JOĆO SOARES NETO ENTREVISTA ELANO PAULA

O meu conhecimento com Elano Paula tem mais de 40 anos. Eu era um jovem que pensava saber muito. Ele, um homem maduro, que muito sabia. Trabalhamos juntos por cinco anos. Depois, disse para ele: preciso cuidar da minha vida, só. Ele respondeu: eu já sabia que isso iria acontecer. Elano é compositor, escritor, pintor, engenheiro civil, financista e uma das maiores cabeças nascidas no Ceará na década de 20 do século passado. Trocamos conversa de todos os tipos. Aqui, no Rio, São Luiz etc. Ele, imaginem, é o guru do Chico Anysio, seu irmão. Nesta entrevista, procurei desvendá-lo para um Ceará ainda sem memória de Gente que Conta, porque sabe contar.
João Soares Neto, junho de 2009

JOÃO SOARES NETO: Quando e como você saiu da água para a terra?    

ELANO PAULA: No dia primeiro de fevereiro de mil novecentos e vinte e três, embora eu ainda estivesse amarrado a um cordão, lembro-me perfeitamente que a luz da cidade apagou-se depois que permanecera acesa por quatro horas seguidas. Era o “ seu” Oliveirinha, nome carinhoso para os amigos de Francisco Anysio de Oliveira Paula, o Oliveira Paula ( da Luz), que estava desligando o motor que iluminava a cidade de  Maranguape. Daí, oito anos depois, seu filho Chico Anysio – antes Francisco Anysio - ter nascido com o nome de Oliveirinha.

JOÃO SOARES NETO: Como era a família Oliveira Paula?

ELANO PAULA: Começava ali a vida do primogênito de uma família de seis – melhor dizer-se de cinco – já que o segundo, o Elano, faleceu com 30 dias de vida.
O Oliveira Paula, nômade pelo tipo de trabalho que escolhera, vivia de canto em canto do Ceará, desde que ali houvesse uma barragem de açude de terra. Trazer a terra, a piçarra, seria a empreitada dele, numas caçambinhas de lombo que, no puxar de uma alavanca, o jumentinho deixava o barro cair.

JOÃO SOARES NETO: Você quase morria com menos de um ano?

ELANO PAULA: Naquela madrugada de 1924 quando o primogênito completara dez ou onze meses, debaixo de um lençol, sentado na lua de uma sela de um cavalo chamado Dengoso, “seu” Oliveira que ainda não colocara no mundo o segundo filho, galopava para tentar o impossível: galopar sob forte chuva do, Acarape Do Meio até Maranguape, em busca do Dr. João Augusto Bezerra para a produção de um milagre: salvar um garotinho que à época estava com uma bronco-pneumonia-dupla. Salvou-se o filho, perdeu-se o Dengoso.

JOÃO SOARES NETO: D. Haydée, sua mãe, influenciou a sua vida?

ELANO PAULA: Muito pouco de infância ao lado de Dona Haydée, após os oito anos. Pai e mãe correndo o mundo, três anos internos no Colégio Cearense, cinco anos internos no Colégio Militar, dois anos de Rio, dois anos de Bagé.  Nos encontramos, durante os sete anos que precederam o meu casamento. Lupe, Lilia, Chico e Zelito foram bafejados pela sorte de tê-la por mais tempo. Grande mulher, grande categoria, extraordinária disciplinadora

JOÃO SOARES NETO: Conte da meninice à primeira juventude

ELANO PAULA: Daí aos 16 anos há pouco para contar: Serrote do Meio, Araras, General Sampaio e Jaibara, agora sem jumentos mas com os  cavalos de força que a sabedoria de Henry Ford fazia chegar até nós. Pouco para contar, mas um pensamento, em 1930, que seria célebre nos tempos atuais, principalmente dito por quem não havia sentado em bancos de curso primário. “Filho você me disse que iria ser como eu sou: um empresário. Vou então dar a você um conselho. Cate, procure o risco, porque é embrulhado nele que está o lucro. Lucro sem estar embrulhado em risco, quando você encontrar não dê muita importância. Deixe que outro o achará. Não tem valor. Agora escute. Você sabe que nessa mata onde nós estamos tem cobras. E nós estamos na mata. Mas se você meter a mão no meu bolso você encontrará remédio para veneno de cobra.”
Acabaram-se os açudes, os caminhões viraram ônibus – Empresa São José: sinônimo de conforto e estabilidade em transporte urbano em Fortaleza, no Benfica.

JOÃO SOARES NETO: E como o Rio de Janeiro entrou em sua vida?

ELANO PAULA: O curso ginasial exigia o pré-técnico para quem quisesse ser engenheiro. E lá se vai o Ita levando o filho de menos de dezessete anos para o Rio de Janeiro.E numa espécie de homenagem póstuma cito o companheiro de viagem: Paulo Montenegro - o criador do IBOPE.

JOÃO SOARES NETO: E como era o Rio dessa época?

ELANO PAULA: O Rio de Janeiro das caixas de sapatos penduradas nas janelas do Flamengo e do Catete avisando que ali havia vagas para estudantes. Casa, comida e roupa lavada por 250 mil reis. Numa mesada de trezentos sobrariam o bonde no Largo do Machado e os livros, já que o Colégio Universitário da Universidade do Brasil, na Praia Vermelha, era gratuito. Uma saudade profunda, uma lembrança agradável do Rio Antigo que está todo muito bem retratado na canção que o Chico Anysio entregou à Marron. `Laranja seleta, quatrocentos reis a dúzia... Vai querer dona Maria...Se quiser traga a bacia. Laranja comprada em bacia. E os pregoeiros ditando seus improvisos: “Peiiiixe Camarão!” E a dupla que apregoava junto. Eles portugueses. Um vendia mel e o outro vendia lã. Os sotaques davam a graça: “Mer d´avelha... e eu lã bendo. O auditório da Radio Nacional, na Praça Mauá, curtindo o cantor das multidões, quando o Exercito me dava uma chance.

JOÃO SOARES NETO: E aí vem o serviço Militar, faz o CPOR e chega a Capitão?

ELANO PAULA: A idade militar chegou fora de hora. No Colégio havia seis “vestibulares por ano” e jubilava os que não passavam. CPOR mais o Universitário, ao mesmo tempo e uma aprovação para a Escola Politécnica do Rio de Janeiro. 80 vagas para dois mil candidatos e uma guerra beirando as nossas portas e todo mundo perfilado para saber seus destinos. A voz rouquenha do Coronel Ângelo Mendes de Morais – futuro prefeito carioca – gritou sem emoção: Tenente Elano Viana de Oliveira Paula classificado em Bagé-RGS, no Terceiro Regimento de Artlharia Montada. Se já não houvesse uma aprovação no vestibular, quem estaria escrevendo essas mal traçadas linhas seria um Coronel R1 do Exercito Brasileiro, de há muito reformado. Uma guerra toda na tropa servindo no RADC, ou como ajudante de ordens do General Brasiliano Americano Freire, ou como oficial orientador do grupo da Artilharia Ante-Aérea, em Deodoro e, para um honroso final feliz, como Instrutor do CPOR-RJ. Três estrelas nos ombros, dez ou doze elogios e uma carrada de punições maneiras, leves, só para constar nos Boletins, relembrando os tempos do CMC – Colégio Militar do Ceará.  Bagé seria minha grande trincheira, que me deu a honra de ter sido professor de equitação do então Major Emílio Garrastazu Medici. 

JOÃO SOARES NETO: Como viveu o Pós- Guerra(2ª.)?

ELANO PAULA: Um pós-guerra de Polytecnica, de operador de áudio de uma emissora, Produtor de Programas, de Diretor de Broadcasting. Era a rádio Guanabara, tentando subir no “ranking” das grandes emissoras. A locução da Hora do Brasil. A direção da Mayrink Veiga que determinou a chamada época áurea do radio. A criação e produção do primeiro Long Play brasilerio: Ritmos Melódicos com Waldir Calmon e seu conjunto. A campanha de Cristiano Machado onde as esperanças do PSD entregaram à campanha os maiores oradores que o Brasil conhecera: Mello Viana, Acúcio Torres, Padre Medeiros Neto e outros , todos de estilos diferentes. A origem e desenvolvimento do verbo “cristianizar”.

JOÃO SOARES NETO: E como você viu a volta de Getúlio em 1952?

ELANO PAULA: A volta do Getúlio – a direita que produzia ações da esquerda: Volta Redonda, CLT e tantas outras. Certamente criaria o PIS, mas deixou que o general Geisel o fizesse. Seria, parafraseando Euclides da Cunha, que a política também se moldava na intermitência dos contrastes.Brasil pós-guerra, quando Juarez Távora e Juracy Magalhães, udenistas de quatro costados, criam e montam a Petrobrás, mostrando que o petróleo era nosso, como diziam os “comunistas comedores de crianças”.

JOÃO SOARES NETO: E como a engenharia entrou em sua vida?

ELANO PAULA: A Engenharia entrou cedo em minha vida. As férias todas eram passadas nas estradas e açudes onde - nessa altura - Coronel Oliveira Paula - fazia as sub-empreitadas dele.

JOÃO SOARES NETO: Como foi sua vida na arte que era o rádio de então?

ELANO PAULA: Fiz concurso para Operador de Áudio e fui aprovado. Estaria garantida a vida de estudante. Trabalhava no horário da madrugada. E esse péssimo horário – meia noite às quatro – quem me empurrou na vida.
Era uma madrugada insípida e o discotecário havia programado músicas que não eram do meu gosto. Mas que jeito? Oswaldo Rubim, um velho amigo paranaense ao microfone e eu, quase dormindo, lá na Técnica, colocando as bolachas para tocar. A certa altura Rubim passa mal, tem uma espécie de desmaio que me obrigou a chamar o porteiro para retirá-lo do estúdio e levá-lo para um hospital qualquer. Fiquei só. Sozinho, botando os discos e correndo para o microfone. Falava os anúncios, deixava um “buraco” de dez segundos e voltava, ofegante,  à Técnica para soltar a música que anunciara.Quanto tem que ser... será. O dono da rádio, certamente àquela hora fazendo um programinha diferente do meu, escutou a minha voz e foi, no dia seguinte, saber que locutor seria aquele.  E me escalou para os mais nobres horários da programação. Daí, seis meses depois, já com alguns programas produzidos, deixei a locução para assumir a direção de “broadcasting” da Guanabara. O salário deixou um pouco distante a saudade dos vencimentos de militar

JOÃO SOARES NETO: Vem o conflito entre a arte livre e a engenharia cartesiana, como resolveu?

ELANO PAULA: Embora diplomado, não foi fácil optar pela engenharia. Por um lado um dos maiores salários do radio para arriscar um emprego numa cidade que ainda lembrava o Oliveira Paula ( da luz). Pisca às seis, acende às seis e cinco; pisca às nove e cinquenta e cinco e apaga às dez.   As coisas corriam meio separadas. Fui artista para ganhar o pão que me levou à engenharia. Deixei a arte quando terminei o curso. Tive uma recaída em 1961 que durou três anos. Novamente abandonei a arte, já naquela altura  a televisão. Voltei à engenharia e troquei de arte: passei a escrever, para me divertir, como você o faz com maestria. Quando deixei o Exército, as coisas não andavam muito tranqüilas para o meu lado. Além disso eu estava viciado com um salário bom. Não daria para um retorno às mesadas.

JOÃO SOARES NETO: Então comprou uns táxis?

ELANO PAULA: Comprei alguns táxis, de sociedade com o Oliveirinha ( aliás, já era Francisco Anysio), e a vida entrou nos eixos.A Radio Mayrink Veiga me chama para o cargo de Diretor, salário quase dobrado e o mano me acompanhou. Foi lá. Foi na Mayrink que ele popularizou-se como Chico Anysio.O proprietário da Mayrink, quando eu fui me despedir  porque havia colado grau na engenharia, convidou-me para ser engenheiro da Casa Mayrink Veiga. Embora o salário tenha baixado ai para a ordem de um quinto do valor, misturando o “jingles” que produzia, o textos que gravava como locutor, levavam, as coisas para níveis para suportados.

JOÃO SOARES NETO: E a sua “Canção de Amor” (saudade torrente de paixões ...) que ainda hoje faz sucesso?

ELANO PAULA: Canção de Amor deu-me um carro mais potente, mais decente. E algumas campanhas políticas, já como locutor da Standard  Propaganda, me deram onde morar sem pagar aluguel.Mas não era engenheiro, embora ganhasse por dez ou vinte deles.

JOÃO SOARES NETO: Como entrou na vida de empreiteiro?

ELANO PAULA: Consegui uma firma emprestada e ganhei a concorrência para a construção da Ponte do Aquirás. Pronto. Cessou a locução, vendi a fábrica de Discos Long Play Rádio, saí da Standard,  agradecí ao Sr. Antenor Mayrink Veiga, vendi três farmácias, uma delas a Gesteira – a mais antiga do Rio -  e sentei praça em Fortaleza. No dia que Getúlio suicidou-se eu estava concretando a laje da Ponte, minha primeira obra como engenheiro. E fundei a Incosa, em Fortaleza, embora suas quatro primeiras obras tenham sido no Rio de Janeiro ( Ponte dos Cachorros e desmonte do Morro da Refinaria Duque de Caxias, da Petrobrás) e em Brasília, a Garagem do Senado e o dois viadutos que todos nós passamos por baixo quando saímos do aeroporto para a cidade.Daí zarpamos para a Antonio Pompeu, em Fortaleza,quando as Caixas d’águas  tinham como endereço a Praça de Pelotas.

JOÃO SOARES NETO: Quem foi o (a) maior intérprete de Canção de Amor?

ELANO PAULA: Elizete foi a maior intérprete de todas as músicas que cantou.
Viver no meio artístico, conhecer Elizete Cardoso – mais que isso: auxiliá-la na escalada rumo às alturas da fama, quando a tirei de um “dancing” e a levei para ser a principal cantora do “cast” da Guanabara – e conhecer Chocolate (co-autor de Canção de Amor) não chegou a ser uma glória, mas a honra de fazer três amigos que se abraçaram e subiram juntos, não todos, mas o primeiro degrau da popularidade.

JOÃO SOARES NETO: Um dia, perguntei ao cantor Lúcio Alves: por que Elano  de Paula não figurou no primeiro time? Ele me respondeu: creio que o Elano era muito fechado. Certo ou errado?

ELANO PAULA: Lúcio Alves, um caso à parte. Ele não cantava. Ele era um músico, um sax-tenor que dispensava o instrumento. Ele tinha ouvido absoluto, Ele orquestrava sem saber música. Ele foi a pessoa que eu convidei para ouvir, na TV RIO, onde nós trabalhávamos, em 1962,  uma garotinha que chegava do Rio Grande do Sul e precisava de um emprego: Ellis Regina. Foi idéia dele, depois que Ellis fez seus “shows” no Beco das Garrafas, entregá-la ao nosso grande amigo, o bailarino Lenny Dale, para que ele completasse na arte da grande cantora os movimentos que lhe enfeitava a voz e a presença.

JOÃO SOARES NETO: As pessoas não vivem sós.  Como apareceu D. Jenny em sua vida?

ELANO PAULA: Quando eu estreei na Rádio Guanabara como Redator e Diretor de um programa, eu conheci Jane Gipsy. Foi no dia 13 de maio de 1949. Lembro-me bem porque o programa era homenagem aos escravos. O papel principal seria dela, já que era ela a “estrela da peça”. No dizer dos gaúchos do interior: contratada a recém. Havia na peça, a certa altura, uma gargalhada que competia à Jane dá-la. Ela não deu, eu reclamei e logo em seguida repeti a fala e soltei  a gargalhada. Grosseiramente, disse: sabendo dar, dá. Ela então deu uma gargalhada, na repetição da fala, espetacular. Aí, sorriu pra mim e falou baixinho: eu não me preparei antes. Desculpa. A delicadeza dela obrigou-me a pedir desculpas. Jenny Yolanda de Patena Paula, seis meses depois, era a senhora Elano Paula por 49 anos e três meses, quando os que mandam a levaram, espero,  para um bom lugar.

JOÃO SOARES NETO: O acaso existe?

ELANO PAULA: Minha vida é cheia de causalidades. Não escrevi casualidades.
Da mesma maneira que um locutor teve uma crise na hora em que o dono de uma estação estava sintonizado nela e em plena madrugada, me deu uma vida radiofônica, uma outra seqüência de pequenos fatos nos colocou no BNH.

JOÃO SOARES NETO: Que fatos causais foram esses?

ELANO PAULA: Havia no Rio de Janeiro uma empresa de um amigo italiano que me  pediu para preparar uma concorrência para fabricação de móveis para o Senado,  em Brasília.  Fiz a concorrência para ele e a firma ganhou. Eu operava com pedras de grande porte, para o enrocamento do aterro do Flamengo (desmonte do Morro de Santo Antônio). Terminado o desmonte, resolvi vender a firma e o comprador mandou um economista simpático analisar a operação de compra e venda. Permita-me chamá-lo apenas de Pedro.
O fabricante de móveis terminou o trabalho e me pediu que fosse entregá-los em Brasília. Embora não houvesse sentido prestar esse favor (não entendo nem sou entregador de móveis), aceitei e fui. Entreguei os moveis a um senhor. Permitam-me chamá-lo apenas de José, a quem fiquei conhecendo e fiz um certo relacionamento. Chego ao Galeão para tomar um vôo a Fortaleza  e o avião estava com uma hora de atraso. Este atraso me permitiu encontrar o Pedro (aquele da venda da firma que eu não via há quatro anos)
Perguntei-lhe informalmente, numa expressão normal, até corriqueira: Onde você anda, Pedro? Ele respondeu: sou diretor do BNH. E, numa frase mais coloquial, fiz a pergunta cuja resposta eu sabia que seria negativa. Que tem por lá para se trabalhar? O avião dele fez a chamada e ele me entrega um folheto. Li  três ou quatro vezes o livrinho no percurso da viagem e cheguei a Fortaleza um craque em BNH, sigla da qual jamais ouvira na vida.

JOÃO SOARES NETO: E o que aconteceu em Fortaleza?

ELANO PAULA: Poderia estar me aguardando uma outra pessoa, mas no Pinto Martins estava meu querido amigo Danilo Marques. Indaguei dele se conhecia alguém que pudesse começar naquela hora (e já era noite) a montagem de um projeto. Em uma hora estávamos  eu, Danilo e um rapaz que se chama João Soares Neto trabalhando, tendo o livrinho como orientação.  Em oito dias, nós três terminamos aquilo que parecia necessário e suficiente para ser INICIADOR do BNH. Viajei para o Rio e fui direto ao BNH procurar o Pedro, aquele das venda das máquinas, do livrinho do aeroporto e dos aviões atrasados. Ele admirou-se demais da minha velocidade e me informou que esse assunto era com outro diretor, duas salas depois.Quando a porta se abriu era o José, aquele dos móveis do Senado, que tocou uma campainha e encomendou pressa na análise de nosso projeto.

JOÃO SOARES NETO: Foi então uma sucessão de causalidades?

ELANO PAULA: Contou as coincidências? Cem dias depois era a inauguração o Conjunto Habitacional Luciano Carneiro – a primeira presença do BNH da segunda região (CE-PI-MA)

JOÃO SOARES NETO: E como funcionava o BNH(Banco Nacional da Habitação)?

ELANO PAULA: O BNH não cuidava só da construção de casas, mas do seu financiamento. Os livrinhos verdes com as normas do BNH mostravam o caminho. Nesse tempo, surgem a Abecip e, a Domus, a Modulus,  a Credimus, Inocops, 12 Cooperativas no Maranhão, 4200 casas no Conjunto José Walter, 14 Bis, Montagem da COHAB Fortaleza, 14 Bis, Conjuntos Habitacionais de Cooperativas, Sicaps, Projeto Empresa, Plano empresário... Era outro mundo, sim, onde os que deram o primeiro tiro, ai já acompanhados pelos Arys, Padilha, Zelito Pamplona,José Lino da Silveira, João Parente, Aécio de Borba e muitos outros  montou-se um grupo de empresas em áreas de certa forma ligadas à construção civil.

JOÃO SOARES NETO: E isso deu certo?

ELANO PAULA: O Sistema Financeiro da Habitação, que ainda hoje é copiado pelo mundo a fora, foi uma das coisas melhores criadas no Brasil. Firmado em cálculos atuariais, conseguiu o quase impossível: resistir à força da politicagem brasileira, inócua, interesseira, ineficiente, incapaz, incompetente, para usarmos apenas uma letra na adjetivação que a riqueza da língua portuguesa nos oferece. O falar sobre o que fizeram com o BNH altera em mim os conceitos de tolerância, muda meu estilo de escrever e me deixa descrente nas instituições que, graças a Deus, carecem de tolerância e paciência. Primeiro foi o Ministro Andreazza que, no frustrado interesse na compra de votos, esqueceu a aritmética do jardim da infância e esgotou as disponibilidades do Banco para fazer apenas casas de pobres. “Por que fazer financiamentos de ricos com taxas de 10% ao mês?” Por que para operar com juros zero, tendo 3% de FGTS  e 2% para despesas administrativas do Banco, alguém deveria para os dez por cento. Os ricos não entravam ai como problema. Era a solução.

JOÃO SOARES NETO: E depois?

ELANO PAULA: Em seguida chega o Dr. Delfim e decreta que a inflação seria apenas a metade. Se um acabou com as finanças, o outro acabou com a economia, matando o Banco. Mas faltava quem o enterrasse. E deram ao mais ilustre dos maranhenses a honra de cumprir a cerimônia final, em dois atos. Cortar pela metade uma inflação de 200% para em seguida decretar a morte da entidade, deixando para a história da economia brasileira o símbolo de uma cruz que costuma durar o tempo de uma eternidade.

JOÃO SOARES NETO: E agora, o que acha do programa “Minha Casa, Minha Vida”?

ELANO PAULA: Agora, não. Agora a história é outra. Agora iremos construir um milhão de casas, não sem antes divulgar por mais de um ano a grande façanha, esquecidos de que há dois pequenos detalhes importantes. O Brasil não tem produção para isso; e a que tem, dobrará o preço. Mas enquanto se esperam os milagres, pingam os votos para novas eleições. Desculpe-me. Mas falar de habitação no Brasil, como já disse, altera meu vocabulário.

JOÃO SOARES NETO: Qual a razão de sua indignação?

ELANO PAULA: Imaginem que fui, por 24 anos, diretor da Abecip,  Conselheiro do Banco e sou uma das seis medalhas do mérito habitacional distribuídas no Brasil. Talvez seja isso que me fez contar tão pouco, para o tão muito que poderia contar.

JOÃO SOARES NETO: Jenny e Elano formavam um casal amoroso, mas não vieram filhos, isso os incomodava?

ELANO PAULA: Eu e Jenny não tivemos filhos. Jamais discutimos isso ou procuramos algum tratamento. O que nós fizemos foi indagar,  um para o outro, umas duas vezes em quase cinqüenta anos: ter filho é premio ou castigo? Nas dublagens, muitas eu as fiz com ela, e a guisa de brincadeira, nós, depois do trabalho, brincávamos de ser um pouco as personagens antes vividas por instantes.

JOÃO SOARES NETO: E como é viver 50 anos juntos?

ELANO PAULA: Quando se vive 50 anos de casamento, sem filhos, quando os atores são apenas dois, o diálogo da vida tem um prestígio diferente. Passa a ser quase a razão da vida. Tanto assim é que em, 1954 – lembro-me da data porque outros fatos relembram  -  eu me peguei lendo uma revista de modas femininas e ela passava a vista num velho Manual do Artilheiro que me sobrara do Exército. Segurar 50 anos de diálogo, de testa, só os dois, sem filhos, nem aderente em casa, não é pra quem quer. Entre nós foi. Foi pra quem quis. Claro que no nosso caso, quando o final da vida a dois se aproximou, era eu quem assessorava, trazia o copo d’água, punha o arroz no prato, numa  enfermagem que durou dez anos.

JOÃO SOARES NETO: Passado o luto, você se casa com uma mulher bem mais nova. Coragem, amor, necessidade de companhia ou admiração?

ELANO PAULA: De repente, casado com mulher de meia idade  - não que ela seja de meia idade; ela tem exatamente a meia idade minha – a gente vira criança, já não sabe calçar as meias, já não sabe se servir, vai perdendo a vontade e se entrega gostosamente, naquela preguiça  de quem tem por perto alguém que lhe faz os gostos sem cobranças e se antecipa aos seus desejos.

JOÃO SOARES NETO: Como é a relação diária com uma pessoa que tem a metade da sua idade?

ELANO PAULA: A vida entre gerações diferentes, quando os dois se amam, transforma-se num show de humor. A jovem envelhece um pouco os seus hábitos enquanto o mais velho adquire jovialidade. A linguagem caminha para a média das idades. O mais velho diz :“tudo em cima, oh cara?” E o mais novo diz: “sossega leão”. Nós nos cumprimentamos em certas ocasiões com um soco nas mãos seguido de uma palmada. O mais complicado, pelo menos pra mim, é aceitar a “eguinha pocotó” e ela ouvir Orlando Silva em “Lábios que eu beijei”, repertorio das minhas 1400 músicas de um Ipod de 80 gigas.

JOÃO SOARES NETO: Como é o seu relacionamento com o Chico Anysio? Trabalharam e trabalham juntos?

ELANO PAULA: Chico Anysio é o meu amigo especial, admiradores um do outro, começamos juntos, eu mudei de vida e ele seguiu subindo a escada do sucesso. Hoje estamos pertinho um do outro, pensando juntos e escrevendo juntos apenas pelo prazer de fazê-lo.

JOÃO SOARES NETO: Como você vai levando a vida?

ELANO PAULA: O meu tempo é sempre livre. De vez em quando eu o ocupo com o trabalho. Escrevo, em média, oito horas por dia. Muito em companhia do Chico. Certa feita, já não me lembro quando, referi-me ao fato de eu e o Chico Anysio escrevermos juntos – duas cabeças e quatro mãos – e senti, num misto de descrença, que alguns dos que me escutavam achavam que isso seria quase impossível.Não é fácil, mas impossível não o é.

JOÃO SOARES NETO: Quer disso que vocês escrevem a duas cabeças?

ELANO PAULA: Tendo-se como premissa que o texto introduz uma idéia, e quem o lê também contribui com o autor, burilando-a, criando nela detalhes não mencionados, montando paisagens  que os olhos do autor jamais as imaginaram, por que não se fazer isso por escrito, a quatro mãos? Claro. Eu escrevo um texto e você contribui nele também mostrando suas idéias, os novos sentidos, aquilo que lhe marcou do tema. E eu, recebendo-o de volta – agora bem diferente – também escrevo a minha contribuição em uma obra literária bem diferente da que imaginei criar. E nova ida, com nova volta, até que se arquiva, para que a posteridade neles se inclua como co-autora, se lhe for dado o direito de lê-los.

JOÃO SOARES NETO: E o texto pode ter autonomia sobre os autores?

ELANO PAULA: É possível também que o texto mova-se além da discreta caminhada que lhe foi proposta, e banhe-se de uma eloqüência que não foi planejada.  Mas há de ser lido em VOZ ALTA, como já me referi certa vez. Estava um texto pronto, pedaço de uma cena de novela, e nós ambos achamos que a cena iria emocionar os telespectadores. Daí, mais fácil seria entregá-lo a alguém para lê-lo. E assim foi feito: um ator de prestígio recebeu o texto e, calado, passou a vista atentamente, do começo ao fim. Devolveu-me  dizendo: “Gostei. Tá legal!”. Aquilo foi um soco na minha emoção e no meu julgamento literário. Tomei-lhe o papel e disse: “Vou ler, em voz alta, para você. Em voz alta.” Quatro ou cinco linhas antes do desfecho, ele deixava cair algumas lágrimas silenciosas. E, ao final, saiu sem dizer adeus. Talvez para não chorar mais. Imaginem se eu fosse um ator.

JOÃO SOARES NETO: Você que já escreveu vários livros, inclusive romance, resolve escrever um livro esotérico. Acredita em Deus?

ELANO PAULA: Escrevi um livro esotérico cujo título é AQUELE PONTO - onde espírito e matéria são a mesma coisa. Sou espiritualista. Creio em Deus e não o confundo com Jesus, dando-lhe um nariz, boca etc, Embora possa crer na presença dele simultaneamente em todos os lugares. Cuido desses assuntos como estudasse a parte de movimento vibratório da nossa física do ginásio. Considero a FÉ um axioma da religião. Não discordo delas. Sou adepto de que “todos os caminhos nos levam a Roma”. Acho que cada um tem a religião que pode e merece ter. Creio na reencarnação porque minha inteligência não me explica certas coisas se eu a abandonar. Creio num mundo só, em diferentes freqüências.

JOÃO SOARES NETO: Como são essas freqüências?

ELANO PAULA: Se a visão é única e certos seres vêem mais que outros; se o som é único e o grave que você ouve é o som forte que os cães detestam; arrisco-me a dizer que ainda não passei pelo mundo. Estou octogenariamente vivendo o final de uma vida nesta freqüência. Brevemente meu pianista levará as mãos para direita e produzirá um som tão agudo que os vivos não escutarão e para mim será o início de nova sinfonia. Graças a Deus.

Retornar para Entrevistas