JOĆO SOARES NETO ENTREVISTA MARCELO LINHARES

Nos meus oitenta anos nunca imaginei responder perguntas sobre mim mesmo.
Lembro-me sempre que a um Lorde inglês indagaram como havia chegado tão rápido àquela posição, eis que só tinha cinqüenta anos. A resposta foi: “Falando muito das coisas, pouco das pessoas e nada sobre mim mesmo”.
Vem agora João Soares Neto – na qualidade mais de amigo do que de Cônsul do México - e me formula perguntas que devo responder.
Vejamos o que poderei dizer,


JOĆO SOARES NETO: Marcelo Caracas Linhares é um produto de sua família, um autodidata ou o que?

MARCELO LINHARES: A minha infância foi vivida em Guaramiranga, sozinho. Daí a influência na minha personalidade ser muito de minha família. Por outro lado, creio ser um pouco autodidata eis que tenho a impressão de haver feito o pior curso de direito de um aluno da Faculdade de Direito do Ceará. Parte dele estava no Crato e parte em Quixadá, vindo a Fortaleza fazer as provas. Deu-me muito trabalho recuperar, com novos estudos, o que deixei de fazer durante o curso.

JOĆO SOARES NETO: O Banco do Brasil era a única alternativa ou a mais a mão?

MARCELO LINHARES: Na época em que entrei, o Banco do Brasil era uma das carreiras cobiçadas da mocidade de então. Tendo feito o vestibular na Faculdade o Banco era uma alternativa até me formar. Ocorre que fui transferido para a Agência de Crato e depois para a de Quixadá. Mesmo assim, não me arrependo de haver nele ingressado pois, ainda hoje, é a aposentadoria com que conto. A pensão de ex-parlamentar é tão pouca, apesar de para ela haver contribuído com 10% de tudo o que percebi na Câmara dos Deputados nos 16 anos em que exerci mandatos, eleito pelo povo do meu Ceará, temo que num arroubo de “patriotismo” de parlamentares nos venham tirar o nosso direito.

JOĆO SOARES NETO: D. Irismar foi paixão, amor, disputa ou porto?

MARCELO LINHARES: Se você verificar em todos os livros que escrevi – e são oito até agora sem contar com aqueles de menos de cinqüenta páginas (me pai chamava de folhetos, pois não se mantinham em pé) – os oferecimentos são a ela. Não sei o que teria sido de mim sem a âncora que nela encontrei. Nos momentos de maiores dificuldades, inclusive na vida política, foi ela que me ajudou a delas sair. Deus foi pródigo comigo pondo-a no meu caminho.

JOĆO SOARES NETO: Do Banco para a banca de advogado, como foi a estrada?

MARCELO LINHARES: Nunca do Banco me desliguei. Graças a um cearense chamado Paulino Jaguaribe, então Inspetor do Banco do Brasil, fui indicado para, interinamente, representar a instituição numa falência em Aracati. Lá encontrei uma Portaria que dizia poder ser nomeado advogado efetivo o escriturário que estivesse naquela ocasião exercendo interinamente a função.Era o meu caso. Ocorre que quando requeri ela havia sido cancelada pois cumprira a sua função: efetivar dois filhos de diretores. Mesmo assim, com muita luta, logrei a nomeação para a classe inicial. Fui aposentado, todavia, na última letra da carreira de advogado. Na realidade fui um felizardo.

JOĆO SOARES NETO: A política estava no sangue, foi vaidade, destino ou desejo?

MARCELO LINHARES: São raros aqueles que não desejaram ingressar na política partidária. A minha família sempre fez política no Ceará. Para não falar dos mais antigos, meu pai e meu irmão José foram deputados federais. Meu tio Francisco Linhares Filho – o pai que me criou – foi deputado estadual por alguns mandatos. Um irmão de meu pai, Ministro José Linhares, por dez anos exerceu a Presidência do Supremo Tribunal Federal. Foi, também, Presidente da República, realizando um bom Governo. Leia-se o meu livro “Governo Linhares – Transição para a Democracia”. Convocado pelo Governador Plácido Castelo para exercer a Secretaria de Planejamento do Ceará, encontrei o caminho que o destino me reservara. Quatro anos depois eleito fui para a Câmara dos Deputados onde, por 16 anos, cumpri mandato parlamentar.

JOĆO SOARES NETO: Como surgiu a sua candidatura a Deputado Federal?

MARCELO LINHARES: Dr. Gentil Barreira, uma das grandes figuras que o Ceará produziu, chamou-me um dia e disse-me que o governante que viesse, após o Dr. Plácido, iria apontar defeitos na administração dele e que a maior parte deles seria jogada às minhas costas. Aconselhou-me, então, a começar a aglutinar amigos e fomentar minha candidatura a deputado federal. Muitos foram os que me ajudaram. Três deputados estaduais formaram o núcleo: Julio Rego, Claudino Sales e Manoel de Castro. Os dois primeiros no governo César Cals deixaram-me. Sou grato, até hoje, pela ajuda que me prestaram. Outros, como Cesário Barreto, Marconi Alencar, vieram depois. Todos prestaram uma contribuição inestimável em minha vida pública. Fora o meu casamento, a coisa melhor que fiz na vida foi ser deputado federal.. Preciso dizer nunca haver sido derrotado. Cada eleição obtinha mais votos que a anterior. Não fui eleito após os 16 anos, talvez, por não haver sido candidato. Quem sabe?

JOĆO SOARES NETO: Você era amigo do Virgílio ou fazia parte de sua corte?

MARCELO LINHARES: É preciso lembrar que a avó de Virgílio, minha avó paterna e meu avô materno eram irmãos. Eram os Caracas de Guaramiranga. Apesar disso, tínhamos as nossas “turras”. Foi, sem dúvida alguma, o maior político do Ceará na segunda metade do século XX.

JOĆO SOARES NETO: O livro “Virgílio Távora – Sua Época” parece, para alguns, fugir do seu foco principal e dar realce à “época”. Isto é fato ou fofoca?

MARCELO LINHARES: Muitos criticam o livro sem have-lo lido. Logo no início – página 13 – encontra-se: “Em sua última viagem a Brasília, Luiza Távora, em almoço na Chácara de Glória e Cristiano Goiana, pediu-me que escrevesse sobre Virgílio. Sugeriu-me, de logo, um título para o livro: Virgílio Távora: Sua Época”. Cumpri a promessa feita na ocasião. Infelizmente ela não estava mais entre nós quando da publicação. Ver-se-á de sua leitura a figura de Virgílio está perfeitamente inserida em todos os fatos apontados.

JOĆO SOARES NETO: A Revolução de 64 foi um golpe planejado ou conseqüência das diatribes de Jango?

MARCELO LINHARES: Em livro recém publicado sob o título JANGO, Marcus Villa retrata bem a figura do ex – presidente. A pergunta pode ser respondida com outra: Como um golpe planejado só a undecima hora foi conseguir um chefe? Jango era um homem indeciso. Disse-me um de seus amigos que, pela manhã, ele tinha uma opinião sobre um assunto. Já ao fim da tarde a sua opinião era outra.

JOĆO SOARES NETO: Castello Branco (que teve seu mandato prorrogado) foi ditador, presidente, estadista ou chefe de um período revolucionário?

MARCELO LINHARES: Castello Branco cometeu um grande erro em sua vida pública: foi não ter permitido que o seu mandato fosse prorrogado por um período e sim apenas por uma parte. A todos que me formulam a pergunta, agora repetida, peço e sugiro sempre a leitura de meu livro – GOVERNO CASTELLO BRANCO – Isto é Verdade. Sem dúvida poderão afirmar haver sido ele um dos maiores presidentes que o Brasil já teve. Surpreendeu-me, assim, um livro escrito por uma pessoa, que se diz cearense, atribuindo tantas qualidades negativas ao nosso conterrâneo.

JOĆO SOARES NETO: Os militares falam dos civis que rondavam os quartéis? Você estava em que rol?

MARCELO LINHARES: Eram as “vivandeiras” de que sempre se falaram. Nas forças armadas cheguei apenas a ser soldado no 23o> BC . Depois, já como Deputado Federal, fiz o curso da Escola Superior de Guerra. Excelente experiência. Nunca rondei quartéis.

JOĆO SOARES NETO: Por que seu lado diplomático não lhe deu o passaporte para Adido ou Embaixador?

MARCELO LINHARES: Durante os meus 16 anos de deputado sempre pertenci a Comissão de Relações Exteriores. Talvez não tenha tido um bom “jóquei” para tanto.

JOĆO SOARES NETO: Quem foram os deputados federais de sua época que mais se destacaram por sua capacidade e inteireza de caráter?

MARCELO LINHARES: Todos os parlamentares do meu tampo foram pródigos em inteireza de caráter. Em relação à capacidade, com referência ao Ceará., temos que destacar Flávio Marcílio e Paes de Andrade, ambos havendo exercido a Presidência da Câmara dos Deputados. Tantos foram os demais deputados de outros estados que seria cansativo enumera-los. Destaco, todavia, José Bonifácio e Tancredo Neves, como os mineiros de minha preferência.

JOĆO SOARES NETO: O que representa Lúcio Brasileiro para o Ceará?

MARCELO LINHARES: Considero-me amigo do Lúcio desde os idos de 1955. Talvez seja suspeito, para dar a minha opinião sobre ele. Considero-o uma figura impar no colunismo cearense. Vem retratando a nossa terra em suas transformações sociais nas suas colunas diárias.

JOĆO SOARES NETO: Cite dez figuras importantes na história do Ceará, no século XX e explique as razões de sua escolha.

MARCELO LINHARES: No Ceará foram tantas as figuras importantes em sua história durante o século XX que seria fácil citar cem. Procuro, contudo, ater-me aos dez solicitados e o faço só aqueles que fizeram sua vida pública na nossa terra e não mais estejam entre os vivos. Não enumerarei, assim, Clóvis Beviláqua – o nosso maior mestre do direito –, autor do primeiro Código Civil brasileiro, o Ministro José Linhares e o Marechal Humberto de Alencar Castello Branco, cearenses que foram Presidentes da República. Para responder ao questionamento é preciso adotar critérios. Fixei-me em dois: já serem falecidas e dividi-las em quatro campos.

Religioso ou eclesiástico:
Padre Cícero Romão Baptista;
Dom José Tupinambá da Frota.

Político:
Antônio Pinto Nogueira Accioly;
Francisco de Menezes Pimentel;
Virgílio Fernandes Távora.

Letras:
Barão de Studart;
Antônio Martins Filho.

Empresarial:
Antônio Diogo de Siqueira;
Pedro Philomeno Ferreira Gomes;
Edson Queiroz.

Os nomes escolhidos não necessitam de justificativa.


JOĆO SOARES NETO: O Rotary ajudou a dar sentido à sua vida? Paul Harris queria um clube de amigos ou acertou no que não viu ou viu o que ninguém tinha visto?

MARCELO LINHARES: Ingressei no Rotary Club de Fortaleza em 7 de fevereiro de 1957. Cada dia que estudo Rotary vejo que Paul Harris foi um gênio. Aglutinando amigos abriu um campo vasto para a humanidade. É válido o princípio - Mais se beneficia quem melhor serve.

JOĆO SOARES NETO: A elegância parte da roupa ou a roupa é apenas o pacote que cobre o corpo e mostra a alma?

MARCELO LINHARES: Se alguém não tem uma alma sã não existe roupa que o faça elegante. Não é fácil, entretanto, esquecer a lição daquele General americano, Custer, que os índios acabaram com a sua tropa: - A roupa não faz o homem, mas desfaz.

JOĆO SOARES NETO: A vida social é o que?

MARCELO LINHARES: Na vida social aprimoramos nossos bons costumes e vemos o que devemos levar para a nossa vida familiar. É preciso, contudo, saber onde está o bom e o ruim, para podermos escolher.

JOĆO SOARES NETO: Não ter filhos mexeu com o seu jeito de ser? De que forma?

MARCELO LINHARES: Logo que nos casamos filhos era uma meta. Depois, com o passar dos tempos fomos vendo – Irismar e eu – os dramas que muitos amigos passavam com os seus descendentes. Hoje vemos que Deus, mais uma vez, nos abençoou.

JOĆO SOARES NETO: Que espaço tem a fé na sua vida?

MARCELO LINHARES: Só a fé nos conduz no reto cumprimento do dever. Nunca duvidei, graças a Deus, e minha fé, aos oitenta anos, continua inabalável.

JOĆO SOARES NETO: O que vale mais em um homem?

MARCELO LINHARES: O caráter, a palavra. Um homem, com letra maiúscula, deve ter os dois atributos.

JOĆO SOARES NETO: Qual a diferença básica entre historiador e historiógrafo?

MARCELO LINHARES: Os dicionários consignam historiador àquele que narra ou historia um fato ou acontecimento. Já para historiógrafo aquele que é designado para escrever a história de uma nação, de uma época. Quando me perguntam o que eu sou, respondo ser apenas um contador de histórias.

JOĆO SOARES NETO: Como é a lucidez aos 80 anos?

MARCELO LINHARES: Só há pouco tempo entrei na casa dos oitenta. Por enquanto ainda não estou sentindo qualquer diferença. Peço sempre aos meus amigos para me advertirem quando estiver “derrapando nas curvas”. A lucidez, portanto, só poderá ser atestada pelos que nos cercam. A coragem para trabalhar, para estudar, para ler, ainda é a mesma. Apesar de haver feito curso de leitura dinâmica, só consigo ler no máximo dois livros por semana. É uma pena pois vejo tanta coisa para ler.

JOĆO SOARES NETO: O Ceará é o centro de que?

MARCELO LINHARES: Dizia Virgílio Távora que o “Ceará acha-se o centro do mundo”.

JOĆO SOARES NETO: Se você fosse Fidel Castro ou Lamarca quem iria para o paredón dos presidentes da Revolução?

MARCELO LINHARES: Os dois mandariam todos. Eu não o faria, pois admito haver cada presidente exercido o seu mandato e governado satisfatoriamente, dentro das condições do seu período.

JOĆO SOARES NETO: Você acha que o Brasil ainda tem jeito?

MARCELO LINHARES: E como tem. Nascido na década de vinte, vivi o Brasil de lá para cá sempre melhorando. Apesar de minha idade ainda tenho esperança de ver a nossa Pátria no pedestal da glória.

JOĆO SOARES NETO: O Ceará ainda é atrasado em relação ao sudeste. Culpa de quem?

MARCELO LINHARES: Desde o Brasil colônia os problemas são jogados às costas dos governos. Com relação ao Ceará não se foge à regra. Veja-se, porém, que a situação climática deve ser levada em conta. Falta-nos, todavia, uma infra-estrutura capaz de conduzir o nosso desenvolvimento. O dinheiro, porém, é escasso. Desde o primeiro governo Virgílio Távora e nos que o seguiram avançamos muito. O nosso dia chegará.

JOĆO SOARES NETO: A cidade de Fortaleza cresceu e virou um caos. De quem é a culpa? Existe solução?

MARCELO LINHARES: Ainda era estudante do segundo grau (como se fala hoje) e já se falava num plano diretor para Fortaleza, o Plano Saboya Ribeiro. Vejo, agora, que se volta a falar num novo planejamento para a nossa cidade, sem o que não será viável uma reorganização da nossa urbe. Ai a solução brotará.

JOĆO SOARES NETO: O que acha que Lula fará no tempo que lhe resta? Será reeleito?

MARCELO LINHARES: Contará algumas piadas, comerá alguns churrascos na Granja do Torto e viajará muito, principalmente com o novo avião recém comprado. Ele, como seu antecessor, foi talhado para um governo parlamentarista. Enquanto isto, talvez diminua o maior ministério que o Brasil já teve e os ministros restantes, acredita-se, aprenderão a administrar o Pais. Se tal ocorrer poderá ser reeleito. Urge uma reforma eleitoral visando principalmente os partidos políticos que deverão ter nova feição.

JOĆO SOARES NETO: Se você fosse terrorista, mataria o Bush?

MARCELO LINHARES: Terrorista mata até criancinha. Cada povo tem o governo que merece. Nos não temos o Lula?

JOĆO SOARES NETO: Por que o povo da cidade de São Paulo não sabe escolher prefeitos?

MARCELO LINHARES: A população de São Paulo é muito heterogênea. Grande parte para lá vai a busca de ganhar dinheiro, fazer fortuna. Daí o porque de alguns prefeitos “esquisitos”. Já possuiu grandes administradores. Sempre lembro Antônio Prado que, por dez anos, governou aquela cidade no começo do século passado, dando uma feição nova àquela capital. Ele era irmão de Caio Prado que morreu governando o nosso Ceará.

JOĆO SOARES NETO: Quem deveria ter sido governador do Ceará e não foi? Quem não deveria ter sido e foi?

MARCELO LINHARES: Gostaria de ter visto administrando o nosso Estado o Reitor Martins Filho. Os outros que exerceram fizeram bons governos.

JOĆO SOARES NETO: Como você vê o empresariado cearense?

MARCELO LINHARES: Laborioso e criativo. Resta-lhes preparar a sucessão em suas empresas para não ocorrer à descontinuidade nos negócios. São raras aquelas com mais de cinqüenta anos de vida empresarial.

JOĆO SOARES NETO: As reuniões do Professor Cleber Aquino são estimulantes para você? Por quais razões?

MARCELO LINHARES: O Professor Cleber traz freqüentemente bons palestrantes que estimulam os presentes. Para mim, todavia, os mais das vezes são fora de minha área e aos oitenta anos só podemos comparecer poucas vezes. Para o empresariado cearense considero muito útil. Ele é um abnegado na tarefa que se propôs.

JOĆO SOARES NETO: Dá para ser feliz ganhando um salário mínimo?

MARCELO LINHARES: O homem feliz não usava camisa, diz o dito popular. Deve-se perguntar se é possível sustentar e alimentar uma família com um salário mínimo. O presidente Lula, tendo vivido as duas fases deveria responder. Enfim, o salário deve corresponder às necessidades do trabalhador e as disponibilidades da nação.

JOĆO SOARES NETO: Que músicas ouve quando está só?

MARCELO LINHARES: A música atende ao seu estado de espírito. É possível que a cabeça peça Bach ou um mero Chorinho.

JOĆO SOARES NETO: A aposentadoria é um tempo de dor, gozo, reflexão ou um grande dia do juízo?

MARCELO LINHARES: Quando se tem “o pão” garantido é a melhor época da vida. Pode-se fazer tudo sem que se tenha quem lhe tolha os movimentos. Não diga que sou preguiçoso. Quando muito sou um “folgado”.

JOĆO SOARES NETO: O que representa um nó de gravata bem dado?

MARCELO LINHARES: A habilidade de quem o deu.

JOĆO SOARES NETO: Como era o Ceará de sua juventude?

MARCELO LINHARES: O poeta já dizia que a terra era risonha e franca. Via-se o mundo com outra visão.
Era muito difícil tudo. Morando no Crato, levava-se dois dias de viagem para lá chegar. E ainda achava-se bom pois a geração anterior o tempo gasto era bem maior.. Quando cheguei em Quixadá, para morar, vi a senhora de um industrial da terra morrer por falta de um médico para fazer a injeção do remédio que lhe salvaria a vida. Geraldo Nobre – que durante tantos anos exerceu a presidência do Instituto do Ceará - conta –me que saia do jornal Gazeta de Noticias para a sua casa, a pé, toda a madrugada e nunca foi assaltado. Que bom, não era?

JOĆO SOARES NETO: O que você gostaria de dizer aos que nascerão em 2024?

MARCELO LINHARES: Se vivo for – o que espero – a conversa será uma. Se já estiver no outro mundo pedirei que leiam os meus escritos e lembrem: “o Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”.

Fortaleza, Ceará, 29 de abril de 2004.

 

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