DESPEDIDA

A carta:

Não importa que você não tenha entendido integralmente o que escrevi. Importa a minha conduta, leitura da realidade, pois sei que tudo é relativo, nada é absoluto, Mas, sei também que os livros de auto-ajuda dizem que o passado já passou e o futuro vem depois. Não é bem assim. Prefiro pensar com W. Faulkner: “O passado nunca morre – não é nem mesmo passado”. Já havia escrito e enviado, quando você disse, ao telefone, da sua apreensão com a visita que foi feita à sua casa, pois era o passado que não é nem mesmo passado, chegando, incomodando, interferindo no seu bem-estar.

Não falei em despedida, você o disse. Falei de óbices e as metáforas que usei foram uma forma não linear de dizer que acredito em você, que me considero uma pessoa com quem se pode contar, sempre. Adeus,

estarei aqui,

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A resposta :

Sem dúvida os encontros e desencontros permeiam a vida, tornando-a rica e inusitada, pois ambos têm sua função, desde que bem aproveitados.

Acredito que os encontros mais importantes são os intrapessoais, os internos. Sem encontrar e unir as próprias partes interiores, sem definir e conhecer as "formas" que se possui, os desencontros interpessoais serão uma constante e o único encontro possível e certo será com o "caos" .

Talvez o(s) desencontro(s) interno(s) explique(m) exatamente a "gênese do caos “ . Muitos se habituam ao “caos” de tal forma que nem mais percebem a perda daquilo que nunca tiveram. E nem terão, pois "caos" torna-se um porto seguro, obviamente não possui "formas", muito menos fronteiras entre interno e externo. Para esses tantos, o dismorfismo torna-se tão imprescindível para a própria sobrevivência que optam pelo caminho mais fácil. E taxam tudo aquilo que for diferente da referência que possuem, digo, da ausência de referência , como desencontro.

Não consigo imaginar 240.000 horas presa em uma forma fixa, a beleza do viver, especialmente a dois, consiste em ajustar as formas, encaixa-las e procurar por alguns segundos tornar-se uma só forma, linda e harmônica. Um dia quando ou se as formas não mais se encaixarem, o "caos" ressurgirá, mas como mero visitante, não como dono da casa.

Penso que os poucos segundos devem valer mais que 500.000 horas, afinal uma característica da felicidade é não perceber que as horas se passaram, assustar-se ao olhar o relógio, seja ele original ou falsificado....Essa questão do tempo para mim, a famosa quarta dimensão, como pura subjetividade que é, diante do real, do concreto, torna-se insignificante.

Ontem eu falei que você me surpreendeu. Hoje posso repetir a mesma frase, mas com sentimentos diferentes. Sei que os paradoxos existem, mas fico agora a questionar em quem as "formas" estão precisando de refinamento e ajuste de conduta, assim como discordo da "quase-lucidez".

Apenas para terminar, quase esqueço de dizer o que penso sobre as "milhas e milhas a percorrer", do poeta Robert Frost ou dos quilômetros e quilômetros que poderiam ser percorridos no Brasil, não entendi porque dois pilotos diferentes, uma vez que aviões um pouco maiores são mais estáveis e sofrem menos turbulências...piloto e co-piloto são importantes para chegar a algum lugar, assim como durante o percurso, podem alternar as funções (desde que sigam o plano de vôo e respeitem a altitude preestabelecida). Assim, os choques (pelo menos os letais) podem ser evitados.

Desculpe, devo ter escrito um monte de bobagens, mas mesmo sem ter encontrado nada do que citei, mesmo sem piloto,co-piloto, voltei a acreditar na possibilidade de um percurso de milhas e milhas ser percorrido a dois em frações de segundos, uma vez que a subjetividade do tempo permite isto... anos,horas,segundos,não são motivo de separação, coisas bem mais sérias, sim. Nem sempre a vida permite novas viagens.

Que pena! Entretanto, você me fez bem por me fazer voltar a acreditar em sentimentos, afinal, em menos de 24 horas, segundo sua matemática, vivi momentos que permanecerão por muitos anos.

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Resposta segunda:

o mundo é uma sucessão de desencontros, mas há alguns encontros. Nós, por exemplo, já nos encontramos duas vezes e tivemos um desencontro. O encontro é comunhão. O desencontro é excomunhão.

Agora, por acidente, nos revimos e passamos a quase comungar, ainda cheios de páginas de outras estórias, personagens outros, invasões de privacidade, tempos vividos, situações sentidas e emoções recalcadas ou apascentadas.

De minha parte, com a minha quase-lucidez, tenho o sentimento de que ainda há em você um ser a procurar de forma, como se ainda estivesse sendo modulado com o laser do bem pensar, com a descoberta da essência de ser gente e a agulha da inteligência de quem está por trás dos instrumentos.

É um processo, leva tempo, precisa de várias aplicações sucessivas e bem feitas. É um treinamento contra as tralhas, os invasores de sua privacidade, os oportunistas do uso do seu corpoe do seu tempo.

É também, uma luta contra o paradoxo de cuidar da estética e poder ser simples, sem exageros, sem apelos.É a opção do encontro com gente menos turbulenta, mais aquietada, lowprofile, sem a carência de ser show off. De estar bem sem precisar de alvoroço ou adicto virtual ou real.

É provável que as minhas palavras sejam produto do tempo que me açoitou e não acalentou minhas dores, mas me deu olhos para ver o que foi perdendo significação. Por outro lado, acredito que a sua lida, sua faina, seu senso estético, passam por um refinamento, um ajuste de conduta, uma revisão de métodos e processos pessoais. Você tem futuro, basta cuidar do presente.

Não faça planos comigo,além dos fatos pré-existentes em ambas histórias pessoais, há anos nos separando, mais de 340 meses, 10.000 dias, cerca de 240.000 horas e o que passamos juntos chega a menos que um dia em horas corridas. Assim, há "milhas e milhas a percorrer", como diria o poeta Robert Frost e temos dois pilotos diferentes, uma no apogeu de seu preparo e habilidade com a máquina e o outro como se fora apenas um manager de uma escuderia que dá voltas em um autódromo sem público, nas horas mortas, com velocidade menor e vendo a pista com outro olhar.

Estarei sempre por perto, se isso convier e for justo, sem causar trauma, mas ao continuarmos na forma que você tem o direito de sonhar, eu negaria o que recrimino nos outros, o que não olho pacificamente quando vejo e, ainda teria sérios - acredite - problemas com familiares que não entenderiam como natural o que a cronologia, via de regra, não aceita.

Não há falta de benquerença, ao contrário, saiba disso, por ser verdade e você sentiu. Mas, além dos óbices pessoais, há ainda uma réstia de caretice, quem sabe, que teima em ser uma trave no meu olho interno, incomodando quando da introspecção dos meus sentimentos.Um beijo grande,

 


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