OS VÁRIOS CAMPOS DO EDUARDO

     Ontem, 11 de janeiro de 2003, Eduardo Campos completou 80 anos. E houve festa. Bonita, discreta, classuda, com a fala envolvente e intimista do aniversariante, o amor declarado da família e a benquerençade amigos escolhidos.

      Difícil é saber quem é Eduardo Campos. Será o menino Manoelito da Guaiuba/Pacatuba que se meteu, desde cedo, a presidente de grêmio literário e o fez com a capacidade de liderança que o caracterizaria posteriormente? Ou será o soldado Manoelito que sentou praça no 23º Batalhão de Caçadores e aprendeu a ver, do seu jeito peculiar, o Brasil com olhos de patriota? Ou seria o locutor de voz cristalina, galante e forte que ingressou na Ceará Rádio Clube quase adolescente?

      Curioso, instigante, inteligente, veio a ter na cidade de Fortaleza a convivência com outros jovens que mudavam o padrão cultural de uma cidade provinciana e preconceituosa. Participou de um clã e ajudou a brotar a modernidade literária em meio a bolorentos textos de então que causavam enfado e sono. Não contente, fez-se ator como Cristo e não foram poucas as marias madalenas que dele se acercaram. Era o teatro que começava a brotar em sua mente e aí a estrada se fez maior que o estirão entre Pacatuba e Fortaleza.

      Cioso, meticuloso e arguto foi buscar em outra messe a companheira de toda uma vida e o fez com ares quixotescos. Era a hora de estabelecer raízes e soube ser cortez para ter ao lado alguém que lhe desse segurança, amor e compreensão.

      Será ele o condutor da Ceará Rádio Clube, da Rádio Verdes Mares, do Correio do Ceará, do Unitário e o implantador da TV-Ceará, canal 2? Mas, o que é tudo isso? É um sonho que sonhou coletivamente com outros homens especiais, destacando-se o paraibano Assis Chateaubriand que se fez alado e alçou vôos tão grandes que resultaram em um condomínio tão complexo quanto inovador. Eduardo Campos comandou tudo isso com a certeza dos que têm dúvidas, mas sabem que a vida precisa de caminhantes. E foi um bom caminhante e condutor de centenas de profissionais que hoje se espalham por todo este país.

      Será o ator, o teatrólogo de peças consagradas que deram ao nosso Estado uma dimensão nacional? É impossível falar em teatro no Ceará sem que se passe por “Morro do Ouro” e as interpretações de artistas que encarnaram a nossa realidade pungente e dolorosa.

      Será o intelectual prolífero, o escritor premiado, cioso da frase que planta, do texto que arremata, do conto que extasia, da crônica que permanece e do romance que aprofunda a sua arte de sentir e dizer? E aí acadêmico se tornou e comandou por dez anos a Academia Cearense de Letras, com voz de tribuno romano, perfil de filósofo grego e a manha do pacatubano que mirava a serra da Aratuba e sabia que estava fadado a vôos de águia.


João Soares Neto,
Administrador e escritor


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