JOÃO SOARES NETO ENTREVISTA JUAREZ LEITÃO

Conhecia Juarez Leitão há tempos, mas foi no final da década de oitenta que nos aproximamos na Turma dos Sábados, que ainda funcionava no Country Club. Ele chegou, virou mascote, orador para todas as ocasiões e o maior contador de causos.. Eu já conhecia o vereador, o poeta, o cordelistaprofano, o professor, o orador, mas carecia de saber que ele era e é um grande contador de causos, com detalhes e invencionices que prendem a atenção de todos, especialmente os noviços das rodas em que pontifica.
O maior causo dele foi o livro Sábado, Estação de Viver, em que somos personagem e “co-autor”. Nesse tempo, ele ainda me via com a visão estereotipada de empresário. Depois, além dos sábados, surgiu o Clube do Bode e ele me conheceu mais de perto, entendeu-me como gente e até trocamos confidências. De um tempo a esta parte ele assume sua nova versão: a de biógrafo e o faz com maestria, pois se envolve com a família, colegas e amigos dos biografados.
Por tudo isso é que pedi para ele responder às perguntas que procuram ir desvendando a sua história pessoal. E nas respostas se pode ver, sem retoques, o menino, o seminarista, o jovem rebelde, o universitário, o professor, o político inflamado e, sobretudo, o chefe de família que criou a lenda da sua submissão à Maria, sua mulher, que o conhece melhor que todos nós e, do alto de sua sabedoria, apenas ri..
João Soares Neto,
julho de 2008

JOÃO SOARES: Quem eram seus pais, o que faziam e onde moravam?

JUAREZ LEITÃO: Sou filho de João Fernandes de Oliveira (produtor rural e comerciante e depois Coletor Estadual) e de Maria Soares Cavalcante Leitão (professora primária). Moravam em Novo Oriente , distrito do município de Independência até 1957, quando foi emancipado. Eram proprietários da Fazenda Barro Vermelho, onde nasci.

JOÃO SOARES: Como era ser criança na sua terra?

JUAREZ LEITÃO: Como todos os meninos do campo, tive uma infância livre e de contato direto com a natureza. Banhos de riacho e açude, caçadas, pescarias, passarinhos, baladeiras, piões, gado de osso, cavalo de pau, abelhas, mangas, pitombas, corridas de jumentos, leite mugido, farinhadas, reisados e cantorias.

JOÃO SOARES: O que representa na sua vida o assassinato de seu pai?
Como isso aconteceu?

JUAREZ LEITÃO: Meu pai era o Presidente municipal da UDN (União Democrática Nacional) e foi um dos articuladores da emancipação de Novo Oriente. Durante o Governo de Paulo Sarasate era um chefe político local poderoso, aquele que nomeava da professora ao delegado de polícia. Naturalmente, no exercício de sua hegemonia, fez muitos adversários e alguns inimigos. Era assim, naquele tempo de enfrentamento rude entre udenistas e pessedistas (filiados do PSD – Partido Social Democrático). Quando o candidato da UDN, Virgílio Távora, perdeu a eleição de 1958, meu pai foi apeado do poder. Jurado de morte veio pedir garantias de vida ao Secretário de Polícia e foi por ele tranqüilizado de que não havia perigo. Mas, ao regressar, foi grosseiramente assassinado pelas costas pelo genro do chefe político do PSD. O assassino, da família Aurélio Sampaio, foi o irmão caçula do Sargento Hermínio, herói cearense da Segunda Guerra Mundial e nome de avenida em Fortaleza.

A morte de meu pai me marcou profundamente. Vi-o nos estertores, trazido da cena do crime para a minha casa por populares. Ainda estava vivo e, quando abrimos a porta e ele me viu, bracejou e tentou falar. De sua garganta cortada saiu um jato de sangue que quase me atingia. Não consegui chorar naquele momento, um entalo na garganta, um sufoco no estômago me impediam. Vinte anos depois, já casado e em Fortaleza, justamente num 17 de junho, a data terrível, desatei a chorar enquanto escrevia um poema, e com tal desespero e clamor que assustei a todos de casa. Nesse poema, “Cavaleiro”, há uma estrofe que retrata aquele quadro aterrador da infância:

E me lembro de ti,
cavaleiro de fêmeas e de anseios,
nas noites e nos dias da saudade
que me guardam menino espantado.
O espanto
de teus olhos me agarrando com súplica
e acenando molhados,
Na garganta o grito ensangüentado,
no corpo
as janelas da tragédia
escancaradas para soltar a vida.
E tua vida era rubra.
Eu vi.

JOÃO SOARES: O Padre Leitão, quem era ele? - foi seu guardião, amigo ou tutor?

JUAREZ LEITÃO: O Padre Leitão era meu tio. Com a morte de meu pai, minha mãe mandou-me para a casa de seu irmão, o vigário de Nova Russas.

O Tio-Vigário foi uma ocorrência extremamente benfazeja em minha vida. Homem culto, grande orador, conhecedor da história universal, tinha resposta para tudo e uma capacidade didática especial para repassar o que sabia. Tendo eu certo pendor para a poesia, encaminhou-me para a leitura de grandes poetas e de historiadores. No início, como castigo: toda vez que eu fazia uma traquinagem era punido com leituras das quais tinha de prestar contas no almoço do dia seguinte. Às vezes com platéia, pois convidava as autoridades da cidade para assistir a apresentação. (aprendi a pegar corda nesse tempo). O padre foi meu pai, meu amigo, meu mestre. Muitos anos depois lhe rendi uma homenagem, escrevendo sua biografia. Produzi o livro, “O Cura da Ribeira do Curtume”, em quinze dias. O texto saiu num impulso de emoção. Dorian Sampaio garantia que, para ele, esse é o meu melhor livro. Lustosa da Costa tem opinião semelhante.

JOÃO SOARES: Como foi a sua chegada ao Seminário Diocesano de Sobral?

JUAREZ LEITÃO: Aos 12 anos Padre Leitão colocou-me no Seminário de Sobral (Seminário da Betânia). Ao me informar da decisão me disse: “eu não vou perguntar se você tem vocação para o sacerdócio, porque se disser que não tem ficarei com remorso. Mas sei que estou lhe enviando para um dos melhores colégios do Brasil e espero que você saiba aproveitar esta oportunidade. Tenho uma recomendação básica: distinga o que é essencial do acessório. Invista no permanente e se adapte à disciplina do internato”. Acompanhou-me e enquanto percorríamos as ruas de Sobral rumo ao casarão da Betânia ele repetiu uma frase do romance “O Ateneu” de Raul Pompéia, quando o pai do personagem Sérgio o leva para o velho colégio: aqui, você vai encontrar um mundo!

JOÃO SOARES: O que de relevante aconteceu na sua vida como seminarista?

JUAREZ LEITÃO: O seminário foi uma experiência cultural e humana fundamental em minha vida. Era um ambiente elevado, de formação humanística, onde se tinha oportunidade de apreender, de captar, repassado com a dedicação e a capacidade de grandes mestres, o conhecimento básico das conquistas da inteligência humana. Alguns padres tinham se formado em Roma e traziam aquela bagagem da Universidade Gregoriana. As aulas eram de alto nível. Estudávamos Camões, nos exercícios de análise sintática, desde o primeiro ano. O currículo incluía aulas de grego e latim. Havia boas lições por todo o lado. Aprendíamos, por exemplo, a meditar. No retiro, tínhamos um dia inteiro de silêncio absoluto para a reflexão. Todas as tardes as salas de aula funcionavam somente para a leitura, fiscalizada pelos bedéis. Era o “silêncio”. Entretanto, não era um mosteiro sombrio. Nos finais de tarde e nos domingos e feriados era intensa a recreação. O time de futebol de salão do seminário era respeitado por seu desempenho. Enfrentava os outros times da cidade e até de Fortaleza. À noitinha o convescote era animado. Discutia-se literatura, cinema, política. Contávamos causos, anedotas, histórias de nossas cidades e lugarejos. Eu, que não era do esporte, divertia-me com leituras. Fui encarregado da biblioteca e aí me fartei de livros tendo à disposição um vasto acervo acumulado ao longo dos anos por gerações de reitores desde o tempo de Dom José Tupinambá da Frota. (quando cheguei, em 1960, fazia um ano que o Bispo-Conde de Sobral falecera). Faziam-se concursos de oratória e poesia. Ganhei, certa vez, um concurso de retórica muito concorrido, acho que em 1963. Treinávamos falar de improviso na PASI (Pequena Agremiação Seminarística de Improviso). Foi marcante sobre mim a influência do professor de português, o Padre Oswaldo Chaves, um intelectual completo, que me estimulou a escrever. Ressaltava na sala de aula as minhas redações, o que punha o meu ego nas cumieiras. Passei cinco anos em Sobral, vindo, em seguida, para o Seminário Maior de Fortaleza (Seminário da Prainha). Na Prainha já não usávamos batina e podíamos ver televisão (com horários controlados). A disciplina esmorecia e também toda a estrutura do internato entrava em desuso. A Igreja Católica terminou optando pelo fechamento dos seminários no fim do ano de 1966.

JOÃO SOARES: Quais as razões para a saída? Falta de fé? Sexualidade aflorada? Ideologia?

JUAREZ LEITÃO: Adolescente, descobri que o celibato não era a minha praia. Precisava tomar meu rumo, fazer faculdade, construir uma vida fora daqueles muros. Comunicar que não queria ser padre para o Tio-Vigário não foi difícil. Complicada mesmo foi a conversa com a minha mãe, cujo sonho era me ver celebrando missa e fazendo sermões. Viemos de uma família de padres. Um ancestral nosso, o Padre Brás, ex-seminarista, depois que enviuvou, voltou ao seminário e se ordenou. Da casa de meu avô materno, o Capitão Leônidas Soares Godinho, saíram dois padres; o Padre Teófilo e o Padre Leitão, além dos seminaristas Joaquim e Nenê. Nos meus anos de seminário reprimi os desejos da carne e os impulsos rebeldes em favor do estudo, pois este merecia todos os sacrifícios. Mas um dia achei que não adiantava mais permanecer e então dei o calote na Igreja.

JOÃO SOARES: O que fez logo após a sua saída do Seminário?

JUAREZ LEITÃO: Saí em 1966 e fui para Crateús, onde morava a minha mãe. Convidado pelo bispo, Dom Fragoso, passei a trabalhar no MEB (Movimento de Educação de Base), uma entidade que desenvolvia um trabalho de conscientização comunitária e fundava as famosas CEBS (Comunidades Eclesiais de Base). Em 1967 voltei para Fortaleza para prestar vestibular na Faculdade de Direito. Enquanto cursava a faculdade comecei a dar aulas de história.

JOÃO SOARES: Quando aflorou a veia de professor de História?

JUAREZ LEITÃO: Quando me envolvi com o Movimento Estudantil da capital o Padre cortou minha mesada. Para sobreviver, saí à procura de emprego nos cursinhos. Pretendia dar aulas de português, por tendência natural e porque vinha do seminário. Não encontrei vaga. O que me ofereceram foi história. Quando comuniquei ao Padre Leitão que assumira umas aulas de História, ele não se animou muito e fez uma advertência: “Esta é uma matéria a que não dão importância nas escolas. Procure, portanto, tornar sua cadeira importante. Inove, seja criativo, se destaque como um grande professor. Quero ouvir sua fama aqui em Nova Russas ”. Procurei seguir à risca sua recomendação. Usei a experiência retórica do seminário e as próprias lições do Padre, ele, um grande conhecedor da história universal, e acho que me saí bem na tarefa e valorizei o meu ofício.

JOÃO SOARES:.Qual a influência da História Universal na sua formação?

JUAREZ LEITÃO: A História me favoreceu de várias maneiras. Ajudou-me na literatura, na política, na minha visão de mundo. À determinada altura, abandonei a faculdade de Direito e fui fazer o Curso de História. Minha compreensão da vida alargou-se, como, por exemplo, no conceito de religião. Pela história compreendi que a fé dos outros deve ser respeitada e que o nosso credo não é a verdade única e absoluta, como havia aprendido na infância e na adolescência. Que as raízes culturais explicam os comportamentos e justificam as atitudes. E que somos meros resultados das ocorrências históricas. Vejamos: Se os francos tivessem perdido a Batalha de Poitiers (732), na fronteira da atual Espanha com a França, os árabes teriam ocupado toda a Europa e, como conseqüência, seríamos nós, hoje, muçulmanos na Europa e na América colonizada pelos europeus. Todos nós do Ocidente. Mas como os francos venceram, os árabes ficaram isolados na Península Ibérica e contra eles os cristãos europeus promoveram a chamada “Guerra de Reconquista” que terminou expulsando os invasores sarracenos.

JOÃO SOARES: Que figuras da História da humanidade são as mais relevantes para você? Explique.

JUAREZ LEITÃO: Gosto da História dos que resistem, dos que reagem contra a opressão. A saga dos cartagineses contra o domínio romano é notável. Seu líder, Aníbal Barca, foi um dos mais importantes generais da história, sobretudo porque sua causa era justa. Quando se tem razão se é mais forte na luta. Vejamos o caso dos vietnamitas, baixinhos, magricelas, enfrentando os atletas louros da América do Norte nessa guerra estúpida dos anos 60. Os gringos usaram contra eles os mais avançados artefatos bélicos, com exceção da bomba atômica, e perderam a guerra. No Brasil gosto de Zumbi, fundador do Quilombo de Palmares, o reino negro dos escravos fugidos da opressão dos senhores. No Ceará me atraem os idealistas da Confederação do Equador, principalmente gosto de Tristão Gonçalves e do Padre Mororó.

JOÃO SOARES: Que fatos são mais marcantes na sua primeira fase como professor de cursinho?

JUAREZ LEITÃO: Comecei tentando criar um estilo, alguma coisa que fugisse da banalidade sem sacrifício dos objetivos do currículo. Pus letra em algumas melodias conhecidas sobre os temas da aula, como, por exemplo, “A Transferência da corte portuguesa para o Brasil” na melodia de “A rosa vermelha”, uma canção de Caetano Veloso:
                   Lá vem o Regente
                   Vem de Portugal
                   Fugindo traz a família
                   E toda a corte imperial.

A partir do refrão, que se repetia a cada estrofe, desenvolvia todo o assunto da aula.
Além das canções procurava ser dramático na exposição de cada capítulo e num tom que chamava a atenção das salas vizinhas. Em pouco tempo a notícia de que “tinha um professor doido dando aulas de História aos brados” se espalhou. Passei a ser convidado por outros cursos e colégios e, por assessoria da Maria, minha mulher, a cobrar um preço especial por minhas aulas.

JOÃO SOARES: O que o fez entrar na política? Seu carisma pessoal ou ideologia?

JUAREZ LEITÃO: Desde menino estive ligado à política. Aos dez anos já estava nos comícios levado por meu pai. Quando saí do seminário participei ativamente do Movimento Estudantil. Fui Orador Oficial e Vice-presidente do Centro dos Estudantes Secundários do Ceará. Presidi o IV Congresso dos Estudantes do Ceará e representei o nosso estado em congressos clandestinos da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundários), em plena vigência da ditadura militar. Então, em 1976, estimulado pelos deputados Figueiredo Correia e Paes de Andrade, por um amigo do tempo de seminário (o Valdenor Pinheiro) e por meus alunos, me candidatei a vereador pelo MDB. Fiquei na suplência, mas logo assumi o mandato porque dois vereadores se elegeram para a Assembléia Legislativa. Em 1982 fui reeleito com uma das maiores votações do pleito municipal. Fui líder de meu partido, já transformado em PMDB. Depois , por admiração ao Brizola, filiei-me ao PDT e por esse partido fui Suplente de Senador em 1990.

JOÃO SOARES: Como foi a sua relação com o Movimento de 64?

JUAREZ LEITÃO: Quando morei em Crateús criei um programa na rádio local

 (A Hora do Estudante) e liderei uma “Passeata da Lamparina” reclamando da falta de luz na cidade. Pelas ironias no programa de rádio e pela passeata fui detido no IV Batalhão, sediado ali, por apenas uma noite. Na ocasião, recebi do Coronel Sotero de Menezes a “sugestão” de deixar a cidade o mais breve possível. Como estava no fim do ano e precisava me mudar para Fortaleza, peguei o trem no dia seguinte. Na capital, engajado no Movimento Estudantil, fui certa noite detido quando participava de um pichamento, mas nos liberaram na mesma noite. Em 1968, já na faculdade e dando aula no cursinho, não participava muito das mobilizações por absoluta falta de tempo, o que me salvou da prisão no momento mais duro do regime militar. Na Câmara Municipal sempre tive uma posição de esquerda e, nessa linha, formava um bloco com o Chico Lopes, a Nildes Alencar, o Samuel Braga e o Marcus Fernandes. No primeiro mandato formava com o Barros Pinho a gauche do MDB.

JOÃO SOARES: Quando se deu conta de que era um orador nato?Quais as condições para alguém se tornar orador?

JUAREZ LEITÃO: Não sou esse orador nato. Tenho fracassado em muitas ocasiões onde esperavam de mim melhor desempenho. Você mesmo, com muita franqueza, me diz; “Hoje você não se saiu bem.” Quanto às condições, acho que quem se propõe a falar em público tem que ter algum conteúdo, um certo esteio cultural e a santa consciência de que não pode abusar da paciência alheia. Também é preciso fugir dos chavões e das desculpas de falsa humildade, do tipo “não seria eu o mais qualificado” e de expressões batidas como “subida honra”, “estrada da vida”, “luz no fim do túnel”, “separar o joio do trigo”. Quem melhor definiu os tipos de discursos foi o professor Gomes de Matos. Para ele havia três tipos de oração:

     O discurso BOM-BOM - curto e bem feito
     O discurso BOM-RUIM - bem elaborado, mas longo demais
     e o discurso RUÍM-RUÍM - longo e banal.

JOÃO SOARES: Quem são os três maiores oradores vivos do Ceará?

JUAREZ LEITÃO: É muito difícil este tipo de juízo, sobretudo sobre pessoas vivas. Se fosse citar apenas três cometeria injustiça com muitos outros. Com a morte de Manuel Lima Soares, Dorian Sampaio e Eduardo Campos, perdemos três bons oradores contemporâneos. Mas o Ceará foi berço de grandes tribunos, como Moésia Rolim, Quintino Cunha, Gomes de Matos, Demócrito Rocha (baiano que se fez cearense).

JOÃO SOARES: Dois mandatos de Vereador e a suplência do Senado. Por que não continuou? Por que não tentou a Assembléia Legislativa?

JUAREZ LEITÃO: Bem que tentei. Em 1986 me candidatei a deputado estadual e fui até bem votado na capital, mas não consegui me eleger. Não tinha votos no interior e a minha legenda (no PMDB) era muito alta.

JOÃO SOARES: E a composição de chapa para o Senado. Como isso ocorreu e como é ser suplente sem nunca ter assumido?

JUAREZ LEITÃO: Naquela eleição de 1990 o PDT, partido a que estava filiado, coligou-se com o PSDB levando para a chapa majoritária o Vice-Governador (Lúcio Alcântara) e uma das suplências do Senado. Nunca assumi porque era o segundo suplente. Com a nomeação do senador Beni Veras para o ministério o primeiro suplente assumiu. A minha expectativa de chegar ao Senado, portanto, nunca foi real.

JOÃO SOARES: Se, por acaso, tivesse assumido. Como teria sido o seu discurso de posse?

JUAREZ LEITÃO: Seria, certamente, de defesa do Nordeste. Procuraria provocar a bancada nordestina afirmando que ela sempre teve uma atitude de colonizada diante do Sul e do Leste. Que os nossos representantes costumam trocar os interesses regionais por posições nas mesas das casas parlamentares, como os índios que eram seduzidos pelos espelhos e apitos de seus exploradores.

JOÃO SOARES: A sua amizade com Dorian Sampaio teve a ver com a política?Qual a sua leitura da história política de Dorian Sampaio?

JUAREZ LEITÃO: O Dorian foi outra figura marcante em minha vida. Conhecia-o à distância porque costumava freqüentar as sessões da Assembléia para ouvir os discursos dele, do Chagas Vasconcelos e do Luciano Magalhães. Um dia, em 1968, acompanhava uma passeata de estudantes e o vi no meio da multidão de jovens. Quando os estudantes começaram a repelir a presença daquele político no meio deles, ele, aproveitando o espaço de um comício-relâmpago, falou à turba exaltada. No começo foi vaiado, mas logo dominou os ouvintes e terminou aplaudido, pois defendia as mesmas bandeiras-de-luta da estudantada. Tempos depois, eu estava numa roda boêmia, acho que no Bar do Anísio, contando uns causos, como sempre faço. Ele, na mesa vizinha. Saiu de lá, elogiou o meu humor e disse que gostaria de me apresentar a uns amigos em outras rodas de conversa e bebida. Aproximamo-nos. Eu, eleito vereador pelo seu partido, era convidado para um sarau que ele promovia às sextas-feiras em rua gráfica, na Rua Carlos Câmara. Sendo um político sério e consciente repassava-me conselhos e experiência. Zelava pela minha atuação na Câmara. Tornamo-nos bons amigos e parceiros em produção de textos para campanhas políticas e muitas outras aventuras de civismo e boemia.

O Dorian era um menino para quem a idade não contava. De fulgurante inteligência, usava o seu talento sempre para produzir o bem, ajudar os amigos e viver feliz entre os que queria bem. Um sonhador eterno, era cheio de projetos, alguns muito altos para suas possibilidades econômicas, como aquele do jornal JD, uma de suas santas loucuras. Sua morte, em plena efervescência criadora, deixou-nos praticamente desamparados. Muitas vezes o Lustosa da Costa e eu ao testemunharmos alguma história interessante, uma situação pitoresca, exclamamos, saudosos: “Quem iria gostar disto era o Dorian!” Que falta nos faz seus exageros, suas tiradas, suas mirabolanças.

JOÃO SOARES: O que considera importante nos seus escritos como professor de História?

JUAREZ LEITÃO: Escrevi dez compêndios de História para a Escola Média. São livros didáticos, amarrados aos currículos, uma coisa formal. Meus outros livros sobre costumes sociais são os que prefiro. Neste campo o livro de que mais gosto é o “Sábado, Estação de Viver – Histórias da Boemia Cearense”. É preciso que escrevamos mais (e digo isto aos meus amigos escritores) sobre a história do cotidiano. A história que se passa no meio da rua, nos bares, nas praças, nos prostíbulos. O retrato dos personagens anônimos, dos loucos, dos exóticos, dos desaforados, dos hilariantes ajudam realmente a recompor o mosaico do tempo.

JOÃO SOARES: Um dia, veio a luz, e apareceu Maria, sua mulher. Como isso ocorreu?

JUAREZ LEITÃO: Maria era minha aluna no Curso Gustavo Barroso. Conversava comigo se preocupando com minhas roupas amarfanhadas, meu desleixo, minha aparência de quem vivia longe da família. De fato, eu morava numa república de estudantes no meio de uma bagunça geral. Com o tempo comecei a notar que seu desvelo era especial e ver que precisava ter uma pessoa daquela perto de mim. Conheci-a em 1970, namoramos e nos casamos naquele mesmo ano.

JOÃO SOARES: Qual a sua visão de família?

JUAREZ LEITÃO: Posso dizer que sem a minha família eu seria um ser desestruturado, triste, um homem cinzento. Não teria paz interior e minha depressão seria contínua. Agradeço ao destino ter filhos e netos e vê-los perto de mim me dá a sensação de eternidade. Vi alguns amigos que optaram pela solteirice e por não gerar filhos envelhecerem solitários, amargos e sombrios. A família é o barro úmido com que se esculpe a felicidade.

JOÃO SOARES: Qual o segredo de um casamento longevo?

JUAREZ LEITÃO: O segredos são as adaptações do dia-a-dia. A vida é uma eterna invenção e a convivência requer constantes lances de sobrevivência.

JOÃO SOARES: Como se sente hoje como avô?

JUAREZ LEITÃO: O avô é um pai folgado que tem o melhor dos descendentes sem o trabalho e os percalços da criação. Pega os netos sempre limpos, gárrulos, sem choros ou fraldas sujas e sempre pode conquistá-los com presentes, defesas providenciais e todo tipo de condescendências. Uma beleza.

JOÃO SOARES: Qual foi e quando publicou o seu primeiro livro de poesia?

JUAREZ LEITÃO: Meu primeiro livro de versos foi publicado em 1981, como prêmio de um concurso da Secretaria de Cultura do Estado. Tem um título estranho - “Urubu Rosado” e uns poemas de que hoje me arrependo amargamente. Poucos ali se salvam. Depois, publiquei “Tangenciais” e “Ignis, o Inventário da Paixão”, muito bem acolhidos pela crítica. Tive participações poéticas em várias antologias e fui filiado a alguns grupos de literatura como ‘Revista Porão’, ‘Comboio Literário’, ‘Poesia Plural’...

JOÃO SOARES: O que é ser poeta?

JUAREZ LEITÃO: O poeta é um descobridor de mundos. Seu olhar sobre a vida e as coisas transcende e recria a normalidade. Faz da pedra, da fruta ou da nuvem um brinquedo, um archote, uma sinfonia. Opera sobre a palavra montando, desmontando e remontando o seu sentido. Recebe e distribui o sentimento do mundo.

JOÃO SOARES: Quais são os cinco maiores poetas vivos do Ceará?

JUAREZ LEITÃO: Novamente, lá vem você exigindo nomes de vivos. E as susceptibilidades feridas? Vou citar apenas dois nomes, respeitáveis pela idade e pelo reconhecimento unânime da comunidade literária do Ceará: Artur Eduardo Benevides e Francisco Carvalho. Mas poderia citar outros vinte bons poetas de nossa terra e ainda deixaria mais vinte com raiva de mim.

JOÃO SOARES: Como foi a sua escolha para a Academia Cearense de Letras?

JUAREZ LEITÃO: Quando publiquei “Tangenciais”, em 1987, recebi na minha livraria a visita de Mozart Soriano Aderaldo, que elogiou o livro e me aventou a possibilidade de uma candidatura à Academia. Fiquei regozijado, mas achava remotíssima a possibilidade de ser eleito algum dia. Tempos depois, o poeta Artur Eduardo Benevides também me acenou algumas esperanças, mas mandou-me ter calma e esperar o tempo certo. Um dia, recebi um telefonema do Artur comunicando-me que havia chegado a minha hora. Concorreria à vaga de Cláudio Martins. Mas quando soube que o Dr. Martins Filho lançara a candidatura do Francisco Carvalho telefonei-lhe para anunciar a retirada da minha pretensão e o meu engajamento na campanha do poeta-maior. Ele me agradeceu e prometeu-me que, na próxima vaga, trabalharia pela minha eleição. O destino, tecedor de enredos surpreendentes, quis que eu ocupasse a cadeira de Mozart Soriano Aderaldo, o primeiro que havia me estimulado a pensar na Academia.

JOÃO SOARES: Em que isso modificou a sua produção literária?

JUAREZ LEITÃO: A academia me deu maior consciência da responsabilidade do escritor. E também maior reconhecimento. Nos últimos quinze anos fiz algumas opções literárias, talvez mais práticas, mas não acho que o colar acadêmico as tenha provocado.  

JOÃO SOARES: E a sua vida como empresário-da-farda? (Não. Não aceito que tudo seja obra de D. Maria. Qual a sua real participação nesse mercado que faz da “Juarez Leitão Fardamentos” uma empresa bem sucedida em seu ramo? Você é capital ou trabalho?)

JUAREZ LEITÃO: Mesmo que não acreditem, não tenho nenhuma interferência na empresa, apesar de ser sócio da Maria. Ela cuida de tudo, agora com certa participação de nossa filha Patrícia, formada em administração. A Maria é um dínamo e o trabalho para ela é uma atividade lúdica, um instrumento de felicidade. Trabalha aos sábados e, às vezes, aos domingos. Nessa trajetória de cerca de 35 anos sofremos oscilações de toda ordem. Atualmente a empresa está bem (segundo ela me informa). Eu assino o que tem para assinar, sem ler nada, em confiança cega na sua capacidade de fazer negócios.

JOÃO SOARES: Como você se insere na vida social de Fortaleza?

JUAREZ LEITÃO: Sou pouco assíduo na vida social da cidade. Embora muito bem recebido por todos, freqüento pouco, restringindo-me aos lançamentos de livros, uma ou duas festas anuais e algumas rodas boêmias.

JOÃO SOARES: De repente, você estava na Turma dos Sábados e era bem ouvido. Como isso se deu?

JUAREZ LEITÃO: Fui convidado, certo sábado, pelo poeta Pedro Henrique Saraiva Leão. Compareci e descobri que naquele grupo de boêmios já tinha alguns amigos. Fiz outros imediatamente, dentre eles, o doutor Régis Jucá. Entrosei-me muito bem com todos e tenho grande prazer em conviver ali.  

JOÃO SOARES: E aí surgiu o seu “best-seller”, o seu livro “Sábado, Estação de Viver”. Como você o viu e o vê hoje?

JUAREZ LEITÃO: Considerei o Grupo dos Sábados tão especial que me inclinei a escrever a história daquela roda de amigos. A princípio seria apenas o relato do surgimento e dos episódios marcantes da turma, uma coisa exclusiva e fechada. O Lustosa da Costa sugeriu-me que ampliasse mais o projeto e escrevesse outras histórias de rodas boêmias e costumes da cidade. Peguei a corda e meti-me com afinco na pesquisa. Depois de quatro anos de trabalho duro surgiu o livro, com quase 600 páginas, indiscutivelmente minha obra de maior sucesso.

JOÃO SOARES: Quem é “Juca Bacurim”? Como surgiu?

JUAREZ LEITÃO: O Juca Bacurim é quem assina os versos de cordel e os outros escritos escrachados. Assume, pois, a autoria do que não posso assumir. O pseudônimo, descoberto e identificado, já está no tempo de ser mudado. 

JOÃO SOARES: E o pintor Juarez Leitão continua a existir?

JUAREZ LEITÃO: Inclinação da infância, a pintura me acontece de vez em quando. Houve tempo em que a levei a sério chegando mesmo a fazer um curso de aperfeiçoamento. Pintava de forma livre, quase saindo do figurativo, quando fui desafiado a pintar retratos dos componentes da Turma dos Sábados. Topei a tarefa e peguei gosto, praticando o retratismo por um bom período de tempo. Mas as tintas me dão alergia, mesmo àquelas que têm o rótulo de “não tóxicas”. Aperto a garganta, inflamo os brônquios, fico tossindo o tempo todo. Já me disseram que é psicológico, mas eu acho que são os deuses protetores da arte tentando evitar que pratique mais delitos contra eles. Sempre fui um ‘pintor de domingo’, assumidamente medíocre.

JOÃO SOARES: Lustosa da Costa seria o seu amigo maior nesta fase madura da vida?

JUAREZ LEITÃO: O Lustosa me foi apresentado pelo Dorian Sampaio. É claro que já o conhecia, pois é famoso há muito tempo. Reagiu contra o Dorian dizendo grosseiramente que já tinha os amigos que precisava e apenas pretendia mantê-los. Foi castigado com a minha convivência nessas mais de duas décadas. Tenho-o em grande conta. Admiro o seu talento e caráter. E, também, aquela franqueza que beira o desaforo.

JOÃO SOARES: De que forma eclodiu a sua vertente como biógrafo ou romanceador de histórias pessoais?

JUAREZ LEITÃO: Sempre gostei de biografias. Sou, desde menino, um leitor apaixonado da vida dos outros. Tinha planos antigos de escrever sobre pessoas. A oportunidade surgiu quando diminuí as aulas e passei a ter tempo para pesquisar. Fiz as primeiras biografias e a notícia se espalhou gerando convites e contratos. Praticamente estou vivendo disso. Tenho procurado, quando conto a vida de um personagem, retratar também o tempo em que viveu, o cenário de sua peripécia. Assim, relato também costumes e atitudes da sociedade.

JOÃO SOARES: Quais as biografias – entre as que escreveu - que mais lhe marcaram?

JUAREZ LEITÃO: Deu-me muito prazer escrever a história do Padre Leitão e do poeta Filgueiras Lima, pessoas por quem tenho grande admiração. Entretanto, posso dizer que termino me apaixonando por todos os meus biografados. Envolvo-me tanto que chego a me aproximar das famílias deles e a construir amizades que ultrapassam a relação autor-clientes.

JOÃO SOARES: Qual a participação do Clube do Bode em sua vida? Como acredita que o Clube do Bode será visto na posteridade? Seria uma espécie de Padaria Espiritual rediviva?

JUAREZ LEITÃO: O Clube do Bode é uma das melhores rodas boêmias da cidade. Reúne pessoas muito interessantes, poetas, artistas, contadores de histórias e ouvintes inteligentes e participativos. Praticamente não tem chatos, o que já é um grande benefício. O fato de ter as reuniões registradas pela pena competente do Audifax Rios vai, no futuro, fazer a grande diferença. Ali estão sendo produzidos importantes documentos para a história. Parece uma brincadeira, e é, mas imaginem o que será uma Ata dessas daqui a cem anos!!! Sobre os nossos festivos e etílicos encontros de fim-de-semana ainda se escreverão teses acadêmicas e tratados sociológicos. Como hoje se faz sobre aquela outra brincadeira do século 19, a Padaria Espiritual.

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