PESADELO

Pesadelo?. Sei que estou sentado na cama, os pés já metidos nos chinelos e o olho duro para uma pintura defronte. É um quadro bonito, destacando, entre cores difusas, um seio de mulher. Abro a janela, desligo o ar condicionado e deixo que o sol entre com a sua energia e densidade. Vejo o casario e tento lembrar o que aconteceu entre a hora que sai de casa e voltei. Tento e não consigo.

Dirijo-me ao banheiro, olho para a minha cara já tão conhecida e ela não me repreende ou aprova. Tampouco dá bom dia. É uma cara neutra, indiferente aos meus questionamentos sobre o que aconteceu na noite anterior. Escovo os dentes com calma e, enquanto o vai e vem da escova sugere um embalo de trem, fico pensando no que teria acontecido ontem à noite. Sei que saí. A prova está na roupa usada, nos sapatos espalhados pelo closet e na carteira sobre a mesa. Abro a carteira. Não há dinheiro dentro. Será que eu tinha dinheiro? Não lembro.

Entro no box e vejo o que parece ser uma mancha de sangue coalhado na minha perna esquerda. Passo a mão e sinto a superfície crestada do que imagino ser sangue. Quase desfaleço. Esfrego tanto a minha perna esquerda com sabão e esponja que fica uma marca vermelha em forma de rim. Deixo que a água fria molhe e lave o meu corpo de forma completa. Estremeço. Fecho os olhos e tento me situar no tempo. O que me fez sair de casa? Não tenho a menor pista. Que mancha seria aquela? Saiu a mancha, ficou a marca. Demoro tanto no chuveiro que saio com frio. Enxugo-me e quase piso no Toco, um cãozinho fiel que acompanha os meus passos.

Consulto o relógio: 8.00 horas. Não há muito barulho lá fora. Que dia é hoje? Deve ser feriado ou fim de semana. Olho na minha agenda, mas ela está limpa, sem nenhuma indicação ou pista. Pode ser qualquer dia. É estranho, mas não me apavoro. Pego um radinho de pilha e ligo. Não sai nenhum barulho. Mexo nas pilhas e nada. Olho para o lugar da televisão e lembro que foi para o conserto. Pelo menos, isso. Já lembro de alguma coisa.

Visto um calção qualquer e vou à cozinha. Abro a geladeira e retiro uma maçã. Vermelha como sangue, e fria. Vai assim mesmo. Mordisco e sinto no sumo um gosto de sangue escorrer pela garganta. É sangue ou energia que planto neste corpo que pede explicação de seus atos. Pede e não sei responder. Sei que saímos junto, corpo e mente. Aliás, os dois precisam chegar a um acordo e eu necessito saber dos meus passos.Vou ao quarto e procuro nos bolsos da calça usada alguma explicação. Encontro um guardanapo de papel amarfanhado com cheiro que parece ser de Eau de Soir e uma frase escrita com letra de mulher: amo ou não amo você? Você me ama ou não? Não tem assinatura, tampouco data. Há um registro difuso na minha memória sobre a forma da letra. Letra de quem tem personalidade. Grande, certa, equilibrada e bonita. Tudo escrito com tinta preta. Mas quem terá escrito isso? Se eu me lembrasse aonde tinha ido? Ora, se não lembro aonde fui, como lembrar com quem estava?

Tento pegar o guardanapo e ele cai ao chão. Toco achou que era brincadeira e comeu um pedaço do papel. Agora, só resta escrito o seguinte: ´me ama ou não?´ Tico comeu ´o amo ou não amo você?´ e ´você´. Baixo-me e volto a olhar o que ficou da mensagem. Não consigo lembrar de nada, apenas o cheiro de Eau de Soir se mistura à baba do Toco.

Olho o telefone: mudo. Ligo a secretária eletrônica e não há mensagens. Apenas a minha voz roufenha que diz: Deixe a sua mensagem. Ninguém ligou. Ora, se ninguém ligou, como terei saído e com quem terei saído? Meu telefone celular está desaparecido há dias e ainda não comprei outro. Usei o silêncio dele como umas férias das conversas que não têm conseqüência.

Ainda estou com fome. Vou novamente à geladeira e tomo um suco de pacote. Sinto gosto de sangue, novamente. Confiro no pacote: suco de Uva. Uva tem cor de sangue. Nunca tinha ouvido falar que suco de uva tivesse gosto de sangue. Deixa pra lá.

Abro a porta da entrada e vejo o jornal ao chão. Sento-me em uma cadeira da sala, acendo um cigarro, ponho os pés para o alto, revejo a marca que permanece na perna esquerda e leio a manchete: ´Crime misterioso. Mulher encontrada morta no elevador.´ Procuro o corpo da notícia e vejo o retrato da morta copiado de sua identidade. Lá está a sua assinatura. A letra, eu conheço. É a mesma do bilhete. Tomo um susto, o coração descompassa, dou um trago forte no cigarro, apago-o no cinzeiro e fecho os olhos. Meu Deus, o que aconteceu?

A campainha toca.

<< Anterior