CELA NA UNIFOR


Tomei o carro, segui pela Av. Washington Soares, dobrei à esquerda na entrada da Unifor, contornei o Centro de Convenções e estacionei em uma área bem cuidada e com sombra farta, em frente ao discreto e belo Espaço Cultural Unifor. Fui ver a exposição de Raimundo Cela em meio a um dia de trabalho. Parei tudo o que estava fazendo e fui. Fui só. Havia recusado convites, inclusive o da abertura. A arte pictórica, para mim, é para ser contemplada sem troca de conversas, sem auxílio de bebida e com o silêncio que nos ajuda na concentração e no foco que a retina pede. Na tarde em que fui, só ouvia o leve ruído do ar condicionado, não quebrado pelas atendentes e vigilantes, tão discretos e eficientes como costumam ser os que mourejam na Unifor. Eram poucos os quietos visitantes.


Entrei devagar, com o respeito de quem já conhecia a história – e parte da obra – do pintor cearense Raimundo Cela (1890 -1954), que me foi passada na juventude por um já falecido colega, Valério Cela Militão Menescal. Segui o roteiro que o meu jeito manda. Vejo as coisas da esquerda para a direita, canhoto que sou. E foi assim que ia, pouco a pouco, me deliciando com as pinturas, desenhos e gravuras que começaram em Camocim, passaram por Fortaleza e Rio de Janeiro, vararam parte da Europa, retornaram a Fortaleza e se quedaram em Niterói.


É claro que tudo já foi dito na apresentação de Airton Queiroz, na introdução de Max Perlingeiro, no Prefácio de Estrigas, na cronologia apurada e nas críticas de Fábio Magalhães (pinturas), Cláudio Valério Teixeira (desenhos) e Adir Botelho (gravuras). O que mais eu poderia acrescentar a essa primorosa iniciativa cultural da Unifor? Apenas duas idéias, se é que já não foram tomadas. Primeira: prorrogar a exposição pelo período das férias escolares de dezembro a fevereiro, incluindo-a nos roteiros de operadoras de turismo nacionais e estrangeiras que trazem grupos de pessoas a Fortaleza. Segunda: produzir um filme em 35mm ou DVD para posteriores projeções em escolas públicas e privadas de todos os níveis do Ceará e do Brasil, servindo de exemplo a quantos desejam fazer da arte o seu caminho básico. Ou mesmo que assim não seja, possam ir aprimorando o olhar.


Essa exposição, pela riqueza de seu acervo, bom gosto no seu layout, coerência na iluminação e curadoria profissional, tem o jeito low profile que Airton Queiroz, um amante das artes, sempre impõe as coisas que faz sem alardes, mas com competência. Mesmo que as minhas duas sugestões não sejam acatadas, veja se você consegue umas duas horas do seu tempo e vá lá até o próximo dia 12 e descubra porque William Somerset Maugham dizia que “a arte é um dos grandes valores da vida e ensina aos homens humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade”.

João Soares Neto

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