O POETA DO PÁSSARO E DO AZUL


Dizem que os nomes dos livros, especialmente os de poesia, são indicações básicas para a descoberta do que deseja transmitir o autor. Barros Pinho acaba de escrever uma “carta do pássaro”. Ora, se é verdade que os nomes dos livros decifram seus autores, pode ser que Barros Pinho não seja a exceção. Nesse livro existe uma proposta de interdisciplinaridade com as ilustrações bonitas de Vera Andrade. Os pássaros pintados são esboços fortes na cor azul. Tinha que ser.

O poeta das “barrancas do rio Parnaíba” procura em seu novo livro, uma imersão lírica, entremeadas de concretudes, na sua própria vida, pelo menos a vida que conta. E diz que “só escrevo diário em verso” (p. 63, o sol da manhã). E diz também no poema “o pássaro”, p. 45: “não sei como sou não sei”, mas sabe(p.60) que uma bicicleta com asas anda no meu outono”. Vê-se, na releitura da leitura, que há no diário poético de Barros Pinho a necessidade de sobrevoar a sua vida, vendo-a de cima com olhar privilegiado, de torná-la verso e se vale de um pássaro e de uma bicicleta com asas para, altaneiro, ver com os olhos da alma aquilo que ainda não soube aclarar.
O pássaro, embora fale em outono, diz que as “as estações se sucumbiram no corpo”( o sentido do nada, p. 60) e, como todo poeta maduro, é contraditório(Lembremo-nos de Fernando Pessoa). Na poesia “autolirismo” (p.52) declara que “sou poeta não escrevo nas nuvens”, mas “escrevo na asa dos pássaros”(p. 27). A bicicleta do poeta tem asas e ele, pedalando ou voando como pássaro, sabe que no azul há sempre nuvens e lá, no seu imaginário, vê e escreve. E o azul é uma constante(“Natal do castelo azul”, “Pedras do arco-íris ou a invenção no azul no edital do rio”) na poesia de Barros Pinho, como se essa cor tivesse a tonalidade do seu sonho, não obstante revele que o “meu estoque de sonho acabou no primeiro bar” (p. 48,”canção do primeiro bar”). Acabou não, no poeta o sonho nunca morre, torna-se letra e cria forma.

João Soares Neto

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