JOÃO SOARES NETO ENTREVISTA JOSÉ JÚLIO BARRETO CAVALCANTE

Gente que conta – José Júlio Cavalcante

José Júlio Barreto Cavalcante é uma figura múltipla. Nascido em Iguatu, Ce, foi criado em uma fazenda da família. Ainda jovem, foi eleito vereador, por uma legislatura, em Fortaleza nos final(47) dos anos 40.  Iniciou sua vida como radialista quando trabalhou na Ceará Rádio Clube(PRE-9), na Rádio Iracema, na Rádio Uirapuru e na Rádio Verdes Mares. Foi de locutor a diretor superintendente. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro, teve uma participação muito destacada na atuação das “esquerdas” cearenses, inclusive na campanha “O Petróleo é Nosso”. Ao mesmo tempo, não esqueceu de ser representante comercial e ter um bom relacionamento com as classes política e empresarial cearense, inclusive com Edson Queiroz, de quem foi amigo. Criou bem os seus filhos que hoje são profissionais capazes e independentes. Lúcido, noventão, fala, com clareza, de sua vida, política, da história da radiofonia cearense e diz que Fortaleza hoje é uma “cidade atormentada”.

Feita por João Soares Neto, em julho de 2007, para o projeto “Gente que Conta”, (roteiro individual em que pessoas contam um pouco de suas vidas, contextualizando-as com a história do Ceará).

 

JOÃO SOARES NETO: Como era a sua base familiar?

(Quem eram seus pais, o que faziam e onde moravam. Quando, onde e como você – há alguma peculiaridade - nasceu?).

JOSÉ JÚLIO: Formada de 05 filhos, Adahil, José Julio, Maria, Simone e Aristides, meus pais: Julio Cavalcante, agricultor e criador no município de Iguatu, minha mãe, Julia Barreto Cavalcante, prendas domésticas. Antes do casamento de meu pai, com minha mãe, tive dois irmãos, Maria Cândida e Joaquim, pó parte de pai.

JOÃO SOARES NETO: A partir de seu nascimento, como se deu a sua infância, onde estudou e o que de mais relevante destaca desse tempo?

JOSÉ JÚLIO: Minha Infância foi vivida na sede do município de Iguatu e na fazenda Cedro, de propriedade de meu pai. Guardo de minha infância, gratos momentos como os banhos de açude, as vaquejadas, a debulhada do feijão, durante a noite, ouvindo histórias contadas pelos moradores.

JOÃO SOARES NETO: Quantos irmãos você tinha, quem eram eles e o que fizeram de suas vidas?

JOSÉ JÚLIO: Comigo éramos cinco irmãos, Adahil, Maria, conhecida como Maroca, Simone e Aristides. Adahil fez os primeiros estudos na Escola do Professor Chaves, mais tarde veio a Fortaleza fazer o vestibular para a Faculdade de Direito, onde se formou como Bacharel, foi deputado estadual e deputado federal, cassado em 64 com o golpe militar. Foi candidato ao governo do Estado e apesar de sua forte base popular, perdeu para o Sr. Virgilio Távora, candidato da famosa “União pelo Ceará”, que reunia os principais partidos políticos da época.

JOÃO SOARES NETO: Nesse contexto surge a figura de Adahil Barreto Cavalcante. O que levou Adahil a ser político?

JOSÉ JÚLIO: A sua participação como líder estadual na época do Centro Estudantil cearense, na defesa de suas idéias nacionalistas e o apoio recebido de vários municípios do Estado, entre os quais, Fortaleza e Iguatu, que teve ele como o seu grande defensor e ainda o apoio de outros municípios, como Acopiara, Santana do Cariri e etc.

JOÃO SOARES NETO: Como foram os seus estudos após a infância e onde eles o levaram?

JOSÉ JÚLIO: Estudei inicialmente na escola da professora Yayá Filgueiras, por sinal, mãe do poeta Filgueiras Lima, depois no grupo escolar de Iguatu, vindo para Fortaleza freqüentei o colégio São Luis, dirigido por Menezes Pimentel, ex – governador do Ceará, no Liceu do Ceará conclui meu curso seriado, no Liceu do Ceará. Meu sonho era ser advogado, mas como na época não existia cursos de direito durante a noite e durante o dia trabalhava como funcionário da  Sul América Companhia de Seguros, formei-me como contador pela escola de contabilidade Carlos de Carvalho.

JOÃO SOARES NETO: A propósito de política, sua eleição para a Câmara Municipal de Fortaleza, em  07 de dezembro de 1947, foi um espasmo ou a demonstração de seu engajamento social na história de Fortaleza?

JOSÉ JÚLIO: A minha eleição para vereador de Fortaleza, devo ao fato da minha atuação como locutor da Ceará Rádio Clube e condição de irmão de Adahil, tive ainda forte apoio de forças de esquerda na campanha  “ O Petróleo é nosso ! “

JOÃO SOARES NETO: Como era a Fortaleza de 1947, quais os sonhos que você levava para a Câmara e como, sessenta anos depois, você vê essa história?

JOSÉ JÚLIO: Era uma cidade tranqüila, apesar das agitações políticas da época. Na Câmara Municipal, ao lado de meus companheiros de bancada, lutávamos por um mundo melhor e sempre  em defesa da cidade e da soberania nacional. Tenho a convicção de que se em alguns aspectos a situação da cidade de Fortaleza teve avanços, em compensação existem alguns homens políticos que tentam frustrar os sonhos daqueles que desejam uma cidade melhor.

JOÃO SOARES NETO: Com você, outros jovens foram eleitos (em 47) vereadores, quais os que se destacaram na política?

JOSÉ JÚLIO: A eleição de 47, ainda sob o impactos da 2ª guerra mundial, com a derrota do fascismo no Brasil e no Ceará, essa empolgação foi positiva, permitindo a eleição de vereadores populares. Vale destacar aqui a valiosa contribuição de alguns deles, entre os quais, Américo Barreira, Alísio Mamede, Lauro Brígido Garcia e mesmo discordado de alguns deles, Edval de Melo Távora, Denisard Macedo e Gutember Braun.

JOÃO SOARES NETO: Você era comunista, socialista ou tudo não passava de um arroubo?

JOSÉ JÚLIO: Me filiei ao Partido Comunista Brasileiro, o velho partidão, levado por uma grande figura humana, Isnard Teixeira, medico sanitarista. Me filiei por me parecer na época, o partido que lutava pela defesa da soberania nacional e que simbolizava o conceito de liberdade de uma geração que sonhava com um mundo melhor.

JOÃO SOARES NETO: Você algum dia leu o Manifesto Comunista de Karl Marx?

JOSÉ JÚLIO: Claro que sim, pois foi através dele que passei a entender melhor a evolução da classe operária e sua participação no contexto mundial. Livro proibido na época, o lia escondido e fazia as minhas análises ao lado de outros companheiros da época.

JOÃO SOARES NETO: Como vê a inserção de Luiz Carlos Prestes na história brasileira?

JOSÉ JÚLIO: Como um grande brasileiro, que comandou a Coluna que recebeu o seu nome e percorreu o Brasil inteiro, pregando novos ideais e lutando por um país independente.

JOÃO SOARES NETO: Depois da legislatura municipal iniciada em 48, qual foi o seu destino político?

JOSÉ JÚLIO: Afastado da Câmara municipal e sem condições de exercer qualquer atividade política, prestei atividades comerciais, como representante de algumas fábrica do sul do país.

JOÃO SOARES NETO: Qual a sua visão da Fortaleza de hoje, 2,5 milhões de habitantes, riqueza, classe média e favelas interligadas?

JOSÉ JÚLIO: Uma cidade atormentada com problemas grandes e de difícil soluções, face a “tangida” do interior do Ceará, por melhores espaços na capital cearense.
JOÃO SOARES NETO: A vida política de Adail Barreto, seu irmão, estava atrelada a você ou cada um tinha uma carreira “solo”?

JOSÉ JÚLIO: De inicio tomamos caminhos diferentes. Adahil filiado a Antiga União Democrática Nacional e eu filiando-me ao Partido Comunista que tinha como seu condutor Luiz Carlos Prestes.

JOÃO SOARES NETO: Será que poderá contar a sua versão da não eleição de Adail Barreto para Governador do Ceará? O que aconteceu, quais foram os principais obstáculos?

JOSÉ JÚLIO: Adahil, era o candidato natural da UDN e na época, parecia imbatível, pois tinha, além do apoio do seu partido, o de outras agremiações políticas, o partido socialista, o PTB, o Partido Democrata Cristão.

JOÃO SOARES NETO: Dessa época, a história destaca a figura do prefeito Acrísio Moreira da Rocha, um dentista casado com uma mulher rica e que era tido como representante dos “carroceiros” e dos pobres. Igualmente, logo após, um jovem radialista, aos 28 anos, Paulo Cabral de Araújo, era eleito prefeito de Fortaleza por conta da penetração do rádio e das campanhas ditas sociais que fazia. Como explicar esses fatos isoladamente?

JOSÉ JÚLIO: Acrísio empolgou na época, pelo seu jeito de se apresentar nos comícios em bairros pobres de fortaleza, de camisa de malha, usando uma linguagem acessível ao povão, criando assim um grande carisma popular. Foi um bom prefeito. Em seguida, a eleição de Paulo Cabral que fez uma excelente administração e Fortaleza muito deve ao jovem prefeito que empolgava a cidade quando usava o microfone e foi sem dúvida a maior figura do radio no Ceará, em todos os tempos.
JOÃO SOARES NETO: Você se tornou radialista por vocação, necessidade ou base política?

JOSÉ JÚLIO: Sempre gostei do microfone e meu primeiro concurso para locutor, consegui na ousadia e obtive o segundo lugar, passei a atuar no radio ao lado de João Ramos, José Lima Verde, Mozart Marinho, Elias de Oliveira Filho,   na mesma PRE 9, dirigida pelo jovem Paulo Cabral de Araújo.

JOÃO SOARES NETO: Um dia, jovem e apaixonado, você se casou. Conte essa história, destacando pessoas, datas, encontros, desencontros e as motivações.

JOSÉ JÚLIO: Casei-me pela primeira vez, com Lais Ramalho Barros, desse casamento nasceram os filhos, Rosaly, Anamaria, Laisinha e Julio Neto. Ao participar de uma convenção em São Paulo, depois de visitarmos o nosso filho, Julio Neto, que cursava UNICAMP, quando já voltávamos, Lais teve um enfarte, a levei ao hospital de Campinas, onde faleceu. Com o falecimento de minha primeira esposa, casei-me com Raimunda Pereira Costa, conhecida na família como Mundinha e funcionária da Universidade Federal do Ceará e lotada na Associação dos Professores do Ceará, que tinha como seu presidente Aderbal Freire.

JOÃO SOARES NETO: Desse casamento, surgiram filhos. Como foi criá-los, quais os fundamentos da educação transmitia e o que eles são (profissionalmente) hoje?

JOSÉ JÚLIO: Quatro filhos, Rosaly, Anamaria, Laisinha e Julio Neto, tentei dar a todos eles uma educação compatível com as minhas possibilidades financeiras, Rosaly, formou-se  em geografia, Anamaria,  em medicina, Julio Neto, em ciências da computação pela UNICAMP e Laisinha qua casou-se muito jovem, aos 15 anos,interrompeu seus estudos para cuidar do marido e dos filhos, não tenho dúvida de que seria uma excelente arquiteta, pela capacidade de dar um toque de beleza em tudo que faz.

JOÃO SOARES NETO: Como cada um deles traçou seu projeto pessoal e de que maneira você ajudou ou prejudicou as suas trajetórias profissionais e sentimentais?

JOSÉ JÚLIO: Rosaly, formou-se pela universidade do Ceará, em geografia, é casada com o economista Francisco Carlos de Abreu Moura(Chico Moura). Anamaria é formada em medicina, pela faculdade de medicina do Ceará, foi secretaria de saúde do município e do estado, diretora do hospital Albert Sabim e fundadora da escola de saúde pública do Ceará, hoje é secretaria de saúde do município de Aquiraz, casada com seu colega médico, Frederico Augusto de Lima e Silva. Laisinha foi a única que não concluiu os seus estudos em escolas superiores, pois casou muito cedo, com o Dr. Carlos Henrique Fontenelle Pinheiro. Julio Neto, estudou inicialmente no colégio Santo Inácio e concluiu seus estudos em Campinas no Estado de São Paulo, na UNICAMP, onde se formou em bacharel em ciências da computação e  atualmente é sócio da SB Consultores.

JOÃO SOARES NETO: Passou pela PRE-9, Iracema, Uirapuru,  Verdes Mares etc. Quais foram as funções exercidas, em ordem cronológica?

JOSÉ JÚLIO: Ceará Rádio Clube(PRE 9), como locutor.  Rádio Iracema, como locutor, inicialmente e depois Diretor Superintendente. Na Rádio Uirapuru, fundada por José Pessoa de Araújo, como Diretor Comercial e finalmente Rádio Verdes Mares, como Diretor Comercial e depois Diretor Superintendente.

JOÃO SOARES NETO: De que forma se deu o surgimento da Dragão do Mar? Era para fazer uma rádio nova ou tinha um substrato de tomada do poder pelo PSD?

JOSÉ JÚLIO: Tinha como objetivo principal a necessidade do Partido, o PSD,  ter um veículo de comunicação, Daí terem entregue a missão ao Sr. Moisés Pimentel, conhecido industrial do açúcar e do álcool, assumindo a sua direção, o Coronel Almir Mesquita. Acredito que o seu objetivo principal era fortalecer o partido e a sua base eleitoral em todo o Estado Ceará.

JOÃO SOARES NETO: A Verdes Mares, originária dos Diários Associados, passou ao controle  de políticos udenistas em 1962.Como se deu isso e quais os papéis de Paulo Cabral de Araújo, José Flávio Costa Lima, Jorge(Hildo) Furtado Leite e do então banqueiro(Banco União) José Pontes de Oliveira?

JOSÉ JÚLIO: A Rádio Verdes Mares que o Sr. Paulo Cabral, recebeu como indenização à época que trabalhou nos Diários Associados, como não tinha capital para mantê-la, vendeu parte de suas ações a um grupo do qual fazia parte o Sr. Jorge Furtado Leite e José Flavio costa Lima e que para concretizar a operação contou com o apoio financeiro Dr. José Pontes de Oliveira, então gestor do Banco União.

JOÃO SOARES NETO: E, depois disso, o que levou esse grupo a ceder o controle dessa rádio a Edson Queiroz?

JOSÉ JÚLIO: Como não queriam investir e sem condições de mantê-las, venderam as sua ações ao grupo Edson Queiroz, que não somente investiu, como deu uma guinada na emissora, que passou de maneira positiva a atuar na radiodifusão cearense, já aí, com o apoio da rede globo, dirigida pelo Sr. Roberto Marinho.

JOÃO SOARES NETO: Qual a sua leitura do papel de Edson Queiroz na história recente do Ceará?

JOSÉ JÚLIO: Edson Queiroz, com quem tive o prazer de conviver, teve um papel importante na historia do Ceará, investindo com todo o seu entusiasmo e capacidade criadora no seu Estado sem nunca ter tentado um mandato em campanhas eleitorais, dava o seu apoio  a quem admirava  e tinha  a  convicção do que podiam fazer pelo Ceará.

JOÃO SOARES NETO: Como se deu a sua amizade com Edson Queiroz e o que esse fato repercutiu em sua vida?

JOSÉ JÚLIO: Na época, eu mantinha um escritório de representações e como tinha um bom relacionamento com o Edson, em uma viagem que fiz a São Paulo, obtive através de Adahil, na época Deputado Federal, a representação dos “ Fogões Alfa “. O Edson mandou imediatamente trazer de avião um desses fogões e depois de aprovado pela sua qualidade, passou a adquirir uma grande quantidade. Foram as comissões de vendas desses fogões que me permitiu melhorar minha situação financeira, adquirindo minha primeira residência na Avenida Desembargador Moreira.

JOÃO SOARES NETO: Quais as figuras mais relevantes do seu tempo de rádio? O que dizer, individualizando, de João Dummar, Eduardo Campos, Paulo Cabral,  José Flávio Parente, Almir Macedo de Mesquita, Aécio de Borba, Astrolábio Queiroz e  Edilmar Norões, para ficar somente nesses?

JOSÉ JÚLIO: João Dummar, foi o pioneiro do rádio e quando e quando cheguei à radio, ele já havia passado o seu controle para os Diários Associados. Eduardo Campos, fomos colegas de microfone e quando ele assumiu o comando da radio, eu já não estava mais na emissora. Paulo Cabral, sem dúvida alguma, a maior figura do radio em todos os tempos. Quando assumiu a direção da Radio Verdes Mares, onde tinha 50% das ações, me convidou para dirigir a parte comercial da empresa. Para não cometer injustiças, já fiz referências a Paulo Cabral, citaria também, José Pessoa de Araújo, Flavio, José Parente e Aécio de Borba, que foi um colega na Radio Iracema, excelente executivo, comandou com brilhantismo a Rádio Uirapuru, uma das melhores emissoras de radio da época, onde dava destaque especial ao seu departamento esportivo. Astrolábio Queiroz, além dos meus laços afetivo, pois era  casado com sua irmã,  correspondeu a todas as expectativas, quando Edson Queiroz assumiu o controle da emissora,  Astrolábio, teve todo o apoio e me recordo que quando adoeceu, o Edson pois a   disposição dele os melhores hospitais, inclusive nos Estados Unidos. Minha convivência com Edilmar, foi á época da radio verdes mares e agora na Associação Cearense de Rádio e Televisão – ACERT, excelente companheiro, tranqüilo, não foi por acaso que o grupo Edson Queiroz, o entregou o comando dos seus veículos de comunicação. Ele faz jus a essa confiança.

JOÃO SOARES NETO: O que o rádio significou em sua vida? Que outras atividades exerceu e exerce?

JOSÉ JÚLIO: O Rádio foi muito importante na minha vida, pois sempre sonhei em trabalhar numa emissora de radio. A ele devo sem duvida alguma o meu mandato de vereador de fortaleza, tempos depois consegui atuar e participar na direção dos veículos de comunicação, tais como radio uirapuru, radio Iracema e radio verdes mares, as únicas emissoras onde não trabalhei, foram radio assunção  e dragão do mar, apesar de minha amizade com o Moisés Pimentel. Além de homem de radio, tenho atuação como representante comercial, pois a firma a que pertenço hoje representa algumas fabricas do sul do país.

JOÃO SOARES NETO: Os seus netos ouvem rádio? Am ou Fm?

JOSÉ JÚLIO: Preferem à televisão, que é o maior veículo de comunicação no momento.

JOÃO SOARES NETO: Como você viu a história política do Ceará de 1947 a esta data? Quais foram as maiores figuras, já mortas, da política cearense?

JOSÉ JÚLIO: Foi sem dúvida alguma fase gloriosa, pois os ventos que sopravam da Europa, após à derrota do fascismo, teve reflexos importantes na vida política do país. Não poderia deixar de registrar, inicialmente o meu irmão, Adahil Barreto, Virgílio Távora, Moisés Pimentel, Eretides Martins, José Pontes Neto, José Marinho Vasconcelos, Raimundo Ivan Barros de Oliveira.

JOÃO SOARES NETO: Quem são os maiores políticos atuais do Ceará?

JOSÉ JÚLIO: Ciro Gomes, Tasso Jereissati, Paes de Andrade e Mauro Benevides.

JOÃO SOARES NETO: Você acredita no Ceará ou acha que perdemos o tempo do desenvolvimento?

JOSÉ JÚLIO: Acredito que sim, naturalmente que existem obstáculos para chegarmos aos nossos objetivos, mas a capacidade de seu povo, há de vencer esses obstáculos que se apresente pela frente.

JOÃO SOARES NETO: Você votou em Luizianne? Se votou, está satisfeito ou arrependido?

JOSÉ JÚLIO: Sim, votei. Não estou, pois acredito que apesar dos obstáculos que tem pela frente, ela conseguiria atingir seus objetivos.

JOÃO SOARES NETO: Cid Gomes é uma esperança ou uma realidade?

JOSÉ JÚLIO: Uma realidade e acredito que mantendo as tradições de sua honrada e séria família, muito fará pelo Ceará e seu povo.

JOÃO SOARES NETO: Ciro Gomes está preparado para ser Presidente da República?

JOSÉ JÚLIO: Acredito que sim, já está mais maduro e como conhece a fundo os problemas do país, não tenho dúvidas que saberá conduzir com equilíbrio os destinos do país.

JOÃO SOARES NETO: Adahil Barreto Sobrinho, também seu sobrinho, honra as tradições ideológicas e políticas da família?

JOSÉ JÚLIO: Sim, o seu comportamento como homem público me parece correto, honrando assim, as tradições de dignidade e lealdade da família.

JOÃO SOARES NETO: Por que Ana Maria Cavalcante e Silva, sua filha e médica com forte atuação política, não enfrentou as urnas em busca de mandato popular?

JOSÉ JÚLIO: Porque ela sempre esteve envolvida na sua profissão de médica. Acredito que se tivesse tomado outra direção, jamais conseguiria os seus objetivos de ser médica a serviço da humanidade.

JOÃO SOARES NETO: O que teria sido do Brasil se Lula não tivesse sido eleito em 2002?

JOSÉ JÚLIO: É uma incógnita, deixo esta resposta para aqueles que se dedicam a fundo com os problemas sociais e políticos do país.

JOÃO SOARES NETO: Como Lula foi eleito, o que mudou de concreto na realidade brasileira nestes últimos cinco anos?

JOSÉ JÚLIO: Acredito que alguma coisa mudou, principalmente na vida das classes menos favorecidas. È um homem sério e pelas suas origens, acredito  que muito poderá fazer pelo país.

JOÃO SOARES NETO: Como você vê a corrupção endêmica no cenário político brasileiro? Há solução?

JOSÉ JÚLIO: O problema não é nacional e sim, mundial. Quem lê  os jornais acompanha com pesar a corrupção dominando o país. Acredito que com  a  educação de seu povo e melhorando suas condições de vida, se chegará a esses objetivo.

JOÃO SOARES NETO: O socialismo morreu ou não com a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da URSS?

JOSÉ JÚLIO: Tenho sempre na lembrança uma frase de Molotov, “Todos os caminhos do mundo, levam ao socialismo”. Acho que ele não morreu, apesar de atravessar grandes desgastes, mas um dia ele vencerá.

JOÃO SOARES NETO: O que é a maturidade?

JOSÉ JÚLIO: É aquela fase da vida onde ao enfrentarmos os problemas que surgem no dia a dia, tentamos manter a cabeça fria e solucionar os problemas e isto, não tenho dúvidas, que vamos conseguir ao atingirmos a maturidade, onde os sonhos da juventude vão ficando para trás e passamos a agir com prudência  e seriedade.

JOÃO SOARES NETO: Ser velho é uma decorrência do viver ou é o que?

JOSÉ JÚLIO: As pessoas procuram deixar melhor o corpo, mas nunca as suas idéias. Estou com quase 90 anos, mesmo assim, me sinto jovem e não pretendo parar, lembro uma frase de uma comédia americana: “Do mundo nada se leva, mortalha não tem bolso”, “caixão não tem gaveta”.

JOÃO SOARES NETO: Como encara a morte?

JOSÉ JÚLIO: Com tranqüilidade, tenho a convicção de que vivi intensamente procurando tirar da vida aquilo que ela tem de melhor.

JOÃO SOARES NETO: O que é morrer?

JOSÉ JÚLIO: Eu não posso dizer, nunca morri! Talvez possa dizer em alguma sessão espírita.

JOÃO SOARES NETO: O que você diria a um jovem de hoje?

JOSÉ JÚLIO: Procure ser honesto e nunca procure caminhos escusos para atingir seus objetivos, nunca segure o paletó dos outros para obter vantagens.

JOÃO SOARES NETO: O balanço de sua vida é positivo? Por quais razões?

JOSÉ JÚLIO: Acredito que sim. Constituí família, superei obstáculos que surgiram no caminho e se me perguntassem: “Você agiria da mesma forma, que vem agindo até hoje? ” Diria: “Claro!, não tenho nada a esconder. “

JOÃO SOARES NETO: O amor é delírio de poeta ou ele existe?

JOSÉ JÚLIO: Apesar dos poetas tanto enaltecerem o amor, do ponto de vista daquilo que consideramos amor verdadeiro, acho que ele existe e sempre existirá, apesar de muita coisa está acontecendo para tirar a beleza da vida.

JOÃO SOARES NETO: Deus existe? E se não, como explicar a crença de bilhões de pessoas?

JOSÉ JÚLIO: Sim, ele existe e está presente em cada momento de nossas vidas.

JOÃO SOARES NETO: O que é o futuro?

JOSÉ JÚLIO: Estou quase respondendo com uma frase tão conhecida: “O futuro a Deus pertence”. O que virá pela frente só me resta esperar que tudo corra bem e tenha tranqüilidade e paz nos dias que ainda tenho pela frente.



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