A MULHER DA NUCA

O homem maduro estava indócil. Sempre à espera do que não sabia definir.Sabia que esperava uma mulher. Não uma mulher qualquer. Dobrava sentido, o tempo passava e ele não encontrava a mulher certa. Circulava, mexia-se, namorava e todas as semanas repassava o que havia na sua agenda. Muitas mulheres disponíveis, de todos os tipos, mas não havia a que ele imaginava ser a mulher certa.

Viu-se escrevendo, a contragosto, definindo as qualidades do que seria a mulher certa. Idade, raça, tipo físico, escolaridade, cultura, família, nível de renda, comportamento social, conteúdo, imagem pública, grau de liberdade e beleza. Parecia um concurso. Coisa idiota. Mas, pegou a sua lista e saiu colocando esses, para sim e enes, para não.

Algumas ganhavam muitos esses e poucos enes. Mas não havia nenhuma, em seu amplo e difuso critério, que tivesse a maioria de esses. Faltavam sempre elementos que considerava básicos como a idade certa, beleza, comportamento social, cultura, o nível de renda etc.

Era uma coisa ridícula, além de idiota, esse tal critério que adotara, sabia disso. Era tão ridículo que resolveu colocá-lo dentro de um livro no fundo de uma gaveta. Continuava a fazer a sua ronda, viver as suas horas de luxúria e freqüentar com amigas a discrição de bares e restaurantes adjacentes, onde não seria visto com a mulher que não era a certa. Seu coração parecia fazer um piquete contra a vulgaridade.. O tempo e a vida foram reduzindo o rol de amigas. Ficaram algumas, mínimas, mas nenhuma tinha os tais dos esses em maioria.

Um dia, na verdade uma noite, foi a um cinema. Estava acompanhado de uma do rol, que era uma mulher bonita, agradável, mas que não tinha, por exemplo, o conteúdo desejado.Chegaram antes da sessão começar, sentaram-se e viu uma nuca de mulher exatamente em sua frente. Uma nuca como jamais havia visto. Os cabelos meio louros puxados para cima em um pseudo-displicente coque. Era uma nuca de cabelos ralos, uma pela branca com o sal do sol e o viço consistente da mulher que ainda amadurecia. O que existiria do outro lado da nuca?

Não sabia se foi o seu olhar fixo na nuca, mas houve um instante em que a nuca virou. E foi aquele choque, mas naquele mesmo instante as luzes apagaram. Aquele alvoroço lá por dentro dele. Do que conseguiu vislumbrar parecia uma silhueta de mulher pronta. Imaginou, imediatamente, que seria discreta, bonita, dentes cuidados e um ar daquela atriz inglesa que sempre parece contracenar com o Anthony Hopkins. Ela mesma, a Emma Thompson, a que lembra uma mulher diáfana, frágil e, paradoxalmente, cheia de mistérios. Parecia que era uma personagem de Razão e Sensibilidade, mas era só uma nuca. Que nuca.

Não lembrou sequer o que viu no cinema. Não importava. Era só a nuca, que ocupava a sua mente e queimava a sua vista, e um suave perfume que vinha da cadeira defronte, a não mais que meio metro da sua. Antes dos créditos finais do filme, ela saiu na penumbra de passo firme com o rosto encoberto por um celular que colocara ao ouvido. Apressou os passos atrás da mulher da nuca e só via pescoços roliços, curtos, feios, nada que se só comparasse a nuca que perdera de vista. Onde ela se metera? Na verdade ele não a perderia de vista. Pois nas suas retinas e no mais íntimo do seu sentimento estava gravada a imagem da nuca que procuraria até o último de seus dias. Agora sim, a sua vida teria sentido.


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