O que a boneca está fazendo aqui neste banco solitário?

Ela continuou olhando para o nada e não respondeu. Ele insistiu:

- Quer dizer que não vai falar?

- Moço, estou cansada, desculpe.

- Vi logo que a boneca não era carioca. De onde vem essa beleza?

- Sou de Esperança.

- Ouvi falar. Lá mora uma amiga, a Dulcinha, que teve um caso comigo quando eu andava em boite. Ela tem uma filha, a Soraia, que teima em dizer que é minha.

Ela assustou-se e levantou. Ele segurou a sua sacola e disse, entre dentes:

- A boneca pode descansar no meu lar. É só subir o morro. É logo ali.

Estava sem forças, sem dinheiro e não sabia o que fazer diante daquele homem que a amedrontava e, ao mesmo tempo, a atraia. Talvez fosse o cheiro de perfume misturado com um suor forte que, em nada, lembrava o olor de massa de pão do seu marido. Era cheiro de macho, de gente que quer sexo e ela estava sentindo isso nas narinas que inflavam sem disfarce.

Atravessaram a larga pista. Os barcos ficando para trás. O sol baixando e ele segurando a sua mão. Pararam em um boteco na rua transversal. Sentaram em bancos altos junto ao balcão de cobre. Pediu para ela: dois ovos mexidos com presunto, feijão, arroz, farofa e um suco. Tomou duas cachaças com tira-gosto de salame. Palitou os dentes, jogou em uma milhar do galo, mandou colocar na conta e saíram. Foram subindo uma ladeira. Ela, calada, mas a mão suada não largava a dele. Era calosa, apertava-lhe os dedos, mas não com muita força. Dava segurança. Passaram por um posto policial e ele cumprimentou os fardados com dois minutos de prosa. Pareciam velhos amigos. Dobraram a esquina e a rua sumiu. Era agora apenas uma viela estreita com escadaria de pedra tosca, barracos em cada lado, meninos correndo e cães latindo forte. Subiram, subiram e, quando parecia que suas pernas iriam falhar, ele parou na frente de um barraco azul. Tirou um chaveiro do Flamengo do bolso da calça, escolheu uma chave, girou e empurrou a porta com o pé. A sala se mostrou. Era repleta de garrafas de uísque. Tinha de todas as marcas, umas cheias, outras vazias. Havia um funil, bambonas de plástico com cheiro de álcool, pós-químicos, sacos com tintura amarela e uma pequena prateleira com rótulos, tampas e selos. Passaram por entre as garrafas e ela viu a cama em desalinho. Ele disse: lá fora tem um banheiro. Era pegado à encosta do morro. Tirou a roupa, pendurou-a numa ripa que saia do teto. Abriu a torneira e a água fria do chuveiro pareceu apagar toda a sua história passada. Havia um toco de sabonete e ela limpava o sangue coalhado que restara da menstruação.


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