JOÃO SOARES NETO ENTREVISTA JOSÉ RAYMUNDO COSTA

José Raymundo Costa é uma das referências do jornalismo cearense. A expressão Self made press-man, que não existe, caberia muito bem a ele. Viveu praticamente toda a sua longa vida profissional no Jornal “O Povo” de Fortaleza. De contínuo a vice-presidente.
Eu era criança de calças curtas quando conheci José Raymundo Costa. Ele e meu falecido pai, Francisco Bezerra de Oliveira, eram amigos e dirigiam o Fortaleza Esporte Clube. Do Costa ouvi que o meu pai havia sido um três melhores presidentes do Fortaleza. Depois, seu filho, o eng. Civil Emanuel Costa, trabalhou alguns anos comigo.Há tempos, recebi uma ligação do “seu Costa” pedindo que ajudasse o nosso “Fortaleza”. Ajudei e conversamos muito .Esses fatos são para dizer que a minha ligação com José Raymundo Costa era antiga, apesar de não termos intimidade. Em 07 de janeiro de 2004, em uma ligação para ele, disse que estava pensando em fazer uma série de entrevistas com gente que contava. Na realidade, o contava tem duplo sentido, seria gente que tinha o que contar e sabia contar o que havia feito.Ficamos de conversar no “O Povo”. Fui lá, em fevereiro, expliquei a idéia e tudo ficou acertado. O resultado está ai, sem tirar, nem por. José Raymundo Costa era direto, conciso, responsável e sério. Esta pode ter sido a última entrevista dele, pois morreu meses após.

JOÃO SOARES NETO: Por que José Raymundo Costa nasceu no Acre?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Minha família foi levada ao Acre pela força da borracha. Assim, eu nasci lá, a 20 de janeiro de 1920.

JOÃO SOARES NETO: E por quais razões a família o trouxe para o Ceará aos 03 anos?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: A borracha perdeu a força do seu valor. Por isso, a família veio de volta, trazendo-me e o irmão José Francisco e a irmã Maria José.

JOÃO SOARES NETO: Como era a cidade de Fortaleza da sua infância e juventude?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Fortaleza era de calçamento nas ruas e postes de gás carbônico.

JOÃO SOARES NETO: Como foram os primeiros estudos?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Estudei com a professora Luizinha Esteves, aulas de poucos alunos, lições quase decoradas. O Liceu do Ceará foi o meu primeiro colégio oficial. Ali ingressei em 1930.

JOÃO SOARES NETO: É verdade que, acompanhando seu pai pelo interior do Ceará, passou a vender títulos de capitalização e resolveu permanecer mais tempo no interior que o previsto? Conte como foi.

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: O meu pai, João Mathias, vendia caderneta da Caixa Popular. As vendas eram de Fortaleza a Parangaba, e eu o acompanhava nas vendas e nas cobranças mensais.

JOÃO SOARES NETO: Quais os primeiros empregos em Fortaleza e as condições de trabalho?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Para bem dizer, meu primeiro trabalho foi na Serraria Amazonas. Pouco tempo. Ia à redação do O POVO apanhar o jornal da tarde. Na Serraria, era uma espécie de faz-tudo, de guardar móveis velhos que os compradores davam como entrada.

JOÃO SOARES NETO: Como foi o encontro com o amigo que mudou a sua vida?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Num bonde de Soares Moreno, encontrei o amigo José Rocha. Conversando, soube que trabalhava o Jornal O POVO, e que ia deixar o emprego.

JOÃO SOARES NETO: Ao chegar no jornal “O Povo” na Rua Senador Pompeu como foi recebido por Demócrito Rocha e Paulo Sarasate? Teve medo?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: O POVO ficava à rua Major Facundo n° 670. Pedi emprego e me responderam que não havia vaga. Retruquei que havia, pois o José Rocha ia para o Amazonas. Confirmado tudo, a resposta foi: o emprego é seu. Não tive medo e sim a coragem de fazer tudo.

JOÃO SOARES NETO: Quais as primeiras tarefas no jornal?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Primeiras tarefas? Receber as folhas do jornal da máquina uma a uma, juntá-las e vendê-las no balcão.

JOÃO SOARES NETO: Daí para frente, o que foi descobrindo e fazendo em “O Povo”?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Nunca pedi trabalho, sempre fui em busca dele.

JOÃO SOARES NETO: Se tivesse que escrever a biografia de Demócrito Rocha, como faria?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Demócrito Rocha sempre foi um homem valente, decidido. Lembro-me de que quando assinou as 100 duplicatas da compra da impressora Man, soltou a caneta sobre a mesa, e brincou: Pronto, morri...
Amava a família, principalmente as filhas Albanisa e Lucinha.

JOÃO SOARES NETO:Paulo Sarasate era melhor como professor, jornalista ou político?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Sarasate, mais político que jornalísta. Foi deputado estadual, federal, senador, governador. E foi professor emérito, tendo fundado, com Filgueiras Lima, o Colégio Lourenço Filho, em 1938. Casado com Albanisa, não teve filhos.

JOÃO SOARES NETO: O que representou D. Albaniza na história do O Povo?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Morrem o pai e o marido, dona Albanisa foi a mulher corajosa e que sabia comandar. Soube conduzir o Jornal com valentia.

JOÃO SOARES NETO: Como conheceu Dna. Djanira e qual a importância dela em sua vida?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Conheci minha esposa Djanira quando ela saía da Igreja Presbiteriana, à rua Sena Madureira com Pedro Borges. Acompanhei-a e sentei-me olhando para ela, no bonde de Soares Moreno, onde morávamos, quase vizinhos. Desceu ela numa parada e eu na seguinte. Olhei para trás e a vi no portão da frente, como a me esperar. Conversamos e começamos... Ela fez a minha vida.

JOÃO SOARES NETO: O que representa a família na sua via? Por que nenhum filho quis ser jornalista?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: A mesma resposta anterior. Os filhos procuraram a Engenharia e lá se formaram e conduziram suas vidas no setor.

JOÃO SOARES NETO: Qual a sua ligação emocional com o Fortaleza Esporte Clube?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: No Fortaleza Esporte Clube eu fui de goleiro a presidente, passando pela tesouraria, secretaria. Posso dizer que comprei a sede primeira e o campo, no Joquei Clube.

JOÃO SOARES NETO: Foi um bom goleiro ou era um “frangueiro”?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Uma palavra só: frangueiro.

JOÃO SOARES NETO: Como conciliava sua atuação de dirigente do Fortaleza e a independência com que O Povo noticiava os fatos esportivos?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Sempre soube separar O POVO do Fortaleza.

JOÃO SOARES NETO: O que acha do futebol cearense dos dias de hoje?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Os jogadores de hoje são mais de fora do que da casa. Os atuais dirigentes não sabem esperar.

JOÃO SOARES NETO: Doeu muito a desclassificação do Fortaleza na primeira divisão do futebol brasileiro no final de 2003?Foi culpa de quem?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Nada me dói. Eu aceito tudo. Se houve erro – e os houve – cabe aos dirigentes a responsabilidade.

JOÃO SOARES NETO: Depois de 50 anos de idade resolveu estudar (jornalismo) o que já sabia; por qual razão?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Eu fazia tudo na redação. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Ceará exigiu o meu afastamento. Não saí e busquei a universidade. Em 1980, me formei.

JOÃO SOARES NETO: Como foi a sua vida acadêmica em meio a alunos que poderiam ser seus filhos?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Todos bons amigos me aceitaram como colega.

JOÃO SOARES NETO: É verdade que foi aprovado em 1o. lugar para ser professor universitário e desistiu?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Realmente. Fui aprovado como professor. Não sabia ensinar.

JOÃO SOARES NETO: A entrada do Diário do Nordeste no jornalismo cearense representou o que?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: O Diário do Nordeste é um bom jornal, ligado a um grupo industrial.

JOÃO SOARES NETO: Como é conviver hoje em um jornal onde quase tudo é informatizado?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Os jornalistas enfrentaram a modernidade da informatização.

JOÃO SOARES NETO: Demócrito Rocha Dummar significa o que para o jornal O Povo?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Demócrito Dummar é um bom dirigente, até mesmo quando ausente comanda a equipe.

JOÃO SOARES NETO: Os filhos de Demócrito estão indo bem nas empresas O Povo?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Todos os filhos do Demócrito Dummar estão no Jornal e vão indo muito bem.

JOÃO SOARES NETO: Quais são as suas leituras preferidas?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Leio pouco, hoje em dia. Acompanho tudo pelos jornais.

JOÃO SOARES NETO: Que viagens fez que considera importantes?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Não gosto de viajar.

JOÃO SOARES NETO: Qual a sua receita para a solidão?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Pensar no que é bom. Mesmo sozinho, acompanhar filhos, netos e bisnetos.

JOÃO SOARES NETO: A velhice pode ser confundida com a perda da esperança?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Tenho 84 anos e não me considero velho. Guio com óculos e sem óculos. Vejo bem.

JOÃO SOARES NETO: Você é um homem de fé?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Acredito em Deus e em nada que os homens inventaram para Nele acreditar.

JOÃO SOARES NETO: Se tivesse que mudar as coisas erradas no Brasil, Ceará e Fortaleza como começaria?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Dar apoio e segurança aos que trabalham.

JOÃO SOARES NETO: Ainda vota com esperança?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Nunca deixei de votar. Luís Carlos Prestes, Brizola e Lula têm o meu voto.

JOÃO SOARES NETO: Quais foram os maiores jornalistas do Ceará nos últimos 50 anos.

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Bons jornalistas: Blanchard Girão, Flávio Ponte e Fenelon de Almeida.

JOÃO SOARES NETO: O que recomendaria a um neto que lhe perguntasse: o que faço da minha vida?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Trabalhe com honestidade.

JOÃO SOARES NETO: Quais amigos carrega no peito ou no baú de suas saudades?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Demócrito Rocha e Paulo Sarasate.

JOÃO SOARES NETO: Como vê a morte?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: O fim de tudo.

JOÃO SOARES NETO: Qual foi o melhor tempo da sua vida?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: Hoje, amanhã e sempre.

JOÃO SOARES NETO: O que é o futuro?

JOSÉ RAYMUNDO COSTA: O futuro é a esperança.

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