O CÓDIGO DA VINCI E A ARTE DE VENDER


Junte Leonardo Da Vinci e a sua obra, um professor de Harvard quarentão e bem apessoado, uma bela policial especialista em criptologia(ocultismo), um assassinato em pleno Museu do Louvre, um monge albino fanático, um rico inglês com seqüela de poliomielite e uma “intricada” história sobre Jesus, Maria Madalena e sociedades secretas, em meio a uma caçada policial entre Paris e Londres, envolvendo jatinho e limusine, e terá todas as misturas que o escritor Dan Brown utilizou para escrever o romance “O Código Da Vinci”, um fenômeno editorial no mundo, pois se diz ter vendido 15 milhões de exemplares.


E o pior é que tive de ler o livro, pois o ganhei de presente e sempre era perguntado: Já leu? Acabei lendo e o li com atenção, embora não tenha, desde o começo, gostado. É claro que tudo que se escrever sobre o livro dará a ele a publicidade que a Editora Doubleday, ardilosa como a maioria das grandes editoras norte-americanas, soube construir. De cara, mandou 10 mil exemplares de graça para jornalistas, donos de livraria e outros. Depois, começou a fomentar a “polêmica” de que o livro trazia um grande segredo que poderia destruir a fé católica.


A Editora Sextante, responsável pela tradução e venda no Brasil, não fez por menos. Distribuiu, com livrarias e críticos literários, brochuras com os quatro primeiros capítulos do livro e criou uma falsa ansiedade, além de grandes reportagens na mídia. O resultado é a grande vendagem. Desconfio que a grande maioria compra, começa a ler, folheia e não conclui a leitura. O livro tem 475 páginas e, adivinhem o que tem na página 476? O resumo-propaganda do próximo lançamento no Brasil do livro do mesmo Dan Brown, “Anjos e Demônios”, com o mesmo professor de Harvard, Robert Langdon, como protagonista principal.


Paralelo a isso, já está em andamento a filmagem do “O Código Da Vinci” que, certamente, terá uma grande bilheteria, pois o seu diretor, Ron Howard, é o do filme “Uma Mente Brilhante”, que ganhou o Oscar em 2002. Tom Hanks será o protagonista principal.Tudo o que escrevi serve apenas para mostrar como nós, pobres leitores, somos levados, muitas vezes, a achar “excelentes” autores que apenas trilham um caminho já conhecido da construção de livros com descrição pormenorizada de lugares, coisas, objetos e instituições, respaldado por um suporte bem urdido de marketing de editora. Rever a história, descrever pessoas, lugares, objetos e instituições são hoje atos profundamente simples, que podem parecer ao leitor como erudição e talento, quando não passam de mera pesquisa que pode ser feita pelo próprio autor, qualquer boa bibliotecária ou historiadora. A propósito, a mulher de Brown, Blythe, é historiadora de arte.

João Soares Neto

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