JOÃO SOARES NETO ENTREVISTA LÚCIO BRASILEIRO

Conheci Lúcio Brasileiro ou Francisco Newton Quezado Cavalcante no início dos anos 60. Fomos aprovados no mesmo vestibular para direito em 1961. Nesse tempo, Lúcio já era jornalista do Correio do Ceará, e possuía um automóvel Simca amarelo. Morava em um apto. E, depois, na cobertura do Iracema Plaza Hotel, decorada, se a memória não falha, por Arialdo Pinho. Lúcio foi, à época, um grande amigo com quem batia longos papos e fazia viagens de fins de semana para Majorlândia. Fomos a Belém de navio e ao Amapá de avião. Uma vez nos encontramos no aeroporto Pinto Martins e ele me perguntou para onde eu ia. Respondi: Brasília. Ele disse: eu também. Meia-verdade dos dois, eu ia para Brasília, mas de lá ia para os Estados Unidos. Ele também(ia fazer pesquisas sobre Al Capone). Lúcio é a maior referência do colunismo social cearense e, sem dúvida, o mais longevo jornalista de "gossips" de todo o Brasil.
Inteligente, memória privilegiada, bem informado, perfeccionista e cumpridor de suas obrigações, optou por ser um "eremita social" que se permite eleger pessoas, de tempos em tempos, para convívios fortuitos, mas profundos em densidade.
João Soares Neto,
agosto de 2005

JOÃO SOARES NETO - De Aurora para a Praia de Iracema e de lá para a Av. Dom Luiz, como foi o trajeto da família Quezado Cavalcante?

LÚCIO BRASILEIRO - Bem, de Aurora para Fortaleza, ainda hoje não perdôo meu falecido pai por não termos vindo de trem, foi um caminhão de duas boléias, a pretexto de trazer conosco os móveis, me lembro que houve muita chuva pelo caminho e que tinha muita goteira onde pernoitamos. Seu Natalício e dona Nair, meu então único irmão, Nilson, que já partiu, três irmãs e tia Lucila. Fomos morar na Travessa Itapipoca, número 23, casa hoje demolida, mas antes de chegarmos à Dom Luis, ainda teve Antônio Augusto, Gonçalves Ledo e Maria Tomázia.

JOÃO SOARES NETO - Qual seria a biografia afetiva de Natalício Cavalcante?

LÚCIO BRASILEIRO - De nosso pai, um Cavalcanti de Albuquerque de Petrolina, Pernambuco, herdamos uma notável capacidade de convivência, seus filhos quase sempre tendem a ser benquistos pelos circunstantes, somos felizes, talvez porque herdamos dele a qualidade rara de se contentar com seu quinhão e de não ter inveja de ninguém.

JOÃO SOARES NETO - Como era ser o filho mais velho e conviver em uma família numerosa?

LÚCIO BRASILEIRO - Essa foi minha única frustração infantil, pois eu desejaria ter sido filho único, de modo a que fossem para mim exclusivo voltadas todas as atenções. Isso, em parte compensado pelo fato de eu sempre ter sido reconhecidamente o favorito da minha mãe. Não me encabulo de dizer que não sou um cara muito família, sendo mesmo até minha a frase: A família é a ditadura do afeto.

JOÃO SOARES NETO - Que referências você traz de sua vida de estudante interno em Baturité?

LÚCIO BRASILEIRO - Tenho profundo respeito desse meu tempo de internato, pois foi no Ginásio Salesiano Domingos Sávio que peguei toda base do brilhante jornalista que eu seria no futuro. É pena que esse colégio tenha terminado, sendo hoje próprio da Prefeitura. Sempre que passo por lá, a caminho de Guaramiranga, olho pra esquerda e tenho muita saudade. Jamais esquecerei, por exemplo, a sabedoria e a compreensão do nosso diretor, padre Gino, um italiano. Um detalhe a ser revelado é que lá estive duas vezes, em 49, pro exame de admissão, voltando em 51, pro segundo ginasial e não sei como se diz hoje), pois o Primeiro fiz aqui no Cearense.

JOÃO SOARES NETO - Como foi a sua absorção no Colégio Cearense e o que lhe marcou mais na formação imposta pelos irmãos maristas?

LÚCIO BRASILEIRO - Como eu tinha adquirido boa base em Baturité, não foi preciso estudar muito pra me destacar no Colégio Cearense, onde fui sempre dos primeiros, do 1o. Científico, o primeiro, pra satisfação de dona Nair. Minha turma era muito forte, e tinham três impossíveis de derrubar, o Vicente Vieira, que tirava dez em todas as matérias, o Mota Sá, um ex-seminarista que tirava dez em todas, menos uma, e o Pitombeira, que tirava dez em todas, menos em duas. O Vicente chegou a assumir a Prefeitura de Fortaleza no tempo do Fialho. Tão brilhante como modesto, funcionário remido do DNOCS, mora aqui sem aparecer. O Mota Sá já faleceu, e quanto ao Pitombeira, não sei por onde anda. Foram esses três meus colegas exemplares e invejados.

JOÃO SOARES NETO - O que ficou de sua fé religiosa?

LÚCIO BRASILEIRO - Creio em Deus, que é um espírito perfeitíssimo, criador do céu e da terra. Sou um homem de reza diária, sem o que não consigo dormir, e meu sono é muito bom. Sou ardoroso adepto do equilíbrio com que o mundo foi feito, denotando que só um espírito superior poderia tê-lo criado. Por exemplo, uma das grandes benesses, que é o apetite sexual, Deus o deu a todo mundo, a todas as classes, a todas as raças. E quem recebe alguma vantagem mais aparente, paga por ela muito caro. Veja, por exemplo, a infelicidade que persegue as mulheres bonitas. Por isso, é que eu continuo acreditando.

JOÃO SOARES NETO - Você reza todos os dias? Em que situações e quais as motivações?

LÚCIO BRASILEIRO - As motivações para minhas orações são duas, agradecer pelo passado e pedir pelo presente.

JOÃO SOARES NETO - Um dia, sem mais nem menos, resolveu ser jornalista, por quais razões se não existia cursos de jornalismo e sua educação tendia para outro rumo?

LÚCIO BRASILEIRO - Sim, cheguei a fazer vestibular pra Direito, que foi por sinal dos mais brilhantes, tendo obtido nota máxima em Latim e Português, em cujas provas orais teve até platéia e parabéns dos examinadores. Fui ser jornalista porque senti que não tinha vocação pra advogado. Meus pendores eram mesmo para repórter, tanto assim que antes que o Luiz Campos cometesse a irresponsabilidade de me dar uma coluna, eu já tinha escrito sobre futebol para O POVO, e já tinha descrito a festa da Beneficente, na amplificadora de Aurora.

JOÃO SOARES NETO - Lembro que você era um peladeiro e organizava jogos de futebol. Por que resolveu ser um teórico de futebol, sem ir aos estádios?

LÚCIO BRASILEIRO - Eu fui muito aos estádios, ao PV(Presidente Vargas) daqui e ao Maracanã do Rio. Também cobri duas copas, a da Argentina e a da Espanha, última vez que o Brasil jogou futebol que prestasse numa Copa do Mundo. Perdi o gosto pelo futebol porque simplesmente ele acabou, virou repetitivo, perdeu a graça. Os grandes craques são coisas do passado, e até o Pelé, com os sistemas defensivos hoje postos em prática, não teria facilidade em praticar seu virtuosismo. O Brasil ganhou a Copa da Suécia, mas isso nos custou caro, pois aí perdemos duas peças fundamentais na beleza do jogo, o centro-médio e o ponta-esquerda, o primeiro, transformado em zagueiro, o segundo, em meio-campo. Por sinal que os ocupantes dessas posições, no chamado primeiro caneco, não eram craques, era jogadores medíocres, Orlando e Zagalo. Como deu certo, preferiram acabar com essas posições.

JOÃO SOARES NETO - Você vê futebol pela televisão?

LÚCIO BRASILEIRO - Os jogos de hoje não, mas vez por outra, aqui no Cumbuco, aplaino minha solidão vendo os teipes da Copa de 70 no México, para rever Carlos Alberto, Clodoaldo, Jairzinho, Gerson, Tostão, Rivelino, Paulo César, sem falar no Rei. Foi nossa última vitória com classe.

JOÃO SOARES NETO - O que acha do futebol cearense e de seus dirigentes atuais?

LÚCIO BRASILEIRO - Igual a meu tempo, futebol cearense continua sem poder competir nacionalmente, vai até a Bahia e fica por aí. Quero dizer que não temos condições de disputar com Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul. Podemos até obter uma vitória ou outra, sobretudo jogando aqui. Quanto aos dirigentes, seriam bem melhores se fossem mais ricos. De caixa e cuca.

JOÃO SOARES NETO - Quando respondeu ao programa de televisão sobre futebol, você teve alguma ajuda da produção ou a memória funcionou até o final? Quantos programas respondeu, quanto ganhou e o que fez do dinheiro ganho?

LÚCIO BRASILEIRO - O programa O Céu é o Limite, da pioneira TV Ceará, não me derrubou, embora o produtor, o saudoso Hildeberto Torres, tenha exigido o máximo de mim. Mas eu saí porque quis, parte porque quis atender ao professor José Lourenço Mont' Alverne, que me sucedeu respondendo sobre Bethoven, e parte por ter atingido pretensão de quitar quatro prestações de 150 mil atrasadas(de um carro) com o Xara Barroso. Quer dizer, ganhei 600 mil, um cheque da Casa Parente, que foi direto às mãos do meu credor.

JOÃO SOARES NETO - São cinco décadas de jornalismo, incluindo rádio e televisão. O que você diria a um jovem estudante de quinze anos, de boa família, que resolvesse desobedecer aos pais e se meter, sem ser chamado, em uma redação de jornal?

LÚCIO BRASILEIRO - Ler, ler muito, ler todos os clássicos, começando por Machado de Assis.

JOÃO SOARES NETO - Vamos dizer que em cada década de jornal você teve dez amigos preferenciais. Poderia citar os cinqüenta?

LÚCIO BRASILEIRO - Quem tem um amigo, já se dê por feliz.

JOÃO SOARES NETO - Demócrito Dummar ou Eduardo Campos? Explique.

LÚCIO BRASILEIRO - Pelo meu profissionalismo e amor à causa, acho que mereci o Eduardo Campos e que hoje mereço o Demócrito. É que os dois souberam e sabem apreciar meu esforço e meus talentos.

JOÃO SOARES NETO - Por que você defende com tanta veemência os militares de 64 se tinha tantos amigos de esquerda?

LÚCIO BRASILEIRO - Admiro os militares pela brasilidade e honestidade, tanto que, com tantos anos de poder absoluto, não pensaram nem em melhorar seus soldos, mas há gente decente também na esquerda.

JOÃO SOARES NETO - O que acha dos civis que viviam nos quartéis fazendo denúncias a três por quatro?

LÚCIO BRASILEIRO - Abomináveis.

JOÃO SOARES NETO - A morte de Castelo Branco foi um acidente?

LÚCIO BRASILEIRO - Sim, foi um acidente a morte do maior Presidente que o Brasil já teve.

JOÃO SOARES NETO - Por que Virgílio não foi cassado?

LÚCIO BRASILEIRO - Virgílio Távora, que realizava o maior governo que o Ceará teve dede Raul Barbosa, após três administrações opacas, não poderia nunca ter sido cassado. Essa história partiu dos poucos militares, insuflados por civis, mas o vice-governador, Joaquim de Figueiredo Correia, um homem decente, fez ver a eles que se retirassem Virgílio, ele não assumiria.

JOÃO SOARES NETO - Raul Barbosa, Parsifal, Virgílio, Plácido, Adauto e Gonzaga Mota não tiveram herdeiros políticos. Como você explica isso?

LÚCIO BRASILEIRO - Os filhos deles reconheceram que não tinham vocação, e sem vocação, nem jornalista, nem político.

JOÃO SOARES NETO - Tasso é igual ou maior que o Ceará?

LÚCIO BRASILEIRO - Tasso e Virgílio foram nossos maiores governadores de todos os tempos, e tornaram o Ceará Maior.

JOÃO SOARES NETO - Quem é o herdeiro político de Tasso?

LÚCIO BRASILEIRO - Sei que ele tem um filho varão, mal saído dos cueiros, mas se tiver vocação, voto.

JOÃO SOARES NETO - Ciro será presidente do Brasil?

LÚCIO BRASILEIRO - Acho que Ciro, um dos nossos cinco maiores governadores, e quem criou o ótimo primeiro Juraci, se apressou e perdeu o trem. Além do mais, deveria ter voltado ao Governo, como Tasso. Não quis, e deu a idéia de pouca propensão ao sacrifício.

JOÃO SOARES NETO - Caviar, Foi Gras, ostras ou feijão verde?

LÚCIO BRASILEIRO - Por que não feijão verde com caviar?

JOÃO SOARES NETO - Quem são os maiores pintores do Ceará?

LÚCIO BRASILEIRO - Citarei três mortos: Bandeira, Barrica e Raimundo Cela.

JOÃO SOARES NETO - Como foi conhecer a China e olhar as muralhas?

LÚCIO BRASILEIRO - Fiz questão de conhecer a China quando era inda um mistério, pela minha admiração pelo grande Presidente Mao, o Carlos Lacera da esquerda.

JOÃO SOARES NETO - O "Paco" de Ibiza é diferente do Lúcio do Cumbuco e do Francisco dos Cavalcantes?

LÚCIO BRASILEIRO - De todos meus eus, prefiro disparadamente o Paco, não só de Ibiza, mas de todo arquipélago Balear.

JOÃO SOARES NETO - Por quais razões as riquezas do Ceará são tão voláteis?

LÚCIO BRASILEIRO - Porque o empresário pensa que vai chover no ano seguinte, e não se prepara para as vacas magras.

JOÃO SOARES NETO - O que é ser rico?

LÚCIO BRASILEIRO - Ser rico é amar as coisas simples da vida, como eu.

JOÃO SOARES NETO - Se Edson Queiroz estivesse vivo, o que teria mudado?

LÚCIO BRASILEIRO - Edson Queiroz, de quem fui mais admirador que amigo, era um permanente criador. Com ele vivo, talvez, por exemplo, a TV Verdes Mares, pertencente á Rede Globo, não seria tão global assim.

JOÃO SOARES NETO - Você já teve vontade de ter um filho? Por que sim ou por que não?

LÚCIO BRASILEIRO - Entre os privilégios que Deus me deu foi o de não ter filho.

JOÃO SOARES NETO - Qual os papéis das mulheres que passaram por sua vida como amores irresolvidos ou grandes amigas?

LÚCIO BRASILEIRO - Nenhuma foi assim tão importante, tanto que não casei, outra felicidade que Deus me deu.

JOÃO SOARES NETO - O que é morrer? Você vai querer enterro ou ser cremado?

LÚCIO BRASILEIRO - Cremado, pois sem alma corpo não vale nada.

JOÃO SOARES NETO - Se for ser enterrado, quem desejará que segure as seis alças do seu caixão?

LÚCIO BRASILEIRO - Antes da cremação, haverá missa de corpo presente, no Cristo Rei, onde paletó e gravata serão obrigatórios, e amigo que não estiver trajado à altura, por maior que tenha sido, não pegará na alça.

JOÃO SOARES NETO - Al Capone e sua turma fariam sucesso no Brasil de hoje?

LÚCIO BRASILEIRO - Nem lá. Al Capone foi produto da Lei Seca. Foi produto dos anos 20. Um homem amigo dos amigos e um grande coração. Sou fã de carteirinha, e sei tudo da vida dele, quando atrasar de novo as prestações do carro, vou responder na televisão, sobre aquela época memorável.

JOÃO SOARES NETO - Como vai a sua saúde? Cuida do ácido úrico, do coração e dos ossos? De que forma? O que é envelhecer?

LÚCIO BRASILEIRO - Se eu tiver qualquer doença, será injusto, pois me cuido até dormindo.

JOÃO SOARES NETO - Dá para falar do que se passa na política brasileira de hoje?

LÚCIO BRASILEIRO - O Brasil não tem nenhuma chance com o Congresso aberto.

JOÃO SOARES NETO - De tudo o que viu no exterior, quais são, na sua visão, as sete maravilhas do mundo atual?

LÚCIO BRASILEIRO - Sete vezes Ibiza.

JOÃO SOARES NETO - Você guarda mágoas ou o tempo resolve o passado?

LÚCIO BRASILEIRO - Tenho raiva de mim mesmo por não ter raiva, só não consigo esquecer.

JOÃO SOARES NETO - Sua festa-jubileu está a altura do público? E o contrário: o público merece a grandiosidade da festa?

LÚCIO BRASILEIRO - Eu mereço todos os amigos que tenho e que farão o Jubileu, logo, eu mereço o Jubilei extraordinário que vou ter.

JOÃO SOARES NETO - Além de "Casablanca", cite cinco filmes que recomendaria ao
neto preferido do José Macedo?

LÚCIO BRASILEIRO - O terceiro Homem, Rebeca, Golpe de Mestre, Uma Aventura na Martinica e A Carta.

JOÃO SOARES NETO - Que verbete você escreveria sobre você em uma enciclopédia?

LÚCIO BRASILEIRO - Lúcio Brasileiro: Homem fundamental para quem tem inteligência, esportividade e amor à vida.

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