PREFÁCIO DO LIVRO: VOE COMIGO QUANDO DESMORRER

Imagino-me passeando por Santana do Acaraú. Dou voltas pela Praça São João, benzo-me diante da sua Igreja,  tento localizar o lugar onde o Pe. Antônio Tomás foi enterrado na Matriz, fotografo mentalmente o sobrado do Padre Araken, percorro a Praça do Alto da Liberdade, ouço vozes dentro do Patronato de Santana, compro uma cocada no mercado público e vou espairecer às margens do Rio Acarau.

Olho para as águas, há um reflexo de luz e vejo três vultos envoltos em espumas e algas: Padre Antônio Thomaz, príncipe dos poetas cearenses, com uma sotaina preta e velha; José Alcides Pinto, a maior expressão viva da literatura santanense, ora de paletó branco, ora vestido como franciscano e Audifax Rios, com um gibão de vaqueiro, que me joga um livro e, com os outros dois, toma uma canoa feita de alfarrábios, cujos remos são duas metáforas e vão em direção ao mundo do reconhecimento, esse lugar onde só permanecem os que deixam rastros duradouros de saber entre as pessoas.

Passo a mão nos olhos e não sei se realmente vi o que estou contando, mas o livro existe, está em minhas mãos e eu começo a fazer o que gosto: Leio-o ali mesmo e fico pasmo.

Decido escrever sobre o que li e, por conta disso, peço a atenção por cinco minutos, das senhoras e senhores, não por mim, mas em respeito ao autor de Voe Comigo quando Desmorrer e à terra santanense que concebeu, em épocas distintas, figuras admiráveis de nossa literatura, essa que não enche algibeiras, mas nos dá alento para a vida e a futrica nesta província de Nossa Senhora da Assunção, a mesma Senhora de Santana, apenas metamorfoseada, fortificada, marítima e maior em amores e dores e que acolheu, Audifax Rios, adotando-o como filho.

Vamos ao livro:

Se eu fosse crítico literário ou algo parecido, certamente falaria que este novo livro de Audifax Rios completa a trilogia Memória do Encantamento, iniciada com Os Búfalos de Campanário, cresceu com Migalhas para Serpentes e agora forma o vértice ou a base desse tripé ou triângulo literário com Voe comigo quando desmorrer.
Eu diria que ele tem sensibilidade narrativa, concebe e formata a estética da imaginada cidade de Campanário, no interior do nordeste, mas que poderia ser em qualquer país hispânico da América. Constrói alegoricamente um mundo fantástico com personagens que têm identidade forte, sexo, cor, ação desenvolta, vida, quase-mortes, desmortes e morte.

Como não sou crítico literário, digo que o autor de “Voe comigo quando desmorrer”, Audifax Rios, é um escritor especial. Homem maduro, longelíneo, óculos, grisalho, observador nato, com jeito de não estar com pressa. Engano. Mexe com arte desde menino na cidade de Santana do Acaraú, onde nasceu e da qual garimpa a essência de seus romances.

Em 1962 veio ter a Fortaleza, aqui fixou seus lápis e pincéis, constituiu família, trabalhou com nanquim, aquarela líquida, guache, acrílica e se consolidou como artista plástico múltiplo, com um claro viés de pensador, pois fazia peças de publicidade que necessitam de interlocução com o público que almeja conquistar. Além disso, poder-se-ia dizer que seria um pensador-pintor-desenhista ou um desenhista-pintor-pensador.

Acontece que Audifax é mais que isso. Tirou da memória e do detalhe de cada desenho ou pintura que fez e faz a sensibilidade que aplica ao escrever com sutileza, mordacidade e atilamento. Ele foi em busca de uma identidade literária a partir do seu outro eu, colocando-se como ficcionista.

O fato é que Audifax produz saber e isso já havia sido demonstrado em outros livros em que cinzela personagens, pinta cenários e cirze o enredo com uma costura que o associa ao realismo fantástico latino, sem perder a brejeirice de narrador com sua endógena nordestinidade.

Com este livro que me dá a honra de prefaciar, ele conclui a trilogia referida. Não vou apresentar “spoilers” de sua obra. Para que antecipar o prazer? Basta ir em frente e começar a leitura. Não posso deixar de dizer, entretanto, que o Audifax tem jeito e pega os olhos do leitor, prende sua atenção com a narrativa e a paisagem de Campanário, sua Macondo, viva, tão detalhada que é.

É um trabalho de sua memória, misturado à imaginação critica e às muitas leituras que cada escritor faz como pesquisa, prazer ou amor ao ofício. E daí passa a construir de forma subjetiva até uma intertextualidade que é múltipla, pois herança de tudo o que ouviu, leu, intuiu e delirou. Fora isso, as personagens de Aparício Sansão e Guadalupe, para ficar nas principais, são construídas com arte e fé de ofício e restarão guardadas nas frestas da memória de quem sabe ler ou procura ler com um mínimo de atenção e capta as nuances sutis da narrativa e seus diálogos.

O livro tem mortes redivivas, ambição, paixão tempestuosa, ironia, sarcasmo e vai num crescendo que deixará o leitor alerta para não perder detalhes que são como cascalhos, onde os olhos não podem pisar rapidamente. É preciso ir lendo, respirando e sentindo, como se estivesse de olhos cerrados para imaginar, ver os cenários que ele constrói e a história a se escorar em tema aparentemente simples.  

Fica passeando pela música, arte, gestual e sensualidade latina, especialmente do México, sem esquecer do circo, esta alegoria tão fincada em nossas raízes, da pensão de mulheres, da Igreja e do bicho-homem, entre tantas outras reinações deste escritor que consolida um estilo e o torna  referência neste tempo de muitos  poetas, mas escassos os que arrastam asas pelos duros caminhos da ficção, esse campo minado da fantasia, devaneio, alucinação, desditas que precisam de enredo, começo, meio e fim. Essa seqüência lógica dos baixos e altos de todas as vidas e das obras de fôlego. Abra a primeira página. Leia, vale a pena.

João Soares Neto

 

<< Anterior  Próxima >>