JOÃO SOARES NETO ENTREVISTA FRANCISCO JOSÉ LUSTOSA DA COSTA

Conheço Lustosa da Costa desde os anos 60. Ele e eu trabalhamos nos Diários Associados. Formado em direito pela Universidade Federal do Ceará, no ano de 1962, enveredou pela crônica política, sendo expoente de uma turma que tinha nomes como Frota Neto, Dário Macedo, Milano Lopes,Tomás Coelho, Tancredo Carvalho, Pádua Campos e tantos outros. Fez-se procurador da Previdência Social, onde ouvia as conversas profanas e profundas de Hildebrando Espínola e assegurava o dinheirinho para o primeiro fusca.
Jornalista, se fez cronista diário, saindo da estrita crônica política para um mundo mais abrangente que o intimou a participar da vida política no antigo MDB, candidatando-se a Deputado Federal em 1966, fazendo dobradinha com o valoroso Dorian Sampaio.
Já no final dos mesmos anos sessenta, nos reencontramos na arca de Noé que era o auto-intulado Grupo Crédimus, uma fusão de energia quase juvenil de recém saídos da universidade, pouco dinheiro, muitas idéias, com o jeito diferente de ver o mundo de Elano Paula.
Membro da Academia Brasiliense de Letras, escritor de muitos livros, nome de biblioteca pública, viajante contumaz, leitor apaixonado e cético, Lustosa da Costa é uma referência no jornalismo e na literatura do Ceará.
Hoje, mais de 40 anos depois de conhecê-lo, estou aqui tentando entrevistá-lo, descobri-lo para a posteridade, tornar ainda mais claro o caso de amor que tem: Sobral. E falar de muita coisa mais, tão vastos são sua história e o mundo.
João Soares Neto,
janeiro de 2007

JOÃO SOARES NETO: Então Dolores e Francisco Costa, “Seu Costa”, seus pais, se encontraram, amaram-se, casaram e você foi deixar o umbigo em Cajazeiras, na Paraíba. Como foi essa história e quanto ela durou?

LUSTOSA DA COSTA: Demorou 57 anos. Um dia desses com seu senso de humor característico, ela comentou, divertida: “Como pude agüentar cinqüenta e sete anos de casamento?”

Apesar da brincadeira, agüentou e produziram os dois, treze brasileiros (os que sobreviveram) , todos formados em faculdades publicas ( na época só havia praticamente a Universidade Federal do Ceará ). Dona Dolores nunca foi grande dona de casa, zelosa de arrumação e exímia em preparar comidas. Nada disso. Preparou-nos, ao lado de seu Costa, para os desafios da vida.

JOÃO SOARES NETO: E de lá para a Sobral, em 1942. Quais as razões dessa ida definitiva e qual a cronologia dos irmãos sobralenses do clã de Sobral-Piedade?

LUSTOSA DA COSTA: Em 1942, meu pai, ”seu” Costa foi nomeado, creio que, por influência de seu compadre Parsifal Barroso, genro de Chico Monte, gerente do IAPC. Era o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários. Chegamos ali a 17 de setembro de 1942 e logo estávamos habitando o palácio do bispo, pomposo nome dado ao sobrado diocesano, depois ampliado por dom José, para abrigar as riquezas históricas do Museu que leva seu nome. Eqeuivalia a promoção. Dali saímos em final de 1955 ou começo de 1955, seu Costa nomeado diretor dos Serviços Gerais do IAPC em Fortaleza, ainda sob o patrocínio de Parsifal e de Chico Monte.

JOÃO SOARES NETO: Estamos em Sobral, primeiros cinco anos da década de 40, plena guerra mundial, você choramingando por conta do “black-out” ou indo ver os clarões da lua, por trás do muro da casa? Deu-se conta de que havia uma guerra?

LUSTOSA DA COSTA: Quando chegamos a Sobral em setembro de 1942, não demorou muito, meu pai conseguiu alugar o pomposamente chamado palácio do bispo, sobradão histórico da cidade, duplicado posteriormente, por dom José para abrigar as preciosidades do Museu Diocesano. Houve quem nos disse que a pressa do antístite se deveu ao temor de alugar o velho prédio ao pai de um de seus vigários, dado como leproso. Disso não sei. Não sei se me lembro do sobrado ou das historias ali passadas que depois me contaram. No local, um escravo havia sido enforcado pelo crime de haver roubado um pouco de aguardente e assassinado o proprietário por medo do castigo severo que sofreria. Ele “aparecia” como alma do outro mundo. De madrugada, ouviam-se pesadas pisadas nas velhas escadarias de madeira. Meu pai foi ver e eram ratazanas que pulavam de degrau em degrau e não fantasmas como muitos temiam. De noite, púnhamos cadeiras na calçada para, estoicamente ante o assedio de sedentas muriçocas, ouvir as noticias e as músicas da amplificadora, acho que era a Imperator, instalada numa coluna da avenida da ema. A Praça do São João tinha duas alamedas, a da ema era dos brancos, dos ricos. A dos pretos e dos pobres, ao lado da Igreja do Menino Deus era a outra, ao lado. Nasceram no velho prédio Paulo e Socorro. Ali morreu, à falta de antibiótico, o primeiro Elcias Lustosa. Quando ele expirou, Alberto, irmão pioneiro de Brasília já falecido, em sua ingenuidade indagou: “Pai, posso beber o resto de guaraná dele?“ À época, guaraná, produzido fora da cidade de Sobral, Antarctica (era o que se reservara ao enfermo) ou Brahma só eram consumidos em ocasiões especiais. Do lado de uma de suas janelas, vi Walter Andrade que no final do ano passado, 2006 faleceu na Princesa do Norte, impedir que policiais espancassem e prendessem um popular embriagado, bem como filas de alistados pela SENTA que iam morrer nos seringais ao Amazonas. Dali do sobrado sai para assistir á primeira película de minha vida, cujo enredo, claro, não lembro. Fui levado ao Cine Teatro São João pelo depois cartorário Edson Almeida e depois cineasta Luiz Carlos Barreto. Bom já falei demais do sobrado. E nem lembrei que, às vezes, saia dali para a Cruz das Almas, hoje Avenida Guarani Alverne onde está o Arco de Triunfo, para comer mel de engenho com farinha em pratos pobres na residência de dona Zezinha Vasconcelos, mulher do cabo Vasconcelos, acho que tio do Meton e do Oman Vasconcelos. Nunca pude esquecer o prazer que aquele melado proporcionou ao menino velho de cinco, seis anos.

O que me lembro quando morávamos no sobrado do bispo foi da festa do fim da guerra por causa da multidão que recebeu e homenagearam José Leôncio de Andrade e Joaquim Miranda de Paula Pessoa Andrade que voltavam da Itália, como heróis da FEB. Recordo de mim, apoiado sobre a varanda da janela dos altos do sobrado do bispo, o cotovelo escorado numa toalha amarela de linho na qual rosa esplendia sua vermelhidão. Depois fomos à casa de José Leôncio para a festa. Claro que outros pracinhas houve, mas pobres. Um deles morava lá perto da cancela (a este tempo havia cancela “fechando “a cidade) pras bandas da Santa Casa que não saiu da obscuridade de sua vida, apesar de sua participação na guerra contra o fascismo.

Quando fomos residir no sobrado, meu pai soube de escravo que fora ali enforcado por haver agredido o proprietário, temeroso de que ele descobrisse que roubara um pouco de aguardente dele. Nas primeiras semanas, ruído de gente subindo e descendo escadas indicava que era a alma do penado. Meu pai acendeu o candeeiro e foi olhar. Não eram fantasmas, não. E, sim, ratazanas que, aos pulos, desciam ou galgavam a velha escadaria de madeira. Não creio desse para perceber bem o que era uma guerra. Afinal nasci em 1938. Sei que da varanda do sobrado vi a festiva volta de pracinhas da Itália, os filhos do Jose Leôncio de Andrade, um deles Joaquim Miranda de Paula Pessoa, ele e o José Leôncio Filho, acusados (presos) de comunistas. Ainda não me preocupava em ver o clarão da lua... Ali morreu Elcias, o primeiro Elcias da família.

JOÃO SOARES NETO: E o menino tinha que estudar. Era tempo. Como foram as primeiras aulas com D. Dalva, a professora, e o que ficou marcado em sua memória?

LUSTOSA DA COSTA: Ficou marcado, na memória, o pranto desatado a que me entreguei quando soube de que ela ia deixar o magistério para casar bem como as lagrimas com que enxagüei o caderno de papel almaço capa de envelopes (usados) amarelos da repartição.

JOÃO SOARES NETO: Cresceu um pouco: “Vai estudar para ser padre ou frade, menino”. como foram as passagens por dois seminários, um no Ceará, outro na Paraíba?

LUSTOSA DA COSTA: Fui estudar com os franciscanos alemães em Tiangua e depois em Lagoa Seca, distrito de Campina Grande, porque o ensino era bom e barato. Terrível para o menino velho de onze anos a solidão no imenso dormitório (à época afigurava-se-me imenso. Hoje, percebo que era exagero do altímetro da infância.) As saudades de casa me faziam derramar lagrimas discretas, pela noite.

JOÃO SOARES NETO: Você tem consciência de que é conterrâneo de José Lins do Rego, José Américo de Almeida, João Pessoa e Ariano Suassuna?

LUSTOSA DA COSTA: Não. Sinto-me culturalmente mais conterrâneo de José de Alencar, Domingos Olimpio, Rachel de Queiroz, João Climaco Bezerra, Gerardo Melo Mourão. Ser sobralense foi opção, escolha, eleição e, como tal ser cearense.

JOÃO SOARES NETO: Um dia, Sobral vai ficando na poeira da estrada que o leva a Fortaleza. A cidade é grande e a família também. Surge o Beco da Piedade ou houve outra morada em Fortaleza antes daquela?

LUSTOSA DA COSTA: Passamos algum tempo no sitio de Messejana adquirido por meu pai quando ainda solteiro em 1934.

JOÃO SOARES NETO: Seu Costa morou em um sobradinho alugado, ali perto da Igreja do Cristo Rei, acho que aquela rua é a Nogueira Acioly. Só depois adquiriu a casa da Rua Barão de Aracati teve que papel complementar na família?

LUSTOSA DA COSTA: Nada. Ia ali visitar a família.

JOÃO SOARES NETO: E o menino de Cajá/sobral sentira que escrever era sua sina. Quando, como se deu isso e que importância tem isso na sua memória?

LUSTOSA DA COSTA: Aos sete anos, meu pai me fazia ler na Casa Paroquial da cidade de Groairas discurso por ele redigido. Aos nove, a quatro de outubro de 1947, me dava caderno de capa dura para escrever diário que foi primeira reportagem político-eleitoral de minha vida. Vivia batucando as pesadas maquinas de escrever da repartição, para espanto dos funcionários do IAPC, escrevendo, escrevendo. Cartas para familiares, para editoras pedindo livros, para revistas, dando palpites. Aos 15 anos, meu pai presenteou com a TREPLICA, de Carneiro Ribeiro a Ruy Barbosa por conta da redação do Código Civil. Escrever foi minha sina. Lembro-me de mim, debaixo da centenária mangueira de nosso sitio em Messejana produzindo, a lápis, dezenas de artigos e crônicas que não tinha onde publicar. Nos meus 14, 15 anos. Quem pagou o pato foi Guilherme Neto, seis ou sete anos depois, nos Diários Associados e eu desapropriando seus pseudônimos, Ivan Sodré e Ivanise Santos para perpetrar crônicas publicadas em UNITARIO. Hoje tenho dois blogues, para espanto do colega de jornal, hoje da TV Câmara, Paulo José Araújo Cunha.

JOÃO SOARES NETO: “Sobral, cidade das cenas fortes”, quente, política e religiosamente comprometida com a oligarquia local. Como você via e vê hoje as figuras de Chico Monte, Deolindo Barreto, Dom José Tupinambá da Frota, Sempre me pergunto quais eram os lideres progressistas. José Sabóia, dono da fabrica, juiz aposentado, leitor de Antonio Nobre ou Chico Monte, fazendeiro, que se proclamava analfabeto para mais se aproximar das massa rurais, do eleitorado dos distritos? . Pairava sobre eles a figura majestática de dom José sempre em guerra com José Saboya, levado a aliar-se, a vida inteira, com Chico Monte até que o Padre Palhano, seu filho dileto, ou neto, lhe impôs o rompimento da historia aliança para se fazer prefeito da cidade. Deolindo era a dissonância, alguém disposto a falar alto num salão educado, cheio de normas, ditadas pela elite que era sua dona. José Palhano de Sabóia, José Euclides Ferreira Gomes.

LUSTOSA DA COSTA: Tive pouco contacto com José Euclides. Lembro-me dele, filho de família tradicional da cidade, reclamando porque elegi como herói de meus livros um plebeu, Deolindo Barreto. Não acompanhei sua trajetória política.

JOÃO SOARES NETO: Por conta do Padre Palhano, foram os três muitos ligados durante algum tempo, e tantos outros que fizeram a história sócio-política de Sobral nestes últimos cem anos? Você mesmo diz que não tem amigos de infância.

LUSTOSA DA COSTA: Costumo dizer que só quem tem muitos amigos de infância é quem foi criado em orfanato”. As amizades duradouras se fazem na Faculdade. Você há de perguntar porque considero Galba Aragão, colega dos tempos de Educandário São José, meu amigo mais antigo. Com razão e sem razão. Nossa amizade aconteceu um dia desses, já velhos, barbados, eu aposentado ele ainda fazendo filhos como aconteceu um dia desses. Foi reencontro, para mim prazeroso já que, ao longo dos anos, depois do curso primário não mantivemos maiores contactos. e que os amigos só surgem à época da faculdade.

JOÃO SOARES NETO: Quem são os seus amigos mais remotos, como se comunica com eles e quais as lembranças que não passam?

LUSTOSA DA COSTA: Em Sobral, desfruto da amizade de Edvard Dias, há mais de cinqüenta anos. É filho de um querido amigo de seu Costa, colega de rezas, da Congregação Mariana, de simpatias integralistas, João Dias. É um desses cabras que honram a cidade e honram aqueles a quem dedica amizade. Ali gosto de me reunir com gente da UVA ,o Portella, o homem do vestibular,o Valdeci Vasconcelos, o João Ribeiro Paiva, o Leunam Gomes, o Pedro Ribeiro. Todos da área universitária e creio, todos ex-seminaristas. .

JOÃO SOARES NETO: E um dia foi ser funcionário do Náutico Atlético Cearense. Como foi isso, contextualize esse tempo em que Pedro Coelho, Romeu Aldhigueri, Ari Araripe e tantos outros dirigiam o “clube alvi-verde?”.

LUSTOSA DA COSTA: O Náutico Atlético Cearense era clube de classe media e, portanto, muito conservador. Era objeto de brincadeiras na cidade a preocupação de seus diretores com as danças mais agarradas, dos casais mais aconchegados. Isto era o mínimo que despertava o furor moralista. Não surpreende que da diretoria do Náutico saíram nomes ligados ao golpe de 1964. A impressão que a classe media tinha era de que o Ideal, clube dos ricos, constituía o paraíso da permissividade.Tudo ali era permitido.Os pecadores lá, no Ideal, tinham vez. Nos salões alviverdes, nada. Nenhuma chance de pecar.

Fui diretor de secretaria do Náutico (que nome imponente! Redigia ofícios e a ata das sessões das quintas feiras). O presidente era o severo Antonio Gomes Guimarães. Era mais o chefe do protocolo, a autoridade formal. Quem mandava mesmo era Pedro Coelho, construtor do clube, pelo qual arruinou, muitas vezes, seus negócios.

JOÃO SOARES NETO: E aí veio o vestibular de Direito com latim e tudo. Como foi essa luta? Deu emoção subir os degraus do prédio velho da Praça Clóvis Beviláqua? Quais foram os professores mais brilhantes do seu curso?

LUSTOSA DA COSTA: Fui mau aluno. Já envolvido com a crônica política. Quando Flavio Marcilio, que deixara o governo, fez a chamada, ao dizer meu nome, indagou: “Então é você, Lustosa?” Já era eu personagem da cidade, enfronhado na crônica política. Ou então nos ardentes namoros dos tempos de Faculdade que tomavam mais meu tempo que os estudos. Seu Costa muito brincalhão, me chamava doutor de vela pelas velas em honra dos santos que dona Dolores acendia no santuário lá de casa (onde se guardavam imagens) a cada vez que me submetia a provas, para, com a graça de Deus, me suprir dos conhecimentos jurídicos que não amealhara nas divertidas noitadas do Ideal ao lado de Lucio Brasileiro, amigo de fé desde então. E de Dario Macedo, amigo, com quem entretive, sempre, muitas divergências.

JOÃO SOARES NETO: Ao mesmo tempo, entre tímido e audacioso, aportou nos Diários Associados, onde Eduardo Campos brilhava como representante local do condomínio nacional comandado por Assis Chateaubriand. Conte essa história.

LUSTOSA DA COSTA: Tudo começou quando passei no vestibular para a Faculdade de Direito e não podia perder o emprego do Náutico, razão porque me incorporei a campanha, que, então,se fazia pelo curso noturno de ciências jurídicas. Meti as caras e fui à sede dos jornais “associados” na Senador Pompeu (acho que é hoje local de um shopping) e pedi apoio de Manuelito Eduardo. Este me atendeu muito bem e disse que escrevesse sobre a matéria que publicaria. Sai mais alvoroçado que de costume para almoçar no restaurante dos fundos da Loja de Variedades, do Romeu Aldigueri (também dono da Flama, símbolo de distinção) e logo depois para a secretaria do Náutico, no edifício Triunfo onde rapidamente, como de hábito, escrevi dois tópicos que fui deixar sobre a mesa de Eduardo Campos antes que ele voltasse do almoço e desse ligeira passada pela sede, como era rotina. Qual não foi meu deslumbramento, dia seguinte, quando li o artiguete que escrevera, abaixo, sob o primo editorial de Murilo Mota, do Correio do Ceará, que fazia furor áquela época. Passei, dia seguinte, pelo jornal para agradecer. Foi quando Manuelito me interpelou:

“Quer trabalhar comigo?”

“Sabes o que respondi?”

“Só se não for no jornal nem for de manhã” Não foi, como pode parecer, empáfia, não foi pose, decerto imprudência, tudo, porém, muito espontâneo, muito natural. Tinha levado a maior gozação em “Unitário“ do Jairo Martins Bastos porque, ainda de Sobral escrevera, propondo minha colaboração e perguntando quanto me pagariam por ela. Estava envergonhado e não queria topar com meu ”algoz” (que, por sinal, depois quando eu já colunista político conhecido no Estado, viraria meu amigo ou quase isto) o Jairo. Nem perder o emprego do Náutico. Manuelito não relevou minha impertinencia e respondeu no ato:

“Nem é no jornal nem de manhã.”

Depois de ligeira pausa, formulou a pergunta: “Você quer escrever a Crônica do Ceará?”.

Quase cai pra trás. A referida crônica era o editorial da Ceará Radio Clube, disparado a empresa mais forte e prestigiada do Estado, interpretada pelo consagrado João Ramos. Tratava-se de encargo de profissional do nível de Blanchard Girão que me cabia substituir. Era demais para meu pobre coração. Comecei no dia seguinte. Lembro de que, três ou quatro dias, recebi recomendação de Manuelito para não generalizar porque escrevera que os leiteiros (a este tempo ainda havia leiteiros, a entrega do leite de porta a porta) punham água no leite. Devia restringir a acusação a alguns leiteiros, lição que incorporei imediatamente.

Na Ceará Radio Clube cumpria-me ainda escrever textos para programas radiofônicos. Um deles era o rodapé sentimental de “Um seresteiro canta em surdina”, interpretado pelo Guilherme Neto.

JOÃO SOARES NETO: Os Diários Associados eram a Globo de hoje, forte, temido, pujante e a TV-Ceará dava os seus primeiros passos em preto e branco. De quem foi a idéia de “Política, quase sempre?”

LUSTOSA DA COSTA: O programa caiu no meu colo, naturalmente, porque era o colunista político de Unitário, escrevia na PRE 9 e acho (é questão de datas a conferir) que já participava, como tal, do Telejornal Crasa. Pode ser, pode ser haja sido idéia de Rômulo Siqueira que gostava muito de mim. Claro que com o consentimento do todo poderoso Eduardo Campos.

JOÃO SOARES NETO: Certamente, nesse tempo, surge em sua vida a figura de Lúcio Brasileiro. Quando e como se deu essa aproximação?

LUSTOSA DA COSTA: Realmente não sei. Sei que me constituir amigo de um profissional da correção de Lucio Brasileiro foi privilegio, foi dádiva , benção de Deus. Durante certo tempo, andávamos sempre juntos e sua companhia leal e instigante me fazia muito tempo. E faz. Pena more tão longe e eu, ingrato, pouco o visite. O que não impede sejamos grandes amigos. Brasileiro é aquele cara com o qual você pode contar. Vivo ou morto. Prefiro vivo. Mas sei que quando partir, se for à frente dele, também posso contar sua solidariedade irrestrita. Todos vemos, sabemos que ninguém é mais dedicado à memória dos amigos desaparecidos.

JOÃO SOARES NETO: Amigos para sempre? Você vai ao doce exílio do Cumbuco?

LUSTOSA DA COSTA: Como disse, sou um ingrato. Como ele não tem telefone, não me arrisco a ir lá e não ter o prazer de revê-lo.

JOÃO SOARES NETO: O que representou para a Fortaleza dos anos sessenta a figura da senhora Chiquita Gurgel, uma mulher avançada para o seu tempo, e que recebia a todos com prodigalidade, entre outros, o “menino Dilcimar” e Frota Neto?

LUSTOSA DA COSTA: Chiquita abrigava a sociedade. E os sem sociedade. E muita gente que não podia adquirir o uísque de qualidade que nos servia. Turma jovem e inteligente a quem ela acolhia carinhosamente. Chiquita foi dona do último salão da sociedade cearense e será sempre lembrada por isso.

JOÃO SOARES NETO: E a Praça do Ferreira entrou em seu roteiro sentimental. Havia o Abrigo Central, o pré-shopping center de Edson Queiroz e os intelectuais costumavam sentar em um banco olhando para a Rua Floriano Peixoto, varando a noite e contando histórias. Quem eram eles e o que faziam por lá?

LUSTOSA DA COSTA: Não me lembro. Recordo que, estudando á noite, saia da Faculdade, com Paulo Elpidio Menezes Neto para conversar na Praça. Depois, logo depois demorava pouco na Praça porque já vinha da casa da namorada e ia para o restaurante do Ideal à cata de noticias.

JOÃO SOARES NETO: Uma noite, tempo de José Flávio Costa Lima esfuziante como deputado Federal, Parsifal Barroso no Governo e o Ideal Clube passou a ser ponto de encontro noturno seu, de Lúcio Brasileiro e outros colegas e amigos. Como era isso? E as contas no fim da farra?

LUSTOSA DA COSTA: Contei, em crônicas antigas, o sufoco que passei quando meus vales se acumularam no restaurante do Ideal e tive de ir ao José Pontes de Oliveira, com o Lúcio Brasileiro, levando promissória, com garantia de dois avalistas, com a finalidade de levantar empréstimo para pagar as contas. Recordo também a surpresa do Karel Navratill, pai da bela Hanna e arrendatário do restaurante do clube , ao ler crônica em que ironizava a escassez de camarão no prato de camarão á bahiana que encomendara. Se podia criticar assim, de publico, restaurante predileto, é porque nada devia ao arrendatário. Claro que, no auge do prestigio como secretario de Estado, o jornalista Temístocles de Castro e Silva, muitas vezes chegava e pagava as contas de colegas menos afortunados como eu, Brasileiro, Dario Macedo.

JOÃO SOARES NETO: Que lembranças registra você de Dário Macedo?

LUSTOSA DA COSTA: Agradava-me a companhia do Dario, tanto que, adolescentes, sempre íamos juntos ao restaurante do Ideal onde seu papo era ameno e seu gosto por Vinicius de Morais nos aproximava. Como gostava de sua presença quem pagava a conta era eu, dizia:

Um uísque para mim. Um rum, para o Dario. Lucio Brasileiro acha, bom psicanalista(?) que esta distinção etílica esta na raiz das muitas desavenças que entretivemos ao longo dos anos.

Dario foi um herói, vindo do interior, para vencer na cidade grande e o conseguiu, pela inteligência e pela força de vontade, embora não tivesse estudos regulares. Era excelente filho e irmão, ajudando os familiares, em qualquer circunstância. Tivemos sempre muitas dificuldades de relacionamento. Tomás Coelho foi mais que um colega, irmão a quem muito devi quando cheguei a Brasília. Nunca houve companheiro de viagem (fomos à Europa duas vezes,) tão gentil, tão prestante, tão bem humorado. Era doido para me fazer um favor e fez vários. Tancredo Carvalho era outro colega serio e respeitado, nunca tendo, porém, a convivência que mantive com Dario ou com o saudoso Tomás, e outros que partiram cedo.

JOÃO SOARES NETO: Foi no Ideal ou na antiga Assembléia Legislativa que surgiu a idéia de sua candidatura a deputado federal fazendo dobradinha com Dorian Sampaio para estadual? Como foi a estratégia de campanha, o que ficou de positivo nessas andanças pelo interior?

LUSTOSA DA COSTA: Não havia estratégia nenhuma. Só ia as cidades do interior onde Dorian Sampaio era votado e, graças a ele ,obtive excelente votação em Aracati, Uruburetama e São Luis do Curu.

JOÃO SOARES NETO: Como era o momento político e as circunstâncias da época?

LUSTOSA DA COSTA: Nem sempre era fácil. Uma vez, num distrito de Aracati, creio que Mutamba, não me lembro mais, não apareceu ninguém sequer para nos cumprimentar. Todo o mundo recolhido, escondido, dentro de casa e eu falando para o Dorian e o Dorian saudando o Lustosa, em seu discurso.

JOÃO SOARES NETO: Os homens se casam. Podem excluir nomes que lembram momentos tão desagradáveis. , nasce seu primogênito, herdeiro de seu nome, monta uma casa bonita e o sonho dura pouco.

LUSTOSA DA COSTA: João para mim, a vida conjugal começa no dia em que eu e Verônica começamos a viver juntos. Ela me deu equilíbrio e três filhos que me proporcionam muitos motivos de orgulho. O mais foi equivoco que ia me destruindo. Felizmente, não me faltou coragem para enfrentar a situação e cortar laços que formalmente me prendiam e me faziam mal.

JOÃO SOARES NETO: Passa batido ou já dá para falar? Nesse mesmo tempo, por conta das demandas do Grupo Credimus e outros clientes, você fez uma incursão pela publicidade. Virara empresário. E daí?

LUSTOSA DA COSTA: Daí que nunca poderia ser empresário. Não tenho nenhuma vocação para tal. Aconteceu que, quando Elano de Paula começou o “namoro” com Walder Ary descobri que a sociedades deles daria certo e que iam ficar ricos. E ficaram, durante algum tempo. Indo á praia com Elano e Danilo Marques, pedi a Elano:”Quando você ficar rico, me dê a conta publicitária de sua empresa ”. Era sonho alto, tão distante que ele imediatamente concordou. Ele e Walder Ary que foram fieis a tal promessa e sempre corretíssimos comigo. Eu é que não dava para empresário, não tinha paciência nem vocação para tal.

JOÃO SOARES NETO: Um dia (em que ano foi?), nós no então San Pedro Hotel, ali na Rua Castro e Silva, fazíamos, contristados, o seu bota-fora. Era tempo de ir e ficar no Rio. Revolução em pleno vapor e lá se foi morar na Av. Nossa Senhora de Copacabana. Como foi esse período brasileiro e como você se insere na realidade da época?

LUSTOSA DA COSTA: Teve ótimos momentos, em parte devidos a Ayrton Rocha. Estava eu na Avenida Beira Mar, determinado a ir morar no Rio. Com a imprevidência de sempre. Sem lenço nem documento. Nem o próprio lugar de procurador do IPASE que não podia levar porque era interino. Ao encontrar Stela e Ayrton, num restraurante (acho que era o BEM) na Beira Mar, lhe disse que estava disposto a residir no Rio. Ele, no ato, garantiu: “ Pois vai trabalhar comigo”. Deu-me status, freqüência a restaurantes de luxo da época, Chateau e Bistrô, e tudo o mais que um amigo solidário pode fazer. E a certa facilidade de trabalhar na TV Tupi e escrever para a Tribuna da Imprensa. Cumpre lembrar, João, para mostrar que já nos dávamos, que no comecinho da TV Ceará, ele convidou a mim, ao Lucio, ao Frota Neto, ao Mino, ao Guilherme Neto, a Magola Martins e uma pá de gente boa para trabalhar. “Eles fazem a cidade”, patrocinado por ele, através da Mcan ericsson. Fiz a primeira entrevista política de que se tem noticia no Ceará com o padre Arquimedes Bruno e quebrei a cara ao lhe indagar: ”O senhor é comunista?”, sem me preparar para sua replica que foi: ”Só quem pensa que sou comunista é quem tem prisão de ventre mental”. Fiquei de cara no chão. O pior é que posso ter passado, perante os telespectadores, como macartista quando não era este meu propósito, e, sim, chamar a atenção da cidade para o sacerdote que a empolgava com sua pregação progressista, que alguns consideravam esquerdista.

JOÃO SOARES NETO: Conte as suas passagens como jornalista lá no Rio até sentir o cheiro forte de Brasília entrar em suas narinas. Como você se situava ideologicamente?

LUSTOSA DA COSTA: Era um liberal. Um conservador que não aceitava o autoritarismo tanto assim que me filiei ao MDB, partido contrário á ditadura militar. Tenho a vaga impressão de que melhorei politicamente, na boquinha dos setenta e isto muito me orgulha.

JOÃO SOARES NETO: E o Dorian Sampaio resolveu reeditar o “Anuário do Ceará”, criado por Waldery Uchoa. Fala-me da idéia, pergunta se me interesso. Digo que não sei e ele me propõe que eu pague para fazer o projeto do novo “Anuário do Ceará. Faz o projeto, resolvo não participar, pago e você forma com ele a dupla de editores que materializou a idéia que deu certo. Como foi essa experiência?

LUSTOSA DA COSTA: Não queria firmar sociedade, temeroso de anterior experiência mal sucedida de que preferi não falar. E que nem foi relevante em minha biografia. . E porque não me animava a vocação dos negócios. Ele tanto insistiu que aquiesci. Lançamos três edições do Anuário, cujo “apurado” me permitia passar dois meses, na Europa. Quando vi que em 1974 teria de fazer de novo a peregrinação pelas empresas, pedindo publicidade para o livro, desisti. Mudei-me para Brasília, deixando-lhe totalmente minha parte e muito feliz com isto. Foi tempo bom. Além das três viagens a Paris, contrai o gosto pelo estudo de historia do Ceará e isto ainda hoje me faz bem.

JOÃO SOARES NETO: E Brasília surge como uma nova Sobral de sua vida em dezembro de 1974. São, então, 33 anos de Congresso Nacional, jornal, restaurantes, livrarias e conversas com as mais importantes figuras da política brasileira. Por que José Sarney é o seu preferido?

LUSTOSA DA COSTA: No ano em que cheguei, o jornalista Edison Lobão foi ao comitê de imprensa convidar alguém de O Estado de São Paulo para assistir aos dez anos da eleição de José Sarney para o governo do Maranhão. Fernando César e Carlos Chagas concordaram com minha ida. Lá fui. Depois “cobria” a ARENA, depois PDS para o jornalao dos Mesquista, o que me levava a conviver com Sarney que é uma figura amabilíssima. Quando se elegeu Presidente da Republica, dava voltas, com seu séqüito, para me cumprimentar, assim que me avistava, em solenidades públicas.

Foi, durante cinco anos, cantar lá em casa parabéns para você no meu aniversario. É amigo carinhoso e prestante. Sei que todo o mundo está habituado a ter um Chefe do Governo, em sua casa, dando-lhe parabéns. Eu, nunca. Só naquele período. Como homem da Praça do São Francisco, de Sobral e do Beco da Piedade, sentia-me honrado, envaidecido, feliz com tal homenagem para mim e para os meus, inédita . Com o tempo, apesar do ódio que a mídia paulista lhe vota, seu nome na Historia está assegurado. E em boa posição.

JOÃO SOARES NETO: Novo e definitivo casamento. Verônica lhe dá novos rebentos, com os quais atravessa a maturidade. Fale de tudo isso e de cada um dos seus filhos,

LUSTOSA DA COSTA: Francisco José é filho do primeiro casamento com o qual, infelizmente, por motivos alheios à minha vontade, quase não tive convivência na época de infância e adolescência. Apesar de seus graves problemas de saúde, conseguiu ser aprovado no vestibular para a Universidade Federal do Ceará e é leitor apaixonado de Fernando Pessoa. Raquel, a mais velha, filha de Verônica, trabalha dez, doze horas por dia, como funcionária concursada da Caesb e quando tempo tinha, me ajudava na preparação de meus livros. Sara deixou o trabalho para se dedicar exclusivamente a estudar para concurso publico. O caçula Carlos Eduardo, aprovado em vestibular da UNB, concurso para o Banco do Brasil, atualmente integra os quadros funcionarias da Câmara Legislativa de Brasília, tendo sido ainda aprovado em três outros concursos para empregos públicos de destaque. Por enquanto só caduco com um neto, Arthur Henrique, companheirão, meu orgulho, com quem, às vezes, saio às compras, embora ele não experimente muito prazer nisso. É filho de Sara. Já Thomás, filho de Raquel, tem apenas três meses. Ainda não dá para curtir tanto, suas vidas escolares e profissionais, suas singularidades e pontos de mutação neste começo do século XXI.

JOÃO SOARES NETO: Mas, aos pés em Brasília é somada a saudade de Fortaleza e Sobral. Tantas vindas, tantas voltas e se poderia dizer que suas raízes estão hoje dispersas, vicejando na terra vermelha do planalto central, mas se espraiando pelas estradas sacolejantes que fazem o seu eterno retorno a Sobral e Fortaleza. Como isso funciona no seu juízo?

LUSTOSA DA COSTA: Jamais quis me desligar de Sobral, de Fortaleza apesar das coisas haverem corrido bem em Brasília. O Marcelo Linhares acha que este saudosismo só ocorre aos que se deram mal no exílio. Graças a Deus, as coisas até correram bem para mim na capital da republica. Não tenho razoes de queixa perante o Altíssimo. Cultivo a historia da Princesa do Norte a que sempre visito com emoção. E a cada mês revejo os muitos amigos que tenho em Fortaleza que constituem minha maior riqueza.

JOÃO SOARES NETO: Portugal é bem ali do outro lado do Atlântico e lá se foi você atrás de memórias, livros, vinhos, escritores e descobrir as nossas razões primeiras, o que os gajos de lá pensam a nosso respeito. Sentar-se, olhar o Tejo, fechar os olhos e misturar versos de Fernando Pessoa em “A Tabacaria” à prosa de José Saramago em “Memorial do Convento”. Como foi a sua descoberta portuguesa e dos africanos de língua portuguesa?

LUSTOSA DA COSTA: Descobri Saramago, por acaso, em Brasília e me deslumbrei com Memorial do Convento o que me levou a procurá-lo, em Lisboa, no restaurante Varina da Madragoa que, então, freqüentava e fazer-se seu amigo. Pelo menos como amigo ele me trata em um dos livros de seus Cadernos da Lanzarote. Após tal achado feliz, fuçando não sei que livraria, senti o prazer de encontrar Mia Couto. Depois Germano Almeida. Que, por inspiração da secretaria Claudia Leitão, vieram a ultima Bienal do Livro e estiveram presentes ao suntuoso jantar que Marildes e Lauro Vinhas Lopes me ofereceram por conta dos cinqüenta anos de jornalismo. Tenho procurado outros autores africanos, de língua portuguesa, admirado sua prova e principalmente a ciência que têm da diversidade de cultura africana e européia.

JOÃO SOARES NETO: E, ao mesmo tempo, em que cuidava de uma família bonita que crescia, trabalhava e escrevia livros. Crônicas, romances e memórias que retratam toda a sua saga, falam de Sobral, família, amigos, de suas viagens, das desditas financeiras, dos papos-cabeça com filhos e netos, de pessoas que se foram e outras que estão surgindo. Quantos livros, quantos editores, quantas noites de autógrafos (que têm a singularidade de começar cedo para respeitar o tempo dos mais chegados em anos e de se estender por muitas horas para aplacar a fúria e a sede de Baco de seus muitos amigos)?

LUSTOSA DA COSTA: Livros mais de vinte. Porque não incluo todas as edições do Anuário. Às vezes também não a coletânea O amigo do peito, sobre Regis Jucá. Outra, a do TT das madrugadas. Editei muitos livros pela Stylus do Dorian, pela gráfica do senado Federal, pela Universidade Federal do Ceará, pela Universidade do Vale do Acarau e também dois em Lisboa pela Universitária Editora, de um amigo do embaixador Dario de Castro Alves.

JOÃO SOARES NETO: E lá se foi a Paris, com família e papagaio, como os escritores americanos dos anos 30, os nossos José Carlos Oliveira e Jorge Amado, mais tarde, entre centenas de brasileiros que se embevecem com os barcos singrando o Rio Sena enquanto um acordeão faz o som de canções de Maurice Chevalier. E se perdiam eles pelas ruas do “Quartier” em busca de um bar que abrigasse seus sonhos e não cobrasse muito caro. E nessa Paris, meio que sem esperar, se viu de coração ameaçado. E foi lá que um brasileiro, o médico Leonardo Esteves Maia, colocou um “manchão”, um remendo que, graças a Deus, mantém o seu coração no compasso da maturidade que absolveu seus pecadilhos de antanho e o tornou menos ansioso.

LUSTOSA DA COSTA: Menos ansioso, eu, João? Acho que não. Nunca!

O que é mexer no coração em plena Paris? Seria charme dele para efeitos biográficos? Não, não. Necessidade imperiosa. Em 1981 o cardiologista previu a necessidade de operar a aorta toráxica. Como dissesse que não era urgente, fiquei remanchando, fugindo do bisturi, durante catorze anos. Ao chegar a Paris, procurei o cirurgião cardiovascular, Leonardo Maia, filho do cardiologista André Esteves que ao ver meus exames, nem hesitou: Você tem uma bomba no peito. E acrescentou: ”Pode morrer a qualquer instante. Não da nem tempo de sentir dor”. Fui a faca e só posso a Deus agradecer pela retifica a que recorria e àquele medico brasiliense que me apoiou.Mais tarde a Dra.Leda Sales, a mais respeitada cardiologista de Brasília, me pôs sob os cuidados do bisturi do grande cirurgião da América Latina, Sergio Almeida Oliveira que pos,em meu peito anti-ianque, válvula americana. Quando lhe reclamei, brincou: “Os americanos podem ser ruins de política. São ótimos de válvula”

JOÃO SOARES NETO: Voltando à primeira pergunta: D. Dolores e “Seu Costa” povoaram a cidade de Sobral com muitos filhos, todos viraram gente, se formaram, fizeram suas estradas pessoais, houve até deputado e Ministro, sem falar nas professoras, jornalista, médico, historiadora e muito mais. Agora, para completar, a terceira geração dá um deputado federal (Paulo Henrique Lustosa). Dá para, cronologicamente, falar de seus irmãos e daquilo que mais os caracteriza do ponto de vista da família e de suas lutas e vitórias?

LUSTOSA DA COSTA: Não dá, não. É muita gente. Fiquemos no fim de rama, nos caçulas. Fred, o benjamin dos homens, professor da FGV, editor de revista de gestão em Portugal e no Brasil, dono de excelente texto, companheirão em Paris e aqui desde os tempos de eu descasado e ele me fazendo companhia no almoço da casa da rua Dr.José Lourenço. Isabel Lustosa, a grande historiadora brasileira, que você conhece de livros e de presença sempre requisitada pela televisão E Clélia, a geógrafo com grande conhecimento da historia de Fortaleza que ainda não concluiu tese de doutorado porque se preocupa mais em ajudar os outros, até a concluir tese de doutorado, porque toma conta de dona Dolores (mãe-filha,filha-mãe), como vizinha, presença sempre constante lá em casa, apoio certo de todos.Da mãe, irmãos, sobrinhos, agregados,antigos agregados,parentes de agregados.

JOÃO SOARES NETO: Você acredita que o sucesso coletivo da família Lustosa da Costa é resultado de uma boa conjunção genética ou é fruto de uma educação forte, do exemplo e da tenacidade de seus pais?

LUSTOSA DA COSTA: Eles nos prepararam para dar valor aos livros e aos títulos universitários e literários. Dois heróis de classe media que viram recompensados os esforços e os planos realizados.

JOÃO SOARES NETO: Paulo Lustosa, inteligência privilegiada, técnico capaz, secretário de Estado, Deputado Federal e Ministro de Estado, poderia ter sido senador e governador do Ceará. O que aconteceu para isso não ocorrer?

LUSTOSA DA COSTA: Nem todos chegam ao senado e ao governo do Estado. Ele é o cara que não pode se queixar de haver sido deputado, ministro de Estado no governo Tancredo Neves, quase ministro de novo no governo Lula, depois de vários insucessos eleitorais quando o tucanato jurava, de pés juntos, que estava morto e sepultado. Esta visto que o prognostico do PSDB pode muito bem, em breve servir ao partido. Este,sim, termina se acabando.

JOÃO SOARES NETO: Os seus amigos antigos: Paulo Elpídio, Hélio Barros, Lúcio Brasileiro, Danilo Marques etc. foram ameaçados pelo cristão-novo Juarez Leitão. Como explicar para eles?

LUSTOSA DA COSTA: São todos excelentes amigos e não houve razão para deixar de sê-lo, para mudanças , graças a Deus. Se Deus me deu um dom , este foi de conquistar e manter amigos. Nunca perdi um só. Você pode perder relações ou as chamadas amizades funcionais, de alguém que é seu amigo porque trabalha no mesmo sitio ou porque se encontra, muito, com ele, na caminhada da Beira Mar, sei lá. Amigo é coisa muito seria. Não dá para enumerar os amigos mais próximos e mais queridos que são tantos e constituem meu patrimônio maior.

Engraçado foi como começou minha relação com Juarez, no escritório de Dorian Sampaio a quem sempre visitava, visitei. Quando ele me disse que devia ser amigo de Juarez, saí com grosseria totalmente desnecessária: ”Não estou em idade de ter mais nem um novo amigo. Estou muito satisfeito com os que consegui reunir até hoje”. Pois não é que ele ouviu, relevou a indelicadeza e logo começamos um papo que me dá prazer até hoje. Teve inicio quando o consultei sobre o Padre Leitão e logo ele, causeur como poucos, me brindou com três ou quatro boas estórias do pai (adotivo) para meu livro. Foi a primeira aproximação. Ele é da zona norte, como eu, ex-seminarista como eu, apaixonado por Sobral como eu, sobrinho do padre Leitão, seu pai de criação, grande, querido amigo de meu pai, seu Costa. De lá para cá, Deus castigou minha imprudência. Ou me premiou. Porque a companhia de Juarez Leitão me faz bem, por sua cultura, seu brilho intelectual, seu senso de humor e seu excelente caráter. Continuo a desfrutar da amizade de todos os amigos citados, riqueza minha, minha maior riqueza. E um não exclui o outro.

JOÃO SOARES NETO: E aparece a figura de Sérgio Braga com o seu “Clube do Bode”. Como você vê essa coisa?

LUSTOSA DA COSTA: Conheço Sergio Braga, de pouco, mas tenho muita honra em ser seu amigo. É um companheiro prestante, sempre solidário. Numa mesa, é aquele cara discreto, calado que só interrompe o silêncio, para uma tirada espirituosa, para uma piada de bom gosto. Um cara a quem o sucesso não deslumbrou. Vale a pena conviver com gente como o Sergio Braga.

JOÃO SOARES NETO: Você que respira política o tempo todo, como faria um retrato do Brasil desde a redemocratização de 1946 até hoje? Para onde pende a sua ideologia de hoje?

LUSTOSA DA COSTA: Sou um brasileiro, insatisfeito com o neoliberalismo. E como vi a guerra contra Getulio Vargas, baseada em suas qualidades, tomei partido ao lado de Lula porque sofre, exatamente, como o antigo Presidente suicida, pelo lado bom de seu governo. E só o fato de ter ele gente, aqui, no Ceará, no Piauí e na Bahia da categoria que é contra ele, me faz mais aplaudi-lo, defende-lo. Se ele continuar com tais adversários, quero votar nele, mais vezes, para Presidente da Republica. Só não o farei se ele fizer a conciliação com esta gente que ora o hostiliza e tanto o odeia.

JOÃO SOARES NETO: Que papel a história política brasileira guarda para homens-mortos como Carlos Lacerda, Vargas, Castelo Branco, Geisel, Ulisses Guimarães, Tancredo Neves e Virgílio Távora?

LUSTOSA DA COSTA: Serão lembrados, cada qual,com seu perfil conservador .

JOÃO SOARES NETO: Quais foram os presidentes da República mais importantes de sua coleção brasiliana, pós 1974?

LUSTOSA DA COSTA: Ainda está muito cedo para uma analise. Por mim, Sarney, pela condução competente do processo de redemocratização. Lula, por haver tentado contra tudo e contra todos, dar feitio social, preocupação de justiça social a seu governo. Malgrado tantas objeções, sabotagem, pressão.

JOÃO SOARES NETO: O que ficou de marcante e de nódoa eterna da Revolução de 64?

LUSTOSA DA COSTA: A censura e a tortura. A morte de tantos idealistas que pegaram em armas contra um governo ilegítimo, iníquo.

JOÃO SOARES NETO: E Lula é nordestino ou paulista? Mistura dos dois? Qual a sua avaliação do primeiro governo Lula?

LUSTOSA DA COSTA: Só o fato de o governo Lula ter viés social, manifestar preocupação com a fome do povo brasileiro, com que não se preocupara ate hoje nenhum Presidente, já justifica sua presença na Chefia do Governo. Só pensar em que todo brasileiro, hoje em dia ,come, não morre mais ninguém de inanição, já honra sua passagem pela Presidência da Republica. Claro que a bolsa escola horroriza os tucanos, a burguesia pretensiosa, os brasileiros de olhos postos em Miami que falam na necessidade de que o pobre espere, passando fome com os filhos, o emprego que o desenvolvimento criará Quando o FMI permitir. Não faz o governo ideal. Decerto, nem para ele. E sim o possível e ainda assim é.

JOÃO SOARES NETO: Qual o futuro do PSDB?

LUSTOSA DA COSTA: Só espero que não seja o poder de novo para extinguir o bolsa escola, vender o Banco do Brasil e a Petrobrás ao Benjamin Steinbruch ou ao Daniel Dantas e ostentar desprezo pelo povo brasileiro.

JOÃO SOARES NETO: Quem será o presidente em 2010: Aécio, Ciro, Serra ou teremos surpresa?

LUSTOSA DA COSTA: João, dia 11 de março de 1985, José Sarney jantava lá em casa com Marly e os irmãos fumantes não o pouparam da fumaça. Quatro dias depois, sem que esperasse, era o Presidente da Republica. No Brasil, o inesperado sempre faz uma surpresa. Se não deu para prever a ascensão de Sarney, pelo voto indireto, imagine-se o que ocorrerá em 2010. No final daquele jantar pedi a ele mudasse de lugar por conta dos cigarros então consumidos. Dos irmãos fumantes. O Ciro é bem capaz de querer imitar Miterrand ou o próprio Lula.

JOÃO SOARES NETO: Das suas leituras, das suas andanças, dos seus contatos, qual foi o escritor que mais o impressionou no contato pessoal? Por quê?

LUSTOSA DA COSTA: Jorge Amado que me agradeceu elogios publicados no Correio Braziliense e que lhe foram enviados pelo Marcos Vilaça, como se fosse o primeiro encômio que tivesse recebido, como se tratasse de estreante, reconhecido por um jornalista. Depois dele, aluno seu, outro bahiano Antonio Torres, pela simplicidade. Simplicidade na medida de seu gênio, de seu prestigio nacional e internacional.

JOÃO SOARES NETO: José Saramago ganhou o Prêmio Nobel de Literatura porque havia de ter um representante da língua portuguesa no cenário ou tem méritos internacionais?

LUSTOSA DA COSTA: Creio que ele tem méritos de sobra para ter merecido o premio que espero, seja, no futuro de Mia Couto, de Moçambique.

JOÃO SOARES NETO: Como é ser nome de uma biblioteca pública bem planejada em sua Sobral?

LUSTOSA DA COSTA: O prefeito Cid Gomes me proporcionou a maior alegria de minha vida ao dar meu nome à biblioteca publica de Sobral. Ele me havia consultado, varias vezes. Um dia desses o bibliofilo José Augusto Bezerra lembrou o que eu esquecera. No restaurante do Salinas (como é o nome daquela churrascaria de luxo do Salinas?) ele me perguntou, mais uma vez, sobre que nome dar à biblioteca. Estava ele a ao almoçar com o filho Rodrigo. Depois, varias meses depois, antes da decisão, ele me fez a mesma interpelação e propus, mais uma vez, o nome do romancista sobralense Cordeiro de Andrade. Nunca pensei merecer tal honraria. O que não vou, hipocritamente, dizer que não queria, não merecia. Não acreditava que chegasse quando ainda pudesse saborear tal homenagem, visitar sempre o prédio da biblioteca e contribuir para seu acervo; Vibrei receber tal homenagem vivo, bolindo, podendo contribuir para formação do acervo da biblioteca, ir lá, todas as vezes que visito Sobral. Se recebesse tal homenagem quando já houvesse virado cinza no crematório, qual a vantagem?

JOÃO SOARES NETO: O que acredita ser a maturidade e o envelhecimento?

LUSTOSA DA COSTA: A maturidade está em atravessar cada estação da vida como se deve, curtindo tudo quando ela pode oferecer para, depois, não ter cobranças a formular, queixas a alimentar. Envelhecer é quando você perde a capacidade de sonhar. Não alimenta mais projetos. Ocupa-se apenas em sobreviver.

JOÃO SOARES NETO: A fé remove a descrença? Qual o livro que levaria consigo para todo o sempre?

LUSTOSA DA COSTA: Leio muito depressa. Não me bastaria um só. Talvez Brás Cubas, Conjurados, de Jorge Luis Borges e peças de teatro de Oscar Wilde.

JOÃO SOARES NETO: Daqui a muitos anos, como gostaria que fosse o seu epitáfio?

LUSTOSA DA COSTA: “Nunca fez sacanagem com ninguém” A frase está correta lexicamente?

JOÃO SOARES NETO: Em que cidade descansaria eternamente?

LUSTOSA DA COSTA: Em nenhuma. Espero ser cremado como já pedi em cartório.

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