JOĆO SOARES NETO ENTREVISTA LŚCIO ALCĀNTARA

Lúcio Gonçalo de Alcântara é, sem dúvida, o político mais culto do Ceará, na atualidade. Essa condição o torna diferente ao olhar da classe política atual. Ao mesmo tempo em que persegue, com dedicação e aprumo, uma réstia de luz no múltiplo campo partidário brasileiro, dá asas às leituras que o embevecem e conseguem desligá-lo do real. Esta entrevista é produto de mútuo conhecimento pessoal, sem nenhum tipo de aliança política ou existencial.  Ele, independente do que foi, é e será, é o amigo de juventude Lúcio, pois contemporâneos de escola secundária. Suas respostas são frutos de reflexão, amadurecimento e, naturalmente, desencalhe de lembranças e, quiçá, mágoas.
João Soares Neto
Julho de 2008

JOÃO SOARES: Você nasceu em 16 de maio de 1943, em Fortaleza, Ceará. cidade pacata e que viria a ser, nessa época, base americana de apoio à travessia para a África e a Europa. Como foi a sua infância e o que relembra da cidade?

LÚCIO ALCÂNTARA: Infância e adolescência fluíram tranqüilas no bucólico bairro do Alagadiço. Dos sítios e quintais onde escalei árvores para colher frutas cujo saber inesquecível nunca mais encontrei; dos campos de várzea onde dei pernadas fuleiras; dos fícus benjamins com os troncos vestidos de lagartas negras; das quermesses dos santos, Gerardo e Antônio; dos pregões gritados por vendedores montados oferecendo vísceras guardadas em caixões de madeira, “olha o fígado”!; das irradiadoras distantes, rasgando o silêncio da noite com mensagens  de amor; das missas aos domingos, seguidas de visitas às famílias amigas; das idas à praça, como se chamava o centro da cidade, para olhar as vitrines.
Era o tempo de brincar de jogos inocentes, cabiculinha e botão, pular a macaca que punha tão próximos o céu e o inferno. O esconde-esconde, e o “camone boy” (come on, boy) saltado da tela dos faroestes para as ruas do bairro; a calçada, depois da merenda, e do banho, para com o olhar infantil ver a vida passar, sem saber que passava; ensaiar, desajeitado, os primeiros passos de dança ao som do bazar das noites de domingo.
A vida em bando, a formação de uma turma, “os birutas do bairro”, deixava para trás a infância e anunciava a juventude com sua natural excitação.
Aí começa outra história, que vai ficar para depois.

JOÃO SOARES: O fato de ter sido o único filho varão de Maria Dolores e Waldemar de Alcântara foi um privilégio ou um desafio?

LÚCIO ALCÂNTARA: Um privilégio sempre. Um desafio mais tarde. Nascer e viver no seio de uma família organizada e bem constituída é algo muito valioso para a vida de uma pessoa. Não é tudo, mas é um bom começo para uma vida vitoriosa e equilibrada.
O desafio surgiu da necessidade de satisfazer expectativas implícitas no exemplo dos pais. No meu caso, por ter seguido a medicina e a política, como meu pai, havia ao mesmo tempo uma luz e uma sombra em meu caminho. Lidei com a situação com naturalidade e creio tê-la ultrapassado sem problema.

JOÃO SOARES: Como era conviver com irmãs?

LÚCIO ALCÂNTARA: Foi e continua a ser um convívio muito bom. Formamos um quarteto unido e solidário. Nossa amizade nunca sofreu um arranhão. Somos no sentido literal, uma irmandade.

JOÃO SOARES: Como foi a sua inserção na escola?

LÚCIO ALCÂNTARA: Depois de um curto período no Colégio Santa Isabel, fui matriculado em uma pequena escola perto de casa, o Externato Santa Catarina Labouré, da Professora Marieta Saunders, há pouco falecida, a quem sempre recordo com saudade. Depois, no Ginásio Farias Brito, levado pela amizade de meus pais com Ari de Sá Cavalcante, um de seus proprietários. Nunca experimentei dificuldade de adaptação na escola. Nem com os colegas, ou com qualquer professor. Matemática nunca foi o meu forte, daí ter tido necessidade em algum momento de apoio de professor particular. Cheguei a ser “exilado” por um período para a casa dos meus tios Ivete e Clodoaldo, em São Gonçalo , para uma temporada de disciplina gastronômica e aprendizado da taboada sob a tutela da minha tia.

JOÃO SOARES: O que representou na sua formação o Ginásio Farias Brito, instituição privada, dirigido por Ary de Sá Cavalcante e João Ramos de Vasconcelos César, correligionários do seu pai no Partido Social Democrático?

LÚCIO ALCÂNTARA: O Farias Brito foi uma solução natural, fosse pela facilidade de transporte por ônibus, fosse pelas relações de amizade de meus pais com os donos do colégio. Curioso que não tenham tido a preocupação de me matricular em um colégio de religiosos, como era comum procederem à época famílias católicas como a minha.

JOÃO SOARES: Concluído o curso ginasial, vai parar com os costados no Liceu do Ceará. Isso foi choque ou processo de crescimento pessoal?

LÚCIO ALCÂNTARA: Foi uma mudança radical, dado as características da nova escola. Processo de seleção para ingresso, anonimato, novos colegas de diferentes procedências e extratos sociais, impessoalidade dos professores. Já falei, e escrevi mais de uma vez, sobre a importância desta experiência para a minha formação. O Liceu foi uma benção em minha vida. Devo muito, tanto aos mestres como aos meus colegas. Com eles aprendi muito além do que foi ensinado nas aulas ou estava escrito nos livros.

JOÃO SOARES: Vem o vestibular e, seguindo os passos do pai, ingressa na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará em 1961. Vocação ou obediência?

LÚCIO ALCÂNTARA: Meu pai nunca interferiu, pelo menos de modo direto, nas minhas opções. Se o fez, foi de forma tão sutil que não cheguei a perceber. Tanto assim que cogitei de prestar exame para o Colégio Naval, para ingressar na Marinha. A descoberta da miopia me impediu de levar avante a idéia. Obediência paterna não é para este tipo de coisa. O contexto familiar certamente teve influência na minha decisão. Também não estou entre os que desde criança diziam que seriam médicos. A opção deu-se naturalmente. Muito mais tarde, pensando no assunto, conclui que a extensa leitura que fiz das obras de Cronin ajudaram a me encaminhar para a Medicina.

JOÃO SOARES: Em 1968 ingressa como médico no Instituto Nacional de Previdência Social. Como isso se deu e por quanto durou?

LÚCIO ALCÂNTARA: Inicialmente ingressei na Previdência Social, onde fiquei durante um ano. Trabalhava como perito, examinando trabalhadores que pleiteavam licença para tratamento médico. Foi uma experiência que me deu a oportunidade para conhecer de perto os rigores do mundo do trabalho operário. Foi mais um passo na formação de minha consciência social.
Em seguida, depois de muitos anos de pronto o prédio, abria-se o Hospital Geral de Fortaleza, no então distante Papicu. Submeti-me a uma seleção e passei a integrar seu corpo clínico. Lá permaneci, afastando-me para exercer cargos na administração pública, ou mandatos eletivos.

JOÃO SOARES: E aí, médico e com emprego, casa com Maria Beatriz Rosário, da área de letras. Foi a soma do amor com a sua face literária?

LÚCIO ALCÂNTARA: Foi só amor mesmo, e afinidades gerais, sem as quais ele não existe. As literárias viriam mais tarde, e se revelaram importantes.

JOÃO SOARES: No início dos setenta, exato em 1971, assume a Secretaria de Saúde do Ceará? Teve medo por ser tão jovem?

LÚCIO ALCÂNTARA: Medo propriamente, não. Consciência da responsabilidade que me aguardava, sim. Era um jovem médico, com pouca experiência administrativa. Havia fundado e dirigido o Hospital São José, de doenças transmissíveis, e era filho de um político de destaque. Para muitos, a única credencial que possuía para ocupar o cargo. Tinha que aprender fazendo. Era preciso me impor pela competência. A oportunidade me fora dada. Foi um momento de afirmação pessoal. Passei no teste, a demissão, da forma como se deu, foi meu batismo de fogo na política.

JOÃO SOARES: Depois dessa experiência, voltou a ser Secretário, de Saúde e Assuntos Municipais. Esta última pasta era uma espécie iniciação política com o interior do Ceará?

LÚCIO ALCÂNTARA: O retorno à Secretaria de Saúde soou como um reconhecimento ao trabalho que fora interrompido de forma traumática, por razões políticas.
A ida para a Secretaria de Assuntos Municipais decorreu da necessidade de estar mais próximo do meu pai, que tinha a saúde precária e havia assumido o Governo. Era um ano eleitoral, e eu assumi o encargo da articulação política. O momento era delicado. As relações entre Virgílio Távora e Adauto Bezerra eram tensas, e a pressão dos dois grupos políticos sobre o governo eram enormes. Foi preciso equilíbrio e firmeza para administrar este contencioso surdo.

JOÃO SOARES: Prefeito indicado de Fortaleza, em 1979, teve oportunidade de fazer exatamente o quê?

LÚCIO ALCÂNTARA: Os que estudam a história recente de Fortaleza costumam anotar o caráter pioneiro de nossa gestão em vários aspectos. Implantamos um moderno sistema de planejamento integrado, coordenado por um órgão que criei, a SUPLAM (Superintendência de Planejamento do Município), inspirado na experiência de Curitiba.
Mesmo com as restrições políticas que vigiam no período militar abrimos o diálogo com a sociedade e criamos instrumentos de participação popular, como o Fórum Adolfo Herbster, encontro anual que reunia representações de organizações sociais, e repartições dos três níveis de governo, para discutir os problemas da cidade e recolher sugestões, em grande parte adotadas para solucioná-los.
Na mesma linha foram criados conselhos, também com representação da sociedade, para assuntos ambientais e exame prévio de obras geradoras de grande impacto urbano.
Antecipei-me às demandas ecológicas criando parques na cidade e urbanizando o entorno das lagoas.
Foi um período de avanços e realizações, e me orgulho disto.

JOÃO SOARES: Sai da Prefeitura de Fortaleza em 1983. O seu discurso renunciando ao cargo de Prefeito pareceu, à época, o lançamento de sua candidatura à Deputado Federal. Candidata-se e é eleito. Como foi a sua chegada em Brasília aos 40 anos no final da era militar?

LÚCIO ALCÂNTARA: Senti a responsabilidade do mandato popular ao mesmo tempo que tive a necessidade de me adaptar à atividade legislativa. Vivíamos a transição do regime de exceção para o estado de direito e eu me sentia identificado com as demandas políticas da época.
Manifestação de rebeldia viria com o voto, associado ao de outros Deputados dissidentes, que rejeitou pela primeira vez um decreto-lei. O diploma era conhecido como decreto do arrocho salarial.
O momento mais marcante do mandato foi a participação no movimento pelas eleições diretas que culminou com o voto que dei pela aprovação da medida. Foi um teste de resistência à pressões, inclusive a exercida pelo próprio Presidente João Figueiredo em encontro no Palácio do Planalto.

JOÃO SOARES: Depois, em 1987, foi reeleito. O que dizer desses dois mandatos? O que destaca de sua participação na Constituinte de 1988?

LÚCIO ALCÂNTARA: Considero um momento luminoso da minha vida pública a participação na elaboração da nova Constituição. A poucos políticos tem sido dada essa oportunidade. Tido como rebelde pelo líder do PFL, Deputado José Lourenço, fui desterrado para a Comissão de Organização dos Poderes, que não estava entre as mais disputadas. Fez-me, sem querer, um bem. Ali estavam algumas estrelas da Constituinte. Naquela comissão moldou-se o arcabouço do novo estado brasileiro com a minha dedicada participação.
Muitas propostas que apresentei foram acolhidas no todo ou em parte no texto constitucional.
Atento as articulações de bancadas estaduais e grupos de interesses tive atuação destacada na coordenação dos constituintes do norte, nordeste, e centro oeste, que resultou na criação dos fundos constitucionais regionais.
Integrei também o chamado “Grupo do Consenso”, coordenado por Mário Covas e Euclides Scalco, que formulou propostas que superaram impasses em torno de cerca de quatorze temas alvos de grande polêmica. É quase integralmente de minha autoria o texto sobre política urbana aprovado pelos Constituintes.

JOÃO SOARES: Candidata-se à Prefeitura de Fortaleza em 1989 e perde para Maria Luiza. Volta a se candidatar, anos após, e perde para Antônio Cambraia. Qual a razão da insistência?

LÚCIO ALCÂNTARA: Eu havia sido muito bem sucedido como Prefeito. Em 1985, era o nome natural das forças partidárias com as quais eu me encontrava articulado e não poderia recuar de uma indicação naquele sentido.
Apesar do prestígio, não fomos bem sucedidos. Observando o contexto histórico, o fato não se constituiu uma surpresa. Estávamos no ocaso do antigo regime e um grande anseio de mudanças dominava o ambiente político, com uma muito intensa participação popular no processo eleitoral.
Prova disto é que foi eleita a Maria Luíza Fontenele, uma personagem nova na vida institucional, que superou em votos dois nomes com boa penetração popular, o nosso e o de Paes de Andrade, liderança histórica do velho MDB.
Já em 92, o contexto era outro. Eu comandava o PDT no estado. O líder maior do partido, Leonel Brizola, tinha enorme popularidade entre os cearenses e eu liderava todas as pesquisas de opinião para o cargo.
Mais uma vez, não poderia ter recuado de um desejo unânime dos companheiros do partido, e fui para uma eleição difícil. Digo difícil, porque enfrentei com uma modesta estrutura de campanha, duas forças políticas em ascensão: o PSDB de Ciro e o PMDB de Juraci Magalhães, à época bem avaliados em pesquisas de opinião.
Foi eleito o Antonio Cambraia, com um slogan que define tudo sobre aquela eleição: “o candidato do Juraci”.

JOÃO SOARES: Em 10 de dezembro de 1990, morre Waldemar de Alcântara, pai, amigo, chefe político e confidente? Como foi essa perda?

LÚCIO ALCÂNTARA: Eu acabava de ser eleito Vice-Governador, quando ele faleceu. Seu estado de saúde se agravara nos últimos anos, e ele estava afastado da atividade política desde que deixara o Governo do Estado. O abalo que sofri com sua morte foi muito grande, mas do ponto de vista afetivo, emocional. Aquela altura já não contava com ele para me guiar no labirinto traiçoeiro da política. Já me passara há tempos o legado valioso do nome e da experiência. Agora era por minha conta. Alicerces bem construídos com a participação dele, davam-me a segurança para continuar a luta. Vivo, ou morto, foi, e continua a ser, uma referencia fundamental na minha vida. Reservado, me orientou mais pelo exemplo que pela palavra. Lamento a oportunidade desperdiçada de um convívio mais próximo com ele. Às vezes imagino que todo filho pensa assim ao perder o pai.

JOÃO SOARES: Em 1991 é eleito Vice-Governador do Ceará na chapa de Ciro Gomes.Como pessoas de temperamentos tão diferentes puderam conviver na gestão de um Estado?

LÚCIO ALCÂNTARA: Nem sempre foi fácil. O desafio constante era o de ser Vice, sem ser nulo. Durante um ano acumulei o cargo de Vice-Governador com o de Secretário de Saúde, onde desfrutei de liberdade de ação. Fui leal em momentos difíceis, como o da greve dos médicos, que foi longa e desgastante.
Líder das pesquisas de opinião para a Prefeitura de Fortaleza fui indicado pelo meu partido, o PDT, para disputar a eleição. O PSDB não me apoiou, e lançou o Assis Machado. O Ciro me dizia que o candidato dele era eu, mas o Tasso não aceitava. Na campanha sofri ataques violentos dos dois o que me obrigou a reagir à altura. Em meio ao tiroteio, o Cambraia passou incólume.
Após as eleições, com as relações deterioradas, o Ciro viajava sem me passar o governo, como à época dispunha a constituição estadual. Um dia, na ausência dele, entrei no gabinete e governei.
Fui solidário a ele em todas as horas difíceis do governo, inclusive na definição sucessória, quando as relações com o Tasso eram precárias e ajudei a recompô-las.
Em resumo, a convivência teve momentos de tensão, superados em nome do interesse público, evitando-se uma ruptura definitiva.
Nunca pertenci ao núcleo dos íntimos do governador. Fui mais respeitado que amado. Meu comportamento permitiu-lhe apoiar-me para o Senado.

JOÃO SOARES: Estamos em 1991. Quantos partidos haviam passado em sua trajetória política?

LÚCIO ALCÂNTARA: Fui do PDS para o PFL, apoiar a redemocratização do País. Saí dali incomodado com o conservadorismo dominante no partido contra o qual me insurgira na Constituinte, para assumir mais minhas convicções progressistas no PDT.

JOÃO SOARES: Em 1995 é eleito senador e, segundo comentaristas políticos, se destaca na Presidência de Assuntos Econômicos, ao mesmo tempo em que faz doutrinação e cultura na direção do Instituto Teotônio Vilela. Como conciliar o “economista”, o intelectual, o doutrinador e o político que integrava outras comissões?

LÚCIO ALCÂNTARA: Sempre cultivei uma visão mais universal da vida. Atraem-me interesses diversos. Isto se reflete na minha atividade política. Nunca me rendi à tentação da atuação monotemática. Sou um personagem eclético e curioso, característica que se reflete em meu desempenho no Senado. Procuro cultivar simultaneamente o pragmatismo ético, exigido pela boa política, e o idealismo que forma cidadãos e desperta vocações para a vida pública.
Levo a sério as tarefas que me cabem, gosto de trabalhar em equipe e cercar-me de pessoas competentes. Espírito inquieto e inovador, sinto-me sempre tentado a explorar novas áreas do conhecimento.

JOÃO SOARES: A propósito de intelectual, como vê a sua participação na Academia Cearense de Letras?

LÚCIO ALCÂNTARA: Discreta. A política não me deixou tempo para uma maior militância na instituição. O espaço intelectual que consegui preservar do monopólio da política, empreguei-o na atividade editorial em diversas instituições, e na administração da cultura, no legislativo, e no executivo.
Livre de encargos decorrentes de mandatos eletivos, desde 2007, tenho colaborado mais intensamente com a Academia e intensificado a produção literária.

JOÃO SOARES: Leitor contumaz, revela que gosta de livros sobre livros e de romances policiais. Poderia dizer as razões dessas escolhas?

LÚCIO ALCÂNTARA: O livro me fascina por sua importância cultural e também como objeto. Apraz-me manuseá-lo, apreciar seu formato, examinar o projeto gráfico. Por isto gosto de conhecer sua história, evolução, formação de bibliotecas, sua trajetória na sociedade.
As histórias policiais prendem minha atenção. São pontos de fuga das tensões que a vida gera. Aprecio as mais sofisticadas, menos brutais. Aquelas nas quais há um certo glamour na trama, ambientada em universidades, galerias de arte, envolvendo artistas, escritores, professores, políticos, altos executivos de grandes empresas. Mais psicologia, e raciocínio, do que violência. Adoro os personagens que solucionam crimes misteriosos com o cérebro, sem precisar deixar o escritório.

JOÃO SOARES: As tramas policiais se assemelham às políticas?

LÚCIO ALCÂNTARA: De certo modo sim. As vezes há mais ética nas policiais que nas políticas.

JOÃO SOARES: Quais são os seus autores preferidos na literatura universal?
JOÃO SOARES: Quem gosta de ler e reler na literatura brasileira?
JOÃO SOARES: Há o que ler na atual literatura cearense?

LÚCIO ALCÂNTARA: Elaborar listas é algo embaraçoso. No caso de livros e autores a tarefa é mais complexa, sobretudo quando não se estabelece um intervalo de tempo e a separação por gêneros.
A leitura para ser agradável exige bom texto, e um certo contexto. Alguns livros sem prestígio, de autores ignorados, já me proporcionaram enorme prazer. Em contrapartida, de alguns cânones, não fui além das primeiras páginas.
Dizem que depois de certa idade há mais prazer em ler do que em reler. Não é o meu caso. Tenho curiosidade por novos lançamentos e interesse por uma vasta gama de assuntos, o que acaba ocupando todo o tempo disponível. As releituras ocorrem para cumprir objetivos específicos, relacionados a trabalhos que desenvolvo.
Assim, procuro acompanhar a produção atual do Ceará, enquanto releio coisas antigas, necessárias para dar curso à projetos nos quais estou empenhado. Há boas promessas que ainda não se cumpriram totalmente. Do que tem surgido, destaco alguma poesia, e ensaios de origem acadêmica.

JOÃO SOARES: Estamos em 2003. É eleito governador do Ceará. O que pretendia ao se candidatar?

LÚCIO ALCÂNTARA: Governar com senso de justiça e equilíbrio nas ações. Colocar em prática idéias que alimentava há anos. Aprimorar a gestão. Promover o desenvolvimento social. Dar prioridade aos mais pobres. Diminuir o sofrimento das pessoas.

JOÃO SOARES: Como é governar um Estado com baixos índices de desempenho social?

LÚCIO ALCÂNTARA: É angustiante, demandas justas e urgentes esbarram na escassez de recursos agravada por uma certa inércia da administração. Coloquei a política em segundo plano para concentrar esforços na superação da delicada situação das finanças estaduais com o objetivo de viabilizar a execução do plano de governo. Estava obstinado em honrar os compromissos assumidos com o povo durante a campanha. Consegui cumpri-los todos. Isto pode ter me custado a reeleição, mas me confortou o elevado índice de aprovação do meu governo, apurado em pesquisa idônea ao término do mandato.

JOÃO SOARES: O que acredita que a História registrará como suas principais ações no Governo do Ceará?

LÚCIO ALCÂNTARA: Não dá para antecipar o futuro. Não sei que marcas permanecerão inscritas nas páginas do tempo. Registro como destaques a recuperação de uma relação tolerante e democrática com a sociedade; maior investimento em ações sociais, com realce para o combate à pobreza; gestão inovadora, austera, e eficiente; saneamento das finanças estaduais. Entreguei ao meu sucessor um estado em condição muito superior a de quando o recebi. Nada apagará esta verdade.

JOÃO SOARES: Quais as razões que o levaram ao rompimento com Tasso Jereissati?

LÚCIO ALCÂNTARA: O rompimento partiu dele. Contaminado por intrigas urdidas por mentes malévolas, descontrolado, me agrediu de público. Seu procedimento excedeu os limites da política. Ofendeu a mim e minha família.

JOÃO SOARES: Debita a ele a sua não reeleição ao Governo do Ceará?

LÚCIO ALCÂNTARA: Ele se comportou muito mal no episódio. Rachou o partido, deixando as lideranças atônitas e a militância perplexa. Lutei contra todas as forças políticas do estado, um colosso financeiro, e a apropriação do Lula pelo meu opositor. Em resumo, não foi o único responsável, mas contribuiu para o meu insucesso eleitoral.

JOÃO SOARES: Concorda que o Ceará vive de “dinastias” ou  oligarquias políticas ainda neste início do Século XXI?

LÚCIO ALCÂNTARA: O Ceará vive hoje intenso processo de feudalização política. O estado foi capturado por um clã e seus apêndices. Há um apagão democrático que garroteia a oposição na Assembléia e na imprensa. O legislativo demitiu-se do papel de fiscal do governo. Quem não foi cooptado fala, mas não é ouvido.

JOÃO SOARES: O que há de verdadeiro nas notícias publicadas pela mídia nacional em possíveis  nomeações suas  para  cargos no Governo Lula?

LÚCIO ALCÂNTARA: Do Presidente Lula ouvi ter sido eu mais leal e solidário com ele, em momentos difíceis do governo, de que alguns de seus aliados e companheiros.
Ao me despedir dele, ao término do mandato, me disse que gostaria de contar comigo no governo em razão de minha lealdade e competência.
Ouvi, e outros também ouviram de ministros, que o presidente se sentia em débito comigo. Freqüentei o noticiário e as especulações políticas como nome certo para várias posições federais de relevo. A nomeação nunca se concretizou. A dificuldade teria sido o veto do clã Ferreira Gomes. O Deputado Ciro Gomes negou a versão. É tudo que sei sobre o fato.

JOÃO SOARES: Como vê a relação de intelectual com a prática política? Que projetos de escrita acalenta?

LÚCIO ALCÂNTARA: A política é um ambiente enganoso, no qual as relações se estabelecem e desfazem, regidas por uma ética da sobrevivência, avessa à nobreza de valores. A vida intelectual me ajudou a compreender melhor esse universo sem sucumbir de modo absoluto a esses enganos e paixões. Nem assim consegui blindar minha alma conta as lacerações impostas pelo jogo duro da política. A formação intelectual impõe um limite à transigência que a política aceita.

JOÃO SOARES: O que diria sobre a atuação do Deputado Federal Leo Alcântara, seu filho, já em terceiro mandato?

LÚCIO ALCÂNTARA: Tem uma atuação correta. Leva a sério o mandato, sua ação está presente nos municípios que representa. Nunca esteve envolvido nas mazelas do congresso que a imprensa denuncia. Foi vítima de uma sórdida campanha difamatória arquitetada para me atingir e pavimentar caminhos eleitorais. A hombridade com que se comportou revela seu caráter. Identificar as digitais de seus autores foi para mim um grande choque moral. Como todos têm filhos, mais tarde entenderão a gravidade do que fizeram.

JOÃO SOARES: Qual a diferença em ler um romance policial e ouvir as conversas de um correligionário de São Gonçalo?

LÚCIO ALCÂNTARA: Gosto de ambas as coisas. Cada uma tem seu sabor e sua hora.  Meu mimetismo social natural admite gostos díspares.

JOÃO SOARES: Arrepende-se de não ter dedicado mais tempo à prática da Medicina?

LÚCIO ALCÂNTARA: Não. A medicina e o magistério me teriam bastado. Arrebatado pela aventura da política fiz da vida pública instrumento para cuidar das pessoas. É outra forma de minorar as aflições humanas. Medicina e vida pública são atividades excludentes pelo nível de exigência que impõem aos que a praticam. No fundo, nunca deixei de ser médico e professor. Isto transparece na minha atuação no parlamento e no executivo.

JOÃO SOARES: O que é novo na política cearense?

LÚCIO ALCÂNTARA: Sinto falta de verdadeiras vocações políticas. Observo com preocupação uma crescente decadência ética dos políticos. O preço da vitória ficou muito caro. Em dinheiro, e na transgressão moral.
Vejo com tristeza no Ceará a reintrodução recente de práticas políticas anacrônicas, banidas da nossa vida pública há mais de duas décadas.

JOÃO SOARES: Pretende voltar ao Congresso Nacional?

LÚCIO ALCÂNTARA: Por que não? Sou vocacionado para a vida pública, tenho saúde e ânimo para a luta.

JOÃO SOARES: Tantos partidos, como explicar?

LÚCIO ALCÂNTARA: No Brasil poucos políticos com mais de duas décadas de atividade permanecem ao mesmo partido. A fragilidade institucional e programática dos partidos, o mandonismo dos donatários partidários, o hiato democrático do período militar, a reacomodação política pós constituinte, e a legislação permissiva, ajudam a explicar o fenômeno que incide entre nós com grande freqüência.

JOÃO SOARES: Aceitaria um convite para dirigir, por exemplo, uma sucursal brasileira de uma multinacional de medicamentos?

LÚCIO ALCÂNTARA: Não tenho vocação para abridor de portas.

JOÃO SOARES: O que é o trabalho voluntário no Instituto do Câncer?

LÚCIO ALCÂNTARA: Uma forma de ser socialmente útil, colocando minha experiência e conhecimento acumulados a serviço de uma meritória instituição. Acresce ter sido meu pai um de seus fundadores, e seu presidente até falecer. Dou seqüência ao seu trabalho.

JOÃO SOARES: O que significa ir à missa em plena maturidade? Razão ou fé?

LÚCIO ALCÂNTARA: Não concebo a vida sem uma dimensão espiritual. Na Igreja a encontro. Um dos campos de meu interesse atual é o debate sobre fé e ciência, crença e razão. Há muitos livros recentes sobre o tema, e um debate aceso excita cientistas ateus e fundamentalistas religiosos. Um dos mais equilibrados é “A linguagem de Deus”, de Francis S. Collins, diretor do programa Genoma. Nem o gênio de Einstein se desvencilhou da idéia de Deus, que configurava ao seu modo. Foi ele que disse: a ciência sem religião é aleijada, a religião sem ciência é cega. Se a ciência não prova a existência de Deus, mas não consegue nega-la completamente, o mistério permanece, e só a fé pode abrir-lhe as portas.

JOÃO SOARES: Os amigos dizem que você mais ouve que fala. É verdade? Por qual razão?

LÚCIO ALCÂNTARA: Nunca me arrependi por ter ouvido, mas algumas vezes por haver falado.

JOÃO SOARES: Como imagina a sua vida daqui para a frente?

LÚCIO ALCÂNTARA: Continuar atuando em favor de quem precisa. Fazer coisas que me entusiasmam. Alimentar com novas descobertas meu espírito inquieto. Dar asas à ociosidade criativa. Ler, escrever, editar.

JOÃO SOARES: Admite dirigir e dinamizar a Academia Cearense de Letras?

LÚCIO ALCÂNTARA: Não é minha hora. A presidência da Academia Cearense de Letras não é um lugar próprio para políticos em atividade.

JOÃO SOARES: Cite 10 bons autores, de qualquer gênero, brasileiros?

LÚCIO ALCÂNTARA: Érico Veríssimo, Machado de Assis, Jorge Amado, Raquel de Queiroz, Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade, José de Alencar, Fernando Sabino, Afonso Arinos, Graciliano Ramos.

JOÃO SOARES: O que é a morte?

LÚCIO ALCÂNTARA: A morte é o prêmio da eternidade.

JOÃO SOARES: Qual a sua citação preferida?

LÚCIO ALCÂNTARA: Gosto de muitas. Tendo que escolher uma fico com a que figura no meu Ex-libris: “Ne Quid Nimis”, de Terêncio, em “A Moça de Andros”.

JOÃO SOARES: Você canta no banheiro?

LÚCIO ALCÂNTARA: Não. Nem eu suportaria me ouvir cantar.

JOÃO SOARES: Viajante, conhecedor do mundo. Em que lugar moraria se fosse exilado do Ceará?

LÚCIO ALCÂNTARA: Entre o Rio de Janeiro e Lisboa.

JOÃO SOARES: O que é o fim?

LÚCIO ALCÂNTARA: Apenas uma referência a qual nunca se chega. Mesmo a morte, para os que crêem é apenas o início de uma outra vida.

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