Para Ubiratan Diniz Aguiar - Saudação
PALÁCIO DA LUZ
Academia Fortalezense de Letras


Recebi a incumbência de fazer esta saudação oficial a Ubiratan Diniz Aguiar, mas o que pulsa em mim é a alegria de trazê-lo a este delírio coletivo. A pátria dos que se lançam ao desafio de expor os seus escritos aos olhos dos outros. Não importa que seja prosa, verso ou prosa poética. O que conta naquele que se mostra é a coragem de abrir suas veias e deixar que o sangue se perpetue no papel.

Ubiratan, você está chegando a este Palácio da Luz, palco nos últimos duzentos anos dos mais importantes acontecimentos deste Estado do Ceará. Um Palácio que, de propriedade privada, passou a bem público e agora é a matriz a abrigar os que trabalham com palavras sob a tutela maior da Academia Cearense de Letras.

Veja, você está nesta sala em cujas paredes erguidas por mãos nativas avistam-se pinturas, inclusive a maior de Raimundo Cela, a retratar de modo figurativo as nossas lutas ancestrais. Esta sala faz parte da história viva do Ceará.
 
A história que nos traz o poeta Paula Nei, patrono de sua cadeira, que parece dizer, dando boas vindas:

“Voa, minha alma, voa pelos ares
Como um trapo de nuvem flutuante
Vai perdida, sozinha e soluçante
Distende as tuas asas sobre os mares

Sob as asas da alma de Paula Nei você ingressa hoje na Academia Fortalezense de Letras, nascida neste Século, pelo ideal de Matusaíla Santiago e José Luís Lira.  Ela é compromissada com o futuro, sem deixar de ajustar sua sedimentação na argamassa da História, na água do passado e até no limo que exsuda destas paredes de tijolos dobrados.
 
O nosso estatuto, em seu artigo terceiro, diz que o quadro social da Academia será constituído por pessoas que exerçam atividades literárias e que estejam interessadas no bom funcionamento da Instituição.

Eu pergunto, como se fora um padre, pastor ou rabino em uma cerimônia de casamento:

- Ubiratan, você exerce atividade literária? 
- Você está interessado no bom funcionamento da instituição?
- Você quer se unir a ela?

A cada pergunta a resposta é sim, mas não precisa dizê-la de viva voz. Faça-o com a expressão da alma, aquela que não engana.

De minha parte e em nome de todos os colegas, afirmo que você exerce atividade literária e seu histórico de vida não deixa dúvida quanto ao compromisso de zelar por nossa Academia. Essa a razão de indicar seu nome, obtendo total acolhida dos nossos pares.

Ubiratan é madeira de lei: um cedro menino transplantado para Fortaleza e daqui - onde suas raízes foram fundeadas –  para o  planalto central. Esse quase sertão vermelho cujo ar rarefeito parece, às vezes, incidir na razão coletiva. Mas Ubiratan sempre teve um plano piloto pessoal que o conduziu pelos caminhos da decência. E o faz segundo uma cronologia simples, verdadeira e consistente.

Membro de família forte, a partir dos prenomes indígenas que adota, Ubiratan, filho de  Araken e Maria, estudou e trabalhou de todas as formas lícitas e lúcidas, destacando-se a sua iniciação como professor de Português do Colégio 07 de Setembro, em cujos anais o presidente Ednilo encontrou os fundamentos para também subscrever o requerimento em que eu propunha o seu nome para esta Academia.

O que dizer de um homem que, por seus méritos pessoais, consegue iniciar sua vida política como vereador, alça-se a condição de deputado estadual, secretário de Estado e chega já na qualidade de Deputado Federal, a ser Constituinte, Presidente da Comissão de Educação e, por duas vezes, é eleito Primeiro Secretário da Câmara Federal?

O jovem universitário de Direito pela UFC tinha sonhos a cumprir desde cedo, mas carecia de uma parceira de fé, uma mulher valorosa, companheira de suas quimeras e assim o  fez no verdor dos 19 anos, ao unir sua vida à de Terezita. E esse passo juvenil pode ter sido decisivo para o seu descortino e brilhante futuro.
 
Todavia, não estamos aqui para ouvir falar do filho, marido, pai, avô, Bacharel em Direito, do político e muito menos do Ministro, esse que, sem alarde, exerce o seu múnus com responsabilidade, dignidade e aprumo, fazendo-se credor do reconhecimento da sociedade brasileira.

Não queremos tampouco tecer loas ao Ministro Vice-Presidente desse fechado grupo de 09 brasileiros que formam o pleno do TCU.

A sua história pessoal não pertence a esta solenidade. Ela permanecerá viva além deste Palácio da Luz. Ela já está inscrita nos registros da Câmara de Fortaleza, da Assembléia do Ceará, do Congresso Nacional e, agora, no plenilúnio de sua vida pública, nos anais e arquivos eletrônicos do Tribunal de Contas da União.

Queremo-lo, Ubiratan, na luta coletiva para fazer este Palácio da Luz ainda mais esplendoroso, em conteúdo, formas e cores. Garboso na sua própria restauração física e do seu entorno.

Queremo-lo na barricada em favor da iniciação sistemática de jovens nos diversos gêneros literários e na sua transformação em agentes multiplicadores da arte de pensar e escrever.

Não serão Ubiratan, os seus julgados que estarão na história e nas montras ainda invisíveis desta Academia.

Queremo-lo desavisado como soe acontecer aos poetas.

Platão, no livro 10, de “A República” não encontrou lugar para os poetas na sociedade ideal que concebeu. Esse papel caberia aos reis e filósofos. Ao que se depreende, Platão se equivocou.
Ora, se o grande pensador Platão pode ter se equivocado, por que alguns acreditam ter a capacidade unilateral de estabelecer, a seu modo, juízos de valor estético? Outra utopia.
A vida real é um bem comum, diz respeito a cada um e a todos. Assim também é o imaginado pelos filósofos e o imaginário dialógico que tece o mundo literário.

José de Alencar, por muitos considerado o maior escritor cearense de todos os tempos, também político de escol em sua época, disse certa vez:

O cidadão é o poeta do direito e da justiça. O poeta é o cidadão do belo e a arte”.
Nessa direção, apontou a bússola existencial de Ubiratan Aguiar.

Já era o Cidadão, por força de sua lida e vida.

Agora, Ubiratan você espreita a vida  à procura do belo e da arte. E o faz na madureza dos anos, certamente tocado pela lírica da agonia. Procura o Idioma dos Pássaros, nos signos,  nas suas marcas pessoais e nas da humanidade, que são agora seus conteúdos simbólicos e preocupações permanentes.

Ubiratan começou a rabiscar versos, aquietando palavras que ferviam em suas entranhas. Guardou-os, reviu-os e já publicou três livros de poemas: Idioma dos Pássaros, Versos de Vida e Passageiro do Tempo.  Não são considerados aqui seus outros escritos sobre Convênios, Tomadas de Contas, a Lei de Diretrizes e Bases, mas que têm importância na eficácia da gestão pública e na educação formal e cultural dos jovens brasileiros.
 
Esta saudação poderia ser uma espécie de Carta a um homem maduro e poeta jovem, na razão inversa do exposto por Rainer Maria Rilke ao aconselhar um jovem no seu debut literário.  No seu caso, louve-se a coragem de mostrar agora sua face poética, a sua linguagem no diálogo com quem o lê.
 
Não sei bem o que vem a ser poeta, pois não o sou. Tampouco me atrevo a fazer crítica da obra poética de Ubiratan, O leitor é sempre o maior crítico. Procurei, no entanto, pesquisar o que possa vir a ser um poeta.
 
Para Paul Valéry “a poesia é uma hesitação prolongada entre o som e o sentido”.

Pergunto: Há som na poesia de Ubiratan?
Claro. Tanto o há que versos seus foram musicados e transformados em canções já constantes de três CDs.

Fazer letra de música, saibam os senhores e senhoras,  também era “hobby” de Machado de Assis. Dele é a letra de uma valsa lenta: “Quando ela fala”, musicada por Elisa Wanda.

Ouçam Machado nesta quadra:
Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala”.

Voltemos ao Ubiratan:

Pergunto ainda: Há sentido na sua poesia?

Ele sabe que sim, pois esse seu viés crepuscular o aproximou do Clube do Bode. Comunidade etérea, em desconfortáveis plásticos assentada na calçada abrasadora. Autofágica, mas gloriosa na descontração coletiva a bater palmas quando da aproximação do belo.

E essa vivência com escritores, poetas, músicos, pintores, sátiros e afins, o foi encorajando a tirar a sua nau do porto da timidez e ganhar o tempestuoso mar das letras onde pode haver ataque de bucaneiros. E o faz com a modéstia de aprendiz, sem fanfarras e a busca de signos e retoques para a sua lira.

Muitos poetas reconhecem um decassílabo antes que uma frase seja concluída e sabem usar rima e métrica em seus versos altaneiros. Eles são poetas, sim.  

Mas não será poeta quem não se ajusta às análises esquemáticas do compasso da métrica e do adorno da rima? O que dizer então da poesia livre de Pablo Neruda, prêmio Nobel de Literatura?

O próprio Neruda responde: “A verdade é que não há verdade”.

Recolho de Manoel de Barros, grande poeta, uma outra possível resposta: “Creio que a poesia está de mãos dadas com o ilogismo. Não gosto de dar confiança à razão, ela diminui a poesia”.

Vejam Ubiratan de mãos dadas com o ilogismo:

“Declinei verbos no sonho e,
adormeceram no sono.”

Ou quando refere:

“Paz das gaivotas
Voando livre
No branco das asas”

Robert Graves, escritor inglês, nos socorre:

“a poesia não é ciência, é um ato de fé”.

Alguém duvida que Ubiratan não tenha fé no que escreve?

Ele é Passageiro do Tempo a procurar um mundo chamado poesia. E faz seu ato de fé ao dizer:

“Quantas metáforas guardam silêncio
Das verdades que a razão policia?”

Ou quando revela:

“Quantas vezes a linguagem dos olhos
Expressa o silêncio covarde dos lábios
Quantas vezes nos escondemos dentro de nós,
Para não exteriorizar a vida?”

Ubiratan pode ser um noviço na ordem dos poetas, mas quem falou que a poesia está adstrita a um tempo de vida?

O próprio poeta responde:

“Como conter palavra
Na correnteza da boca?”

A dúvida na indagação que faz ao fim de seus versos não deixa de ser inquietação poética. E quem escreve, especialmente versos, procura fazer um acerto de contas com o seu eu profundo, medos, sonhos, história e mitos. Se esse olhar chega com a maturidade, que seja bem-vindo. É poeta, sim.

E substitui,  certamente orgulhoso, a seu colega de Assembléia e amigo de dezenas de anos, o meu colega de faculdade e poeta consagrado José Maria Barros Pinho que, nesta data, passa a ser Acadêmico de Honra, na vaga do inesquecível Eduardo Campos, uma das mais completas expressões literárias contemporânea do Ceará.

O que digo é do meu exclusivo encargo. Não sou um purista da lírica ou da arte poética. Acredito, porém, na capacidade que palavras têm o dom de conjurar almas, expondo-as até ao torvelinho dos que querem, talvez com justa razão, o refinamento e os detalhes da rima, da métrica e da metalinguagem.

Uns e outros merecem coexistir, pois a vida, já dizia o poeta Vinícius, “é a arte do encontro”.

E o próprio Ubiratan, pacificador por natureza, diz em versos:

“Nem por isso excelência
Nós somos separatistas
E este é um ponto de vista”

É chegada a hora de parar. Bem sei que o novel Acadêmico merecia palavras mais briosas, mas sou assim, coloquial  e aberto.

Por último, pediria que o Acadêmico Ubiratan Diniz Aguiar se sentisse em casa, abraçasse os seus convidados e confraternizasse com seus novos companheiros aqui presentes, com a mesma energia que empresta à sua vida, fazendo-o como se mostra neste terceto:

“expondo sentimentos submersos
No conto, na poesia, na literatura,
“Marcando o tempo e a criatura.”

Muito obrigado a todos.
João Soares Neto - Cronista, março de 2008

 

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