JOÃO SOARES NETO ENTREVISTA UBIRATAN DINIZ DE AGUIAR

UBIRATAN AGUIAR – Gente que conta

 

Sou amigo de Ubiratan Diniz de Aguiar desde os anos 60. Fomos contemporâneos na Faculdade de Direito e tivemos até a oportunidade de trabalhar junto. Ubiratan sempre foi uma pessoa obstinada, consciente de que o mundo só abre a sua porta para quem tem a chave certa, especialmente a do conhecimento ou a da perseverança. Ubiratan forjou, no seu trabalho e atividade política, essa chave dupla. E a vida, ano a ano, foi mostrando novos desafios a serem cumpridos e ele os atingia com prudência, embora com denodo e a certeza de que chegaria mais longe. E chegou. É Ministro do Tribunal de Contas da União.

JOÃO SOARES NETO: A cidade de Cedro, no Ceará, fica a 410 km de Fortaleza, região de Iguatu, semi-árido cearense e o trem apitava na estrada de ferro que a cortava quando você nasceu em 07 de setembro de 1941. Quem eram Araken e Maria, seus pais, como prepararam e saudaram a sua chegada ao mundo?

UBIRATAN AGUIAR: Meus pais vieram das duas principais lideranças políticas do Cedro: Gabriel Diniz e Silveira Aguiar, adversários que o casamento conseguiu aos poucos reconciliá-los. Meu pai foi um autodidata. Ensinou direito aos alunos de Direito. Poeta, seus versos fluíam com a espontaneidade do belo que nem o rigor da métrica e o cuidado com a rima conseguiam sufocar a criação. Servidor público, conseguiu educar seus dez filhos. Minha mãe Maria, carinhosamente chamada de Liquinha, segurava a impetuosidade boêmia do Araken, sendo o ponto de equilíbrio da família. Dela guardamos as lições de carinho, de economia, de prudência e humildade. Em sua sabedoria, ganha na escola da vida, nos ensinou lições como a que nos repassou na juventude: ‘Filho, cuidado com a bebida. Ela tem duas fases: a primeira, quando o homem a domina, e a segunda, quando ela domina o homem. Nunca passe da primeira para a segunda fase’. Outra lição: quando da morte de meu pai, procurei retirá-la do mundo da tristeza, convidando-a para uma viagem. Ela retrucou dizendo que aceitava fazer a viagem, depois que se acostumasse com a ausência de meu pai.
Nasci saudado pelo roncar dos tambores do desfile de 7 de setembro, em plena Segunda Guerra Mundial, às vésperas da calamidade climática de 42.

JOÃO SOARES NETO: Qual a razão do uso de nomes indígenas em sua família, como foram e onde aconteceram os seus primeiros estudos? O que teve de relevante em sua infância?

UBIRATAN AGUIAR: Começou com meu avô Silveira Aguiar, apreciador da Escola Indigenista, da qual guardava estórias e feitos. Adquiriu um livro de nomes indígenas e, a partir daí, nomeou os filhos e estes, seus netos. Minha infância foi vivida em parte na casa de meu avô paterno, assistindo a reuniões políticas e subindo em palanques. De minha avó Zulmira, aprendi as regras de etiqueta da professora que falava fluentemente francês e tocava piano.

JOÃO SOARES NETO: Imagino que um dia a cidade de Cedro ficou pequena e você veio ter em Fortaleza. Como isso se deu e onde realizou os seus estudos secundários?

UBIRATAN AGUIAR: Ao concluir o curso primário no Grupo Escolar Gabriel Diniz (nome de meu avô materno), fui encaminhado para Fortaleza para fazer o Curso de Admissão, vez que em Cedro não havia ginasial. Fui morar na casa de meus tios Moacir e Natércia. Fiz o exame no colégio São João, do saudoso Prof. Odilon Braveza, sendo o terceiro colocado, com média 8.6, suplantado por Mário Antônio Garcia Picanço e Regis Leal Lima Verde. Lá fiz o curso ginasial, donde saí para o Liceu do Ceará, a fim de cursar o clássico, sob a direção da Prof. Bromerges Cysne de Farias Sabia. Desse período, quando com alegria o concurso de redação promovido pelo Prof. Francisco Correia de Araújo é por mim vencido, com o seguinte tema: A energia de Paulo Afonso – fator de desenvolvimento do Ceará. As lutas estudantis no CLEC – Centro Local de Educação e Cultura, de cuja diretoria fiz parte como diretor do Departamento de Cultura.

JOÃO SOARES NETO: Jovem, inquieto, sobrinho de um equilibrado e destacado deputado estadual, bacharel em direito e professor Moacir Aguiar, ouviu dele ensinamentos que foram importantes em sua vida? De que maneira ele o influenciou?

UBIRATAN AGUIAR: Tio, padrinho, compadre, guru, conselheiro, exemplo de ética, lealdade e humanismo. Recolhi de meu tio Moacir ensinamentos que têm sido úteis em minha vida. Seu exemplo de amizade e lealdade à Virgílio Távora tornaram-se conhecidos de nossa gente. Quando, após longa conversa com Virgílio, decidi ingressar no PMDB, uma vez que, no meu entender, o seu partido caminhava no sentido contrário dos anseios populares. Fui falar com meu tio dizendo da compreensão que Virgílio tivera para com o que expus, e afirmando que no ensejo daquela fase da vida, após ocupar os mandatos de deputado federal, senador, governador e ministro, não fazia sentido mudar de partido. Ouviu minhas observações e disse serem pertinentes e que haveria um longo caminho a ser percorrido em defesa de meus ideais e sonhos, prevendo êxitos em minha caminhada. Calado, Moacir a tudo ouviu para ao final dizer: ‘permaneço com Virgílio. Tenho você como filho e aqui, em casa Natércia e meus filhos o acompanharão, mas meu voto para deputado federal será de Carlos Virgílio’.

O saber jurídico, a forma primorosa no escrever, o levavam a elaborar discursos sem nunca aparecer ou buscar os holofotes, por entender que não cabe ao assessor a missão destinada ao líder. Sua humildade era uma referência. Firme nas atitudes, organizado no fazer, em certo momento pediu-me, eu que era seu oficial de gabinete, para telefonar a uma determinada autoridade. Procurei localizar a pessoa e, ao não encontrar o número pedido, a ele retornei perguntando se, por acaso, não saberia o número do telefone solicitado. Disse-me então: ‘se fosse para possuir toda a agenda, seria o oficial de gabinete e, por certo, o senhor o secretário’. A influência foi tão forte que pode ser coincidência o fato de que, havendo sido ele professor, bacharel em Direito, secretário de estado, parlamentar e membro do Tribunal de Contas do Estado, eu também houvesse percorrido os mesmos caminhos.

JOÃO SOARES NETO: E como foram o seu vestibular e o curso de direito em si na época em que o Brasil vivia uma de suas mais turbulentas épocas? Ter sido membro do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua logo após a eclosão do movimento de 64 indicava um posicionamento ideológico seu ou foi mera coincidência?

UBIRATAN AGUIAR: Fiz o vestibular em uma época que havia prova escrita e oral. A prova oral era feita, geralmente, com três examinadores para cada disciplina. Nessa época, além do Português, havia o Latim e mais uma língua. Optei por Francês, talvez por haver herdado uma certa antipatia fruto dos movimentos estudantis, pelos norte americanos. Certo é que sempre fui avesso aos norte americanos e, como tal, ao idioma inglês. Hoje me arrependo de não ter tido a visão de futuro, posto que o inglês é hoje língua universal. Mas optei pelo francês e enxerguei em sua origem identidades e um charme que as outras línguas não possuem.

Cursei Direito na Universidade Federal do Ceará em período que o Brasil vivia uma turbulência. Era a década de 60 – período João Goulart, ligas camponesas, Revolução de 64. Em 1965, fui eleito presidente do Centro Acadêmico, o que foi mera coincidência, já que nunca me situei no campo dos extremismos. Segui uma linha partidária, não no sentido ideológico. Funcionavam muito mais os liames das amizades que havia conquistado, das quais destaco Callou Torres, Joaquim Bezerra e Eufrazino Neto.

Fui vice-presidente e, posteriormente, presidente do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua. Foi uma eleição disputadíssima, concorrendo com Evandro Pedro Pinto – figura brilhante da vida acadêmica. Mas ninguém pode fugir de suas idéias. O homem é ele e seu pensamento, sua idéia. Claro que firmei posições, pautadas numa linha de equilíbrio e ponderação. Não fugi, por outro lado, aos embates e às dificuldades, como participar de reuniões da UNE – a exemplo da que realizou-se em São Paulo, a despeito da perseguição policial aos movimentos estudantis.

Guardo também a lembrança da minha estréia na Congregação da Faculdade. Era um fato, pode-se dizer, pioneiro naquele instante em que os estudantes eram afastados de todos os colegiados. Havia, inclusive, a luta pela extinção dos Diretórios Centrais de Estudantes e dos Centros Acadêmicos. A minha estréia na Congregação da Faculdade de Direito enchia-me de emoção, pois via-me ladeado pelos catedráticos da Faculdade em que, como aluno, tinha como missão defender posições, idéias e pensamentos de meus colegas sobre problemas curriculares, administrativos e de toda natureza.

JOÃO SOARES NETO: Enquanto isso, ensinava Português nos colégios Batista e Sete de Setembro. Eram as suas únicas fontes de renda ou tinha alguma função pública?

UBIRATAN AGUIAR: Na verdade, já casado, eu tinha que buscar outras fontes para complementar minha renda. Eu era professor de segunda até sábado ao meio dia. No sábado a tarde e domingo pela manhã – já que só me restava o domingo a tarde e a noite para o lazer – buscava outras fontes de renda, como corretor de imóveis, vendedor de jóias, professor particular em residências de famílias mais abastadas de nossa Fortaleza e o que mais aparecesse de bico.

JOÃO SOARES NETO: No ano em que concluiu o curso de direito, 1967, você é eleito vereador de Fortaleza. Como foi a sua campanha, quantos votos obteve, e por que um cedrense desejava ser representante político da cidade que o acolhera?

UBIRATAN AGUIAR: Fui eleito vereador de Fortaleza a partir de um convite feito, à época, por um político de visão muito larga em relação às representações classistas, fossem sindicais, fossem estudantis. Refiro-me ao ex-senador, deputado federal e governador, Paulo Sarasate, então proprietário e diretor do jornal O Povo. Ele queria uma chapa composta por estudantes e via em mim uma liderança estudantil. Em princípio, imaginava que eu pudesse ser candidato a deputado federal, representando os estudantes, já que meu tio Moacir, na condição de deputado estadual, ensejaria uma dobradinha, em seu entender, plenamente exitosa. Certo é que, depois de algumas ponderações, resolvi aceitar para ser candidato a vereador.

Formada a chapa, saí candidato a vereador, o Rubens Studart, hoje empresário bem sucedido, candidato a deputado estadual, e o ex-conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios, Germano Almeida, candidato a deputado federal. Com a facilidade de acesso à comunicação, já que o Paulo Sarasate era um homem da área de Comunicação, vi a tarefa facilitada. Além disso, empenhei-me na campanha. Busquei o apoio da minha terra, da colônia Cedrense, da terra de minha mulher, a colônia Ipuense, dos setores estudantis, sem falar do apoio de José Martins Timbó, vereador que terminava o mandato no Ipu e de parte da minha família que exercia a atividade política. Saí peregrinando pelas ruas de Fortaleza em busca do apoio dos colegas de colégio, dos colegas de faculdade, dos companheiros do bairro de Monte Castelo, onde morei. No final, fui bem sucedido: obtive mais de 1200 votos.

Desejava ser representante político de Fortaleza porque, além de ser a capital de meu Estado, já morava lá desde os onze anos de idade, quando fui fazer o curso de Admissão, no colégio São João. Mas não deixei, por isso, de ter as raízes cravadas na minha Cedro, que sempre foi minha paixão, como qualquer berço natal é razão e paixão de qualquer pessoa.

JOÃO SOARES NETO: Como você analisa o seu desempenho como vereador se, após a conclusão desse mandato, oito anos se passaram até que você fosse eleito deputado estadual?

UBIRATAN AGUIAR: É difícil fazer um auto-julgamento acerca do desempenho parlamentar, todavia, digo que me satisfiz. À época, fundei , juntamente com outros colegas, a Associação dos Vereadores do Estado do Ceará, da qual fui o primeiro presidente. Nós convidávamos os vereadores dos municípios e íamos todos em um ônibus para as cidades-pólos de cada região do Estado. Lá, travávamos um amplo debate sobre o papel do vereador. O vereador não é o vereador do sim ou do nãosim quando apóia o governo e não quando está em oposição ao prefeito. O vereador deve ser aquele que decide por sim ou por não de acordo com a sua consciência, com as suas convicções e com o interesse público. Convidávamos também para o debate conferencistas, o que foi muito enriquecedor para mim e para os vereadores de Fortaleza, que detinham maior experiência legislativa e boa formação intelectual. Àquela época, dos 36 vereadores de Fortaleza, 19 tinham diploma de curso superior. Sinceramente, acho que foi um marco na história política do Ceará. Outro marco que considero importante foi o fato de haver sido convidado para ser o Secretário de Administração de Fortaleza, já no último ano de meu mandato. E olha que àquela época, em 1970, não havia chegado aos trinta anos de idade, e já ia ser Secretário de Administração de uma prefeitura de capital. Acredito que esse fato, por si só, é expressão do meu desempenho.

Mas na pergunta também indaga por que, após a conclusão desse mandato, houve um intervalo de oito anos, sem exercer nenhum mandato, até que fosse eleito deputado estadual. Isso se deve a dois fatores: primeiro, uma reação doméstica. Minha mulher viu que a nossa vida havia perdido a privacidade. Eu havia me formado dizendo que ia exercer a profissão de advogado, e desviei a rota mergulhando na política. A atividade não permitia o exercício da atividade profissional e invadia minha vida particular. A gente acordava pela manhã e a casa já estava repleta de eleitores. A nossa mesa do café da manhã não era uma mesa do café da manhã do marido, da mulher e dos filhos; era a mesa de várias pessoas que adentravam a casa, se sentavam na sala, percorriam copa e cozinha. Uma pessoa que nunca exerceu a atividade política, principalmente em regiões mais pobres do país, não faz idéia do que é ser vereador. O vereador é o contato primeiro e direto com a população. Segundo, porque eu havia sido convidado pelo sucessor do prefeito José Walter Cavalcanti, o engenheiro Vicente Fialho, para continuar como Secretário de Administração. No exercício do cargo, manteria o vínculo com a Pública Administração sem envolver-me com o exercício parlamentar. Em meio a tudo isso, houve o rompimento de duas lideranças políticas do Estado: o então governador César Cals de Oliveira Filho com o ex-governador e senador Virgílio Távora.

Toda a minha família era ligada ao governador Virgílio Távora, por laços que vinham da antiga UDN, a União Democrática Nacional. Meu tio, que estava compondo o governo de César Cals por indicação do Virgílio, foi exonerado, juntamente com outros correligionários. Com sua exoneração, entreguei o meu cargo ao então prefeito Vicente Fialho, que retrucava para mim dizendo que não fizesse isso, porque meu gesto iria por mais lenha numa fogueira que crepitava na política do Ceará. Disse que não e que meu intuito não era esse. Meu gesto era de solidariedade com a minha corrente política. Foi neste período que Virgílio me apresentou ao Valder Ary e, em verdade, sugeriu meu nome para ajudá-lo na área empresarial, como advogado. Eis porque oito anos se passaram entre o término de meu mandato de vereador e o meu retorno à política, como deputado estadual.

JOÃO SOARES NETO: Os homens não devem ser sós. E o jovem Ubiratan encontra Terezita, se apaixona e casa. Quando e como tudo isso se deu?

UBIRATAN AGUIAR: Eu a conheci quando tinha 17 anos. Um fato interessante merece registro: dois anos antes de conhecê-la pessoalmente, a avó dela havia ido ao interior a fim de assistir aos seus quinze anos. Quando voltou, visitando meus pais, mostrou-me uma fotografia de Terezita na festa de seus quinze anos. Diante do que via, disse: vou me casar com ela. Tempos depois, passando férias em minha cidade de Cedro, a encontrei. Ela namorava com o irmão da minha namorada. E o que é certo é que nossos caminhos se entrelaçaram. Ao voltarmos de trem para Fortaleza, eu a intimei a acabar o namoro com o José Viana e a ficar comigo. Mal começou o namoro, um mês ou dois depois, para a surpresa da mesma, viajei ao Ipu, cidade onde ela morava e estudava. Dois anos após, já estava casando. Estava com 19 anos, professor do Colégio Sete de Setembro, professor de cursinho, cursando o segundo ano da faculdade de Direto. À época, julgava-me dono do mundo. Quando cai na realidade, fui constatar que dinheiro de professor não dá para sustentar família. Então, dediquei as tardes de sábado e os domingos pela manhã a outras atividades, como a de corretor de imóveis, vendendo as terras do loteamento da praia de Icaraí para o conde Francisco de Moraes, ou ganhando comissão como revendedor de jóias que me eram passadas por um quase conterrâneo, Luis Luciano, filho de Varzea Alegre. Com essas rendas complementava meu orçamento familiar.

JOÃO SOARES NETO: Qual o segredo dessa relação varar o tempo?

UBIRATAN AGUIAR: Em um casamento, encontramos duas pessoas que vêm de origens distintas, formações diversas, pensamentos diferentes e que resolvem formar um lar. Não é com um ou dois anos que se alteram os muitos anos de formação que cada um recebeu em sua casa. Porém uma coisa tem que ficar muito presente: o sentido da renúncia, da cumplicidade, de entender que ninguém casa somente com virtuosos. Todos nós temos virtudes e defeitos. Ou você tem a capacidade de perdoar os defeitos e enaltecer as virtudes ou não será feliz. Outra coisa é que o trabalho absorve muito a vida da gente. Dois terços do meu tempo talvez fossem vividos fora de casa, trabalhando. O tempo para levar minhas surras ficava reduzido a um terço, no período da noite, momento de conciliação. E olha que não estou falando da surra literalmente, embora a palavra às vezes doa mais que o chicote.

Sempre possui um temperamento mais extrovertido e, certa vez, lembro-me: estávamos em uma fase melhor, pois já possuíamos um carrinho – antes, viagem só de ônibus e a diversão era assistir um filme, no Diogo ou no Cine São Luiz, olhar as vitrines das lojas, fazer um lanche e voltar para casa, porque o dinheiro não dava para mais do que isso – mas retorno após o aposto ao dia em que ia no carro e Terezita começa a reclamar de uma coisa e de outra, e a falar e a falar, e eu me punha a cantarolar. Ela se exasperou e disse: ‘É tão culpado que não responde, fica é cantando!’. Ocorre que se aceitar a provocação, seria mais discussão que não levaria a lugar nenhum.

Bom, acho que o segredo da relação resulta muito de compreensão mútua. A soma do certo depende de manter viva a chama do amor. O amor não é a abstração das novelas. O amor é mutante, ele se altera com o passar do tempo. Ele tem as cores da doação, da preocupação, de fazer a felicidade do outro, de estar feliz nos momentos de alegria e solidário nos momentos de tristeza. Esse compartilhamento de vida é fundamental para que uma relação vare o tempo. Fácil não é. É extremamente difícil, mas com os erros a gente vai aprendendo e crescendo, na medida em que se consegue superar as próprias falhas.

JOÃO SOARES NETO: Ao mesmo tempo, descobre ou é descoberto pela Crédimus, uma sociedade de crédito imobiliário, e passa a ser seu diretor de operações. De que modo isso aconteceu e quanto tempo durou essa atividade?

UBIRATAN AGUIAR: Essa atividade meneou entre 71 e 75. Nesse período, fui diretor de operações da Crédimus e administrador da Domus Associação de Poupança e Empréstimos. A Crédimus tinha a mão muito presente de seu dirigente maior, Walder Ary, amigo de Virgílio Távora. Como não possuía nenhuma formação na área de crédito imobiliário, eles investiram em mim e me mandaram para o Rio de Janeiro e, depois, para Garanhuns, em Pernambuco, a fim de fazer cursos na área de Sistema Financeiro de Habitação. Dediquei-me, como sempre faço, ao trabalho e, logo a seguir, estava sendo convidado pelo Banco Nacional da Habitação para ministrar cursos, Brasil afora, na área de crédito imobiliário. Como disse, da Crédimus fui para a Domus, onde Elano de Paula, irmão de Chico Anysio, era o proprietário e dirigente maior e Valter Monte era o administrador. Saiu para comandar o Colonial Plaza Hotel e cuidar de seu próprio empreendimento. Então, assumi o comando da Domus. Quando de lá saí, retornei à vida pública. Evandro Ayres de Moura, oriundo do Banco do Brasil, presidente do Banco do Estado do Ceará, havia sido nomeado prefeito da capital e convidou-me para ser seu chefe de gabinete. Como chefe de gabinete, passei a conviver com lideranças políticas, não só as de Fortaleza, mas com um outro universo de pessoas. Daí, por entender que estava apto para ser deputado estadual, lancei-me candidato a deputado estadual e fui eleito.

JOÃO SOARES NETO: Como foi a sua primeira eleição para deputado estadual em 1978? A proximidade de sua família com Virgílio Távora foi decisiva ou relevante?

UBIRATAN AGUIAR: Se dissesse relevante, ainda seria pouco. A proximidade com Virgílio Távora foi decisiva. É claro que já havia formado uma base de liderança política em Fortaleza. Foi decisiva porque, sem a proximidade e o apoio de Virgílio, jamais teria sido eleito. Virgílio abriu-me as portas do interior. As portas do Cedro, que já haviam ajudado a eleger meus tios Moacir e Obi Diniz, filhos de meus dois avós que já haviam sido prefeitos. Dispunha de boa base no Ipu, terra de minha mulher. Virgílio aportava os colégios do então deputado Antônio Barros dos Santos, que estava deixando a política, principalmente os do Maciço de Baturité Itapiúna, Capistrano, Paramoti, Canindé e Caridade, para citar alguns que Virgílio me apresentava às suas principais lideranças. Isso sem falar em outros municípios que foram se agregando, o que possibilitou que minha campanha fosse vitoriosa.

JOÃO SOARES NETO: Você foi reeleito em 1982, mas optou, na eleição seguinte, pela candidatura a Dep. Federal. O que o motivou a deixar o Ceará e a encarar Brasília?

UBIRATAN AGUIAR: Fui reeleito em 1982, mandato esse que praticamente não exerci como parlamentar, pois fui convidado para ser Secretário de Educação do Ceará, de 1983 à 1985. Digo que talvez esse tenha sido um dos marcos da minha vida, porque mudou minha maneira de pensar. Isso devo a um grupo de educadores que me fez ter uma consciência crítica dos problemas do país. Tivemos, à época, a oportunidade de implantar o primeiro plano de educação nascido das bases, a partir de um projeto chamado Ouvindo a Escola Pública. Nos finais de semana, a partir de um texto que motivava o debate, todas as escolas públicas se reuniam em seu município, e diziam que escola desejavam ter. Sistematizamos, pois, todas essas manifestações, até a realização de um congresso estadual, onde recolhemos o pensamento dos educadores do Ceará. A partir daí, coube à Coordenação de Planejamento da Secretaria de Educação apresentar o novo plano nascido das bases, daqueles que trabalham na ponta do sistema.

Outra marca importantíssima desse período foi a autonomia da Universidade Estadual. No primeiro dia em que assumi a Secretaria, encontrei a Universidade em greve. Enfrentei a greve a partir do diálogo aberto, conversando de maneira franca com todos. Estabelecemos um clima de discussão tal que durante todo o período em que fui Secretário não ocorreram mais greves na Universidade. Agradeço ao Gonzaga Mota, então governador, a abertura dos caminhos para ganhos excepcionais, como a autonomia da Universidade Estadual, o fim das contratações por indicação política para realizá-la através de seleção pública, o fim das indicações dos diretores da escola – feitas  pelo secretário – e início da lista tríplice, organizada pela congregação de cada escola, sem falar em outros ganhos que, para mim, foram importantes. Isso ampliou minha maneira de ver os problemas do Estado e me possibilitou ser candidato a deputado federal. Como candidato a deputado federal, em 1986, obtive, em Fortaleza, 16 mil votos.

JOÃO SOARES NETO: A partir de sua eleição para Dep. Federal em 1987, a sua carreira política tomou um impulso significativo. Como foi a sua experiência de novato em face da Constituinte de 88 em que poucos deputados davam as cartas e decidiam pela maioria?

UBIRATAN AGUIAR: Na condição de educador, eleito Deputado Federal, e antes da posse, convidei 50 educadores para passarmos um dia debatendo uma proposta a ser por mim defendida na Assembléia Nacional Constituinte. Compareceram uns 42, salvo engano e, depois desse debate, constituiu-se uma comissão, tendo como coordenadora a saudosa professora Maria Eudes Bezerra Veras. Ela me apresentou um documento que depois respondi com o livro História de um Compromisso, mostrando o compromisso que assumi com os educadores; como defendi as teses que eles me colocaram nas mãos. Essas teses se transformaram em discursos, em emendas à Constituição, em pareceres que dei e em tudo mais que me foi possível fazer àquela época, na Constituinte. Aproximei-me de figuras excepcionais da vida educacional brasileira. Digo, com muita emoção, que Florestan Fernandes, Jorge Hage, Hermes Zanetti, Octávio Elísio, dentre outros, foram educadores de fundamental importância para a formulação do Capítulo da Educação. Àquela época, haviam duas correntes de opinião. Filiado à essa corrente, defendi o pensamento que propunha, de uma escola pública de qualidade, da gestão democrática do ensino, da destinação de recursos públicos para a escola pública.

Após promulgada a Constituição, no ano seguinte (em 1989), processava-se a primeira eleição para as Comissões Permanentes da Casa. Grande foi minha alegria em verificar que Florestan Fernandes e todos esses companheiros, por aclamação, me elegiam presidente da Comissão de Educação. O Florestan, guru do PT e mestre de presidente da República, como Fernando Henrique, não só indicava meu nome como aceitava ser meu vice-presidente, condição que eu colocava no momento. A partir daí, defendi posições na elaboração da LDB, que marcaram, àquela época, de forma indelével. Tudo isso me credenciou para ocupar o cargo de Primeiro Secretário do Congresso Nacional durante quatro anos. Nesses 16 anos de Congresso Nacional, o DIAP – Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – apontou-me em todos os anos dos meus mandatos como um dos 100 cabeças do Congresso Nacional. Quem proporcionou-me essa avaliação positiva, sem dúvida alguma, foi a atuação no processo constituinte e, de uma forma especial, na área da educação e cultura.

JOÃO SOARES NETO: Hoje, anos após a morte de Ulisses Guimarães, você poderia traçar um perfil histórico dele? Uns, o consideravam um grande líder? Outros, diziam que ele era um ditador e até presunçoso e havia até os que falavam que seu distúrbio de humor causou soluções e embaraços. Afinal, no seu olhar, quem era Ulisses Guimarães?

UBIRATAN AGUIAR: A meu ver, talvez Ulisses tenha sido o maior líder desse último quartel de século. Ele conseguia ser, ao mesmo tempo, orador fluente, primoroso na articulação política, firme nas decisões e corajoso no enfrentar os cães e a polícia que se armava para não permitir que a oposição falasse. Ele pôs seu nome para ser o anti-candidato; embora soubesse que não seria eleito, queria dar ao povo brasileiro a oportunidade de ter uma opção para votar. E se isso é presunção e se isso é ser ditador eu, sinceramente, não sei o que é ser democrata nem o que é ser solidário e compartilhar. Agora, é claro que ele tinha que contrariar interesses. Teria que aceitar a vida política marcada de ingratidões, de frustrações de alguns e decepções de outros. Mas, sobranceiro, pairava acima de tudo isso. Acho que ninguém nunca o ouviu reclamar da pífia votação para presidente da República, depois de ter sido o senhor das Diretas, depois de ter presidido as 911 votações na Assembléia Nacional Constituinte para dar ao país uma nova Constituição. Talvez ele tivesse guardado no coração que o país precisava se politizar. Se o país fosse politizado, talvez ele não tivesse sido um dos últimos da lista de candidatos a receber votos para presidente da República. Seria o primeiro. Já o distúrbio de humor foi uma decorrência da soma de todos esses contratempos, decepções e inquietações. Ninguém está imune a ter seus rompantes de insatisfação. É difícil uma pessoa viver sempre com um sorriso nos lábios, tendo uma dor no coração. A dor do coração faz pelo menos que você feche, às vezes, o cenho e mostre que realmente não está bem. Considero Ulisses alguém que a história do país deve render uma homenagem toda especial. E se ela for dividida em capítulos, que sejam muitos, mas se forem poucos como os dedos da mão, ele por certo será um deles.

JOÃO SOARES NETO: O que é ser vice-líder de partido ou vice-líder de governo, funções que você ocupou por seguidas vezes?

UBIRATAN AGUIAR: É ter a percepção de que você que tem uma tarefa a cumprir na coordenação política da bancada, orientando votações e recolhendo o sentimento de cada companheiro. Fui vice-líder do Ibsen Pinheiro. Ele cuidava da parte política e eu cuidava da parte administrativa da bancada, de chamar as pessoas para as votações importantes, de me inteirar da insatisfações e dos problemas levando-os ao líder para a busca de soluções. Assumir nas ausências o comando da bancada. Lembro-me que, certa vez, em uma viagem que ele fez assumi a liderança do partido. É difícil imaginar-se a emoção que senti quando, de pé ao microfone, encaminhando uma votação, na condição de líder do partido, via o líder-maior, Ulisses Guimarães, sentado na primeira fila, recebendo a orientação que passava. Então, ser vice-líder é ter noção da dimensão exata da tarefa que lhe é colocada e auxiliar o líder a conduzir a bancada, expressando o pensamento dos companheiros.

Como vice-líder de governo, a dificuldade se amplia. Você tem que auscultar os partidos que fazem a base de sustentação do governo. Cada partido expressa uma realidade, um sentimento, uma ideologia, é a soma das conveniências individuais coerentes com isso.

Fui vice-líder de Roberto Freire durante a presidência de Itamar Franco. Também fui vice-líder de Mário Covas na Constituinte, quando a mim foi entregue a missão de coordenar as ações na área da educação e cultura. Àquela época, travei um relacionamento grande com parlamentares de todos partidos, principalmente dos que atuavam na área da educação e da cultura. Isso me permitiu, inclusive, ser o coordenador da Comissão que agrupava grupos de opiniões divergentes acerca da LDB (Lei de Diretrizes e Bases), procurando encontrar um texto que conciliasse os interesses diferentes.

JOÃO SOARES NETO: Por que um grupo do PMDB criou o PSDB? Por que você se engajou nessa empreitada?

UBIRATAN AGUIAR: Sou egresso da UDN. Minha família migrou da UDN para a antiga Arena ou PDS, que foi o seu sucedâneo, e eu recebia a herança. Minha primeira opção política foi o PMDB. Interessante é que eu me sentia mais a direita do pensamento daqueles que já militavam no partido. Aos poucos, eu fui mais à esquerda e os outros à direita. Num determinado momento, sentimos que o partido estava fugindo aos compromissos assumidos com a sociedade brasileira. Daí, nasceu a idéia de se criar um partido que trouxesse as marcas da social democracia, que não se rendesse aos aspectos menores da política. Eis a razão da fundação do PSDB. Nasceu da insatisfação com os rumos que o PMDB estava tomando. Juntei-me a Octávio Elísio, Hermes Zanetti, Vicente Bogo, José Serra, e tantos outros companheiros que iriam compor o novo partido. Haviam divergências, é bom que se frise. Não fui para o PSDB no primeiro momento. Engajei-me logo depois nesta empreitada sonhando alto. Sonhando com a valorização dos costumes políticos, com uma doutrina presidindo nossas decisões.

JOÃO SOARES NETO: Em meio a cinco centenas de candidatos você é eleito Primeiro Secretário da Câmara Federal? Como foi essa disputa?

UBIRATAN AGUIAR: Sinceramente, foi a disputa em que coloquei minha principal arma de vida: o companheirismo e a solidariedade. É bom lembrar que primeiro você tem que ganhar no partido. Você só é candidato se for registrado pelo partido. Visitei um a um meus companheiros. Fui aos partidos de esquerda para, naquele instante, pedir seu apoio e colocar meu pensamento. Fui ajudado por meus amigos da área da educação, onde finquei raízes em todos os partidos, que se tornavam células vivas a trabalhar por minha candidatura.. Acredito ter sido o relacionamento, a amizade com todos os companheiros que me ensejou ser eleito para o mandato de dois anos e, depois, reeleito para mais dois.

JOÃO SOARES NETO: Teriam sido as suas realizações que o levaram a ser reconduzido como Primeiro Secretário da Câmara? O que ficou de positivo em sua dupla passagem como Primeiro Secretário da Câmara?

UBIRATAN AGUIAR: Eu acredito que a segunda eleição decorreu do trabalho realizado no primeiro período. A implantação do Museu, o novo formato do Jornal, a criação da Rádio Câmara, da TV Câmara – eu não posso dizer que fosse minha, mas eram iniciativas nossas, de uma mesa que trabalhava e que tinha à frente o Michel Temer, que era o grande comandante. Ao primeiro secretário, que é uma espécie de prefeito da Casa, cabia levar idéias, defender posições, criar meios para que se efetivassem as propostas. É o caso do painel eletrônico. Havia uma permanente denúncia da ocorrência de fraudes, e as crises eram constantes. Um parlamentar podia votar por outro, bastava saber a senha. Então, implantamos um painel funcionando através da coleta da impressão digital.

Tenho certeza que todo esse trabalho realizado, de par com uma série de publicações mostrando o funcionamento da Casa, o nível intelectual dos parlamentares, nos levou a editar, dentre outros, o Repertório Bibliográfico em que se realçavam os livros por eles publicados. Eu queria que a sociedade conhecesse os parlamentares. São professores universitários, profissionais liberais, empresários bem sucedidos, cujo talento nem sempre é conhecido pela sociedade.

Dentre as várias reivindicações dos servidores, destacamos a Semana do Servidor. Era uma semana de atividades culturais exibindo a criação dos servidores da Câmara nas Artes Cênicas, na Música, na Literatura, nos campos vários da Cultura. Abrimos um Espaço Cultural para amostras e exibições. Enfim, tudo isso ajudou a consolidar e a integrar uma mesa em que, sendo Primeiro Secretário, me punha na vitrine e me dava visibilidade. 

JOÃO SOARES NETO: Ser deputado federal, sucessivas vezes, pode criar um vínculo afetivo com Brasília. Quanto do seu coração é brasiliense?

UBIRATAN AGUIAR: Olha, não posso negar que tenho vínculo com a cidade em que moro há tanto tempo. Tenho certeza de que no dia em que dela me despedir e voltar para o meu torrão, que é o meu sonho, vou sentir saudades também. Mas, digo sempre, sou uma árvore transplantada sem raízes. O meu amor é o Ceará, é Fortaleza, é Cedro, minha terra, minha gente, meu povo. É paixão verdadeira. Gosto de Brasília, cidade tranqüila, bonita, de belas linhas arquitetônicas, mas deixo para que minhas duas filhas mais novas, que estudaram, que criaram seus grupos de amizades e aqui se casaram, a missão de intensificar esse amor que não conseguiu me contaminar por inteiro. Como disse, fui transplantado sem raízes e logo mais estarei voltando para que o tronco se incorpore às raízes e possa florescer no convívio dos amigos e da família.

JOÃO SOARES NETO: Qual a diferença da Brasília de 1987, ano de sua chegada, para a de hoje, 2007?

UBIRATAN AGUIAR: São muitas as diferenças. Em 1987, ano em que cheguei, saía da 302 Norte – onde residiam os parlamentares – para a Câmara dos Deputados nas chamadas zebrinhas microônibus que conduziam parlamentares e funcionários para o Congresso Nacional. Não havia o trânsito intenso de hoje. Brasília não era essa metrópole de quase três milhões de habitantes. A cidade era mais tranqüila. Não sentíamos necessidade de intervenções cirúrgicas internas, através dos viadutos com os atualmente construídos. Brasília, àquela época, possuía o gosto de província, um cheiro brejeiro. Era à época do bloco do Pacotão, saindo do Bar Chorão, reduto tradicional da boemia, localizado na 302 Norte. Era o tempo do Congresso em que as pessoas conversavam mais, debatiam-se os grandes temas da nacionalidade. Era uma cidade cosmopolita na exposição dos diversos sotaques, pessoas vindas das diversas regiões. Cidade sede das missões diplomáticas, território de todos os povos. À época, a cidade não possuía uma identidade própria, como agora ocorre nos seus 47 anos. Hoje, já podemos falar de um dialeto brasiliense, de uma cultura de Brasília. Até então, eram culturas importadas, sotaques os mais diversos.

JOÃO SOARES NETO: E o que fez lutar por sua indicação pela Câmara para Ministro do Tribunal de Contas da União? Quanto tempo durou essa batalha e como ela se desenvolveu? Ser Primeiro Secretário da Câmara facilitou o seu intento?

UBIRATAN AGUIAR: A minha luta para ser Ministro do Tribunal de Contas da União era uma fuga. A fuga de um sonho. Sonho que estava dentro de meu projeto político, o de ser Senador e depois Governador do meu Estado. Todavia, em política você não é dono das suas vontades, principalmente quando vai se alcançando o ápice da pirâmide. À época da disputa pelo Senado, submeti-me às regras de meu partido. Dentro da regra estabelecida, ganhei. Criaram, após a vitória, uma segunda regra, um colegiado com poder para decidir. No colegiado, em voto aberto, empatei com meu concorrente. Perdi em uma pesquisa que me foi mostrada e de cuja existência desconhecia. Não vou discutir, isso faz parte do passado. O que posso dizer é que, naquele momento, morria meu sonho. Via que era impossível ao filho de Cedro, de classe média, sem dispor de recursos materiais, sonhar em ser Senador ou Governador. E, para não sair como um derrotado, buscava uma saída honrosa. O TCU era a cotada. Bendita fuga. Hoje, posso dizer, haver sido um dos maiores acertos da minha vida. Como me empolgo em tudo o que faço, passei a me dedicar de coração ao que faço no Tribunal de Contas da União. Encontrei uma nova forma de servir ao meu povo: na condição de ministro, de julgador de contas.

Enfrentei uma batalha, visitando gabinete por gabinete de cada um dos deputados, de cada um dos senhores senadores, falando com governadores e prefeitos da capitais, em função da influência que exercem junto às suas bancadas. Telefonei para as esposas dos deputados solicitando que intercedessem junto aos seus maridos para apoiar-me. Fui à bancada de cada partido. Pedi para ser sabatinado, não só nos termos regimentais – pela Comissão de Fiscalização e pela Comissão de Finanças e Tributação – mas pelos parlamentares das bancadas partidárias. Sei que a proposta ecoou favoravelmente, conquistando a simpatia dos partidos. Ação típica do nordestino, do cearense, que faz política com humildade, conhecedor das dificuldades da vida, corajoso no vencer as adversidades. A batalha foi longa e penosa. Enfrentei intempéries, mas não desfaleci. Enfrentei candidatos excepcionais como Renato Viana e Átila Lins, nomes que engrandeceram a disputa na qualidade de seus gestos. Sabia que contava ao meu favor a gestão exercida na Primeira Secretaria. Sei que esse fato somou pontos. Somou pontos também os amigos que havia feito, principalmente na área da educação. O convívio com os  jornalistas do Comitê de Imprensa, com os funcionários da Casa, mostravam-me haver uma simpatia por minha candidatura. Toda essa soma de fatores foi vital para a minha eleição.

JOÃO SOARES NETO: Afinal, em 02 de maio de 2001, é empossado como Ministro do Tribunal de Contas da União. O que pensou na hora em que saia de seu apartamento para a posse.

UBIRATAN AGUIAR: Meu pensamento voltou-se para uma tarefa totalmente diferente da que eu havia a vida toda desempenhado. Professor que fui um dia, Secretário de Município, de Estado, Parlamentar, municipal, estadual e federal, saía dessas tarefas para a função de julgar e de lidar com contas. Arrepiava a idéia de lidar com contabilidade. Sempre fui refratário aos números. Pensei, inclusive, que não tivesse sido a melhor escolha. Mas iria enfrentar. Era mais um desafio em minha vida. Foi com o pensamento de fazer o melhor que pudesse, fruto de uma visão assentada em dois artigos: o definido “o” e o indefinido “um”. Todos nós devemos buscar ser sempre o “o”. Então, vinha para ser o ministro, e não um ministro. Deveria oferecer o melhor de mim. Tanto isso é verdade que uma das primeiras solicitações que fiz ao presidente do Tribunal era a de me possibilitar fazer um curso, através do Instituto Serzedello Corrêa, sobre o que é o Tribunal de Contas da União, seu funcionamento, sua estrutura e competências, como o Colegiado se reúne, quais os processos enviados à Câmara e ao Plenário, dentre outros assuntos. O então presidente Humberto Souto retrucou dizendo ‘mas você, ministro, fazendo curso?’, e eu disse ‘exatamente por haver sido nomeado ministro é que necessito conhecer para fazer o melhor’; Ele, diante do exposto, designou um servidor da Casa para preparar esse curso e, para surpresa agradável minha, quatro outros ministros também se inscreveram para fazê-lo. Terminado o curso, disse para o instrutor Ricardo Melo, ‘agora vou saber na prática se o que você disse na teoria corresponde à verdade’. A partir daí, tornou-se uma prática a visita que anualmente faço a todas as unidades do Tribunal, acompanhado de um ou dois assessores, a fim de debater meus processos que estão em tramitação naquela unidade, sobre o que pensam acerca do Tribunal, quais sugestões têm a dizer, o que se pode fazer para melhorar o desempenho, quais as críticas e sugestões. Enfim, é um diálogo que se estabelece e que passou a ser fundamental para o meu desempenho. Daí a escrever sobre Convênios, Tomadas de Contas, Contratos, Licitações, Controle Externo, foi um salto. Conhecimentos concentrados nos dois livros editados pela Editora Fórum. Hoje, digo com tranqüilidade, se algo de acertado e de bom fiz foi ter-me decidido pela mudança. Se vinha para o TCU como uma fuga, aqui encontrei meu destino. Eu digo brincando que não sabia que TCU queria dizer Tua Casa Ubiratan.

JOÃO SOARES NETO: O que é o Tribunal de Contas da União e o que faz um Ministro?

UBIRATAN AGUIAR: O Tribunal de Contas da União é um órgão concebido pelo gênio de Rui Barbosa. O fato é que são duas as linhas principais de atuação do Legislativo: legislar e fiscalizar. Mas a fiscalização é algo que requer dedicação em tempo integral e conhecimento técnico especializado. Você não há que exigir de um parlamentar conhecimentos de auditoria ou conhecimentos que se estendem desde o campo da energia à educação, do meio ambiente à saúde, da área de pessoal às áreas de obras públicas. Assim, Rui entendeu que deveria haver um órgão independente, não subordinado à nenhum dos poderes, que pudesse assessorar, auxiliar o Legislativo na ação de fiscalização. A partir daí, o Tribunal de Contas da União ganhou esse formato.
O TCU é o órgão do controle externo. Muitos confundem e perguntam ‘mas não há o Ministério da Controladoria Geral e da Transparência?”. Sim, mas ele é um órgão de controle interno, isto é, que tem a responsabilidade de, tão logo que o dinheiro ser liberado pelo executivo, através de convênios e repasses a Estados e Municípios, fazer o acompanhamento, verificar a regular a aplicação dos recursos e, quando notar qualquer irregularidade, instaurar uma Tomada de Contas Especial. Após a apuração que se faz na Tomada de Contas Especial, ele deve remeter o processo ao Tribunal de Contas da União para julgamento. Somente o Tribunal de Contas da União pode julgar e aplicar sanções e imputações de débito, declarar nota de improbidade administrativa, encaminhar à Justiça Eleitoral para fins de inelegibilidade.

Existem, tanto no Legislativo quanto no Executivo e no Judiciário os órgãos de controle interno. Também existem os órgãos de controle específico, como o COAF, o Banco Central e Receita Federal, e os órgãos de investigação, no caso a Polícia Federal e o Ministério Público. Cabe ao Tribunal de Contas da União cuidar de toda a formatação de processo no âmbito administrativo, examinar as licitações, os convênios, os contratos realizados, os atos de pessoal, seja de admissão, de aposentação, de pensões.

O TCU é formado por um colegiado do nove ministros. Tem também o Ministério Público junto ao TCU, composto por um procurador geral, dois sub-procuradores e quatro procuradores.

O Tribunal de Contas da União dispõe de uma Secretaria em todos os Estados. Hoje, são cerca de 2.300 servidores que distribuem-se entre técnicos, de nível médio, e analistas, de nível superior. O órgão mantém convênios com o Reino Unido e o Canadá, para intercâmbio no campo da auditoria. Além disso, é filiado a uma organização internacional de contas, a INTOSAI. Possui um instituto de formação e os servidores, obrigatoriamente, submetem-se a cursos de capacitação durante três meses a cada cinco anos, sem falar nos cursos que permanentemente são oferecidos para se atualizarem e se aperfeiçoarem.

Hoje sou um empolgado com o trabalho desenvolvido pelo Tribunal de Contas da União. Entendo que ele é visto aos olhos da sociedade como um órgão detentor de credibilidade, pela firmeza e seriedade com que atua. O ministro é aquele que examina os processos. O processo chega ao seu gabinete após a apreciação de duas vertentes: a vertente técnica, em que o processo – seja representação, denuncia, processo de contas ou auditoria – é analisado pela equipe técnica, que emite pareceres de modo a trazer subsídios ao ministro no elaborar seu voto e acórdão. Da mesma forma se pronuncia o Ministério Público, trazendo o viés do pensamento jurídico, sobre os aspectos da legalidade, que vão contribuir para embasar o voto do ministro.

Cada ministro tem cinco assessores. Em meu gabinete, coloquei uma mesa para reuniões, nela tendo assento os cinco assessores e o chefe de gabinete. Cada processo é exaustivamente discutido. Compartilhamos pensamentos e idéias de modo a ensejar a decisão da qual resultará meu voto e o acórdão a ser proferido. O ministro atua não só com a presença na Câmara e no Plenário, mas, também, dirigindo as auditorias solicitadas pelo Congresso Nacional ou decididas pelo próprio Tribunal de Contas da União.

JOÃO SOARES NETO: Nestes seis anos de TCU quais as mais importantes tarefas, decisões ou análises de contas que fez?

UBIRATAN AGUIAR: Foram muitas as decisões importantes. Geralmente estamos contrariando interesses econômicos ou políticos ou os dois em conjunto. Quando você faz a análise de determinados processos, o norte é a fundamentação legal e a sustentação técnica. Com muita freqüência encontramos casos de superfaturamento, direcionamento, falta de projeto básico e outras irregularidades que contaminam o processo. Temos que ter presente em nossas decisões alguns princípios, como o da economicidade, o da publicidade e o da segurança jurídica.

Duas vezes, já analisei contas de governo. É um processo demorado e complexo. É  bom que se esclareça que o relator emite um parecer técnico. O Plenário acolhe ou não esse parecer. Em acolhendo, nós o remetemos ao Congresso Nacional, para que subsidie a votação de natureza política sobre as contas do Presidente da República. Nosso trabalho é coordenado pela Secretaria de Macroavaliação Governamental, fruto das auditorias realizadas durante todo o ano, de informações que coleta, enfim, reúne todo o material que vai consubstanciar o parecer a ser votado. Então, esse daí foi um processo importante que relatei.

Também relatei processos de maior complexidade como o da Fundação GEAP, o do aeroporto de Salvador e o da OAB. Alguns desses constam em livro que publiquei sobre jurisprudência do TCU – com o título de Controle Externo, pela Editora Fórum. Já que a literatura do Tribunal, no que diz respeito a jurisprudência, é muito escassa, eu entendi por bem publicar alguns de meus votos.

JOÃO SOARES NETO: Analisando as contas do Governo Federal como fica a sua cabeça de humanista?

UBIRATAN AGUIAR: É o velho choque de cabeça e coração. O humanista deve ter o coração conduzindo seus sentimentos, suas emoções, sua maneira de ser. E, nessa hora, você tem que aposentar o coração e se valer da razão, porque a razão, com sua análise fria, é que guarda identidade com as contas. O número não se compadece com o humanismo. O número traz a frieza. O humanismo traz o calor da emoção. Não consegui ainda superar isso no todo, mas procuro pôr para dormir o coração e o sentimento do humanista, a fim de que a razão do ministro possa funcionar à contento. Acima de tudo, é uma missão, e missão é para ser cumprida com zelo, com responsabilidade, de forma muito presta e efetiva.

JOÃO SOARES NETO: Para o TCU, a corrupção tem solução?

UBIRATAN AGUIAR: Responder pela instituição é difícil. A partir da convivência com ministros, auditores, servidores da Casa e da crença pessoal, penso que a ação pedagógica de um lado e ação sancionadora de outro apontam para um horizonte, mesmo que distante, de soluções para a corrupção. A esperança aumenta na medida em que, como órgão que atua fortemente no combate à corrupção, fizermos prevalecer a legislação que existe, sancionando essas pessoas, recuperando o dinheiro desviado, aplicando as devidas multas, e mais, a parte que cabe ao Ministério Público e à Advocacia Geral da União funcionando também a bom tempo, com a promoção de ações penais, civis, administrativas. Se, por um lado, temos esperança de que o nível de corrupção regrida fortemente no país, por outro, sabemos que isso só é possível com a formação do povo brasileiro. É preciso investir na base, colocando os valores éticos, morais, de pátria, de família e de crença religiosa, e, ao mesmo tempo, aplicando punição àqueles que descumprem as leis e agridem a nação através da corrupção.

JOÃO SOARES NETO: Qual a sua visão de Ministro sobre as contas públicas nas três esferas do governo?

UBIRATAN AGUIAR: As contas públicas, nas três esferas do governo, estão muito presas à razão de natureza econômica, sem atentar para as necessidades sociais. O concreto ainda fala mais alto que a pessoa. Ainda mais se você descer para a sarjeta dos desvios, da corrupção, do favorecimento, do direcionamento, é de causar náuseas.

JOÃO SOARES NETO: Valendo-se de sua trajetória política, quais foram os cinco maiores políticos do Ceará?

UBIRATAN AGUIAR: Tem muita gente boa. Essa é uma tarefa extremamente difícil, pois ao escolher cinco posso cometer injustiças. Os que por acaso não forem citados, culpem a quem me pergunta exigindo que eu responda dizendo apenas cinco nomes. Ao buscar esses cinco nomes, começo, por dever de justiça, com Virgílio Távora. Entendo que ele foi um marco na vida política do Ceará. Ele mostrou que o governo precisa ser planejado e que é possível fazer política com grandeza. Considero Paulo Sarasate um defensor intransigente da educação e a quem o Ceará muito deve. Homem de vida inatacável, honrada, dele nunca se ouviu falar acusação de um gesto menos digno. Considero Moacir Aguiar uma referência. Competente, leal, simples, um exemplo de dignidade, de altruísmo, de homem voltado para o bem.

Os outros dois que vou apontar são José Martins Rodrigues e Parsifal Barroso. José Martins sempre esteve no parlamento, foi deputado federal, e, durante o período da ditadura militar, foi um dos que enfrentou a Revolução. Além de ter um notório saber jurídico, passou pela vida pública imaculado. Já Parsival Barroso foi governador do Ceará e conseguiu um grande feito. Àquela época, existiam a UDN e o PSD, que eram dois partidos rivais – como os republicanos e democratas nos Estados Unidos. Eram forças inconciliáveis. Muitos crimes aconteciam, pois àquela época era comum matar por causa de política. Parsival conseguiu juntar todos esses partidos e trazer um candidato (Virgílio Távora), que não era do partido dele, para ser candidato à governador, com ele sendo o avalista desta combinação. A partir desse momento, o Ceará teve uma nova visão política.

JOÃO SOARES NETO: Sei que um ex-professor de Português pode pensar em poesia, mas como conciliar análises de dados com metáforas?

UBIRATAN AGUIAR: Exemplo de conciliação, posso trazer à lume com livro que estou a escrever sobre controle. Nele, começo dizendo que na fase outonal da vida, estação da reflexão, constatei que dois fatos permeiam minha vida. A Pública Administração, em que atuei nas diversas faces da mesa, quer no Executivo, no Legislativo e agora em uma Corte de Contas, e o sonho de rios perenes no Cará, pois cansava-me o repetir ser o Jaguaribe o maior rio seco do mundo. Esses dois exemplos marcaram minha vida. Nessa fase reflexiva da vida pude observar que os dois têm algo em comum: a sinuosidade. Os rios por se desviarem dos obstáculos e a Pública Administração por se desviar dos controles. Aí está a metáfora do professor de Português que faz da poesia o canto de vida, conciliando-a com o livro técnico a razão de ser do seu trabalho. Os rios e as contas podem conviver harmonicamente, até para que nós possamos humanizar um pouco a técnica e fazer da frieza dos números o calor da poesia.

JOÃO SOARES NETO: A poesia o levou a escrever letras de músicas. No seu entendimento quais são os maiores letristas do Brasil?

UBIRATAN AGUIAR: As letras de Vinícius, se disser que são belas, estarei cometendo um pleonasmo. As de Drummond são de uma excelência e qualidade que toca n’alma. E há outros que no anonimato não aparecem. Na música, normalmente quem aparece é o intérprete. Quem faz a melodia e a letra pouco aparece. Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga na poesia popular nordestina são exemplos de letristas. Asa Branca é o hino nacional do Nordeste. No Ceará, Fausto Nilo mostra o talento de nossa gente. Vou concluir com Tom Jobim, embora muitos outros sejam dignos de figurar na história da música popular brasileira. 

JOÃO SOARES NETO: O que acredita que possa transmitir ao escrever poesia ou letra de música?

UBIRATAN AGUIAR: Sentimento, uma mensagem positiva, de construção, algo que possa enternecer a pessoa, que possa elevá-la, que possa transportá-la para um mundo melhor do que o que a gente pisa. Quando estou participando da construção de uma nova música, quando estou vestindo as letras com a beleza das melodias ou dos arranjos, eu abstraio o mundo em que vivo. Nele não existe o mundo do seqüestro, da violência, da marginalidade, do assalto. É como se eu me transportasse para outra dimensão, onde o amor faz a construção, e não o ódio, a inveja e o egoísmo que contaminam a sociedade e a destroem.

JOÃO SOARES NETO:O que é ser poeta?

UBIRATAN AGUIAR: É ser um sonhador de pés no chão. É um pouco de caminheiro da saudade, de visionário de um mundo melhor e, acima de tudo, um ente carregado de amor.

JOÃO SOARES NETO:Quem foi o maior poeta: Castro Alves, Drummond, Gerardo Melo Mourão ou João Cabral de Melo Neto?Dê o nome de cinco músicas que ouve sempre.

UBIRATAN AGUIAR: Tarefa difícil. Não distante, no tempo, quanto Castro Alves nem tão mais perto quanto João Cabral de Melo Neto. Vou ficar com Drummond. Cinco músicas que escuto sempre são: Gostoso Demais (Maria Betânia), Você não me ensinou a te esquecer (Caetano Veloso), Noite de meu bem (Dolores Duran), Eu não vivo sem você (Vinícius de Moraes) e Detalhes (Roberto Carlos).

JOÃO SOARES NETO:Sinceramente, você aspira pertencer a uma academia de letras? Em caso negativo, qual a razão?

UBIRATAN AGUIAR: Penso em pertencer mas não de forma obsessiva. Não quero chegar apenas por chegar. Quero chegar para ser acolhido. Se não pertencer, a vida continua da mesma maneira. Isso não me impede em continuar sonhando, vivendo e pensando no que possa ser feito em favor da Literatura, das Artes Cênicas e das Artes Plásticas. Continuarei integrando a Academia dos que, nas calçadas, nos bares, nos clubes, nas noites, nas rodas de boemia, conseguem construir a maior Academia, que é a “Academia dos Sonhos”.

JOÃO SOARES NETO:Você deixaria um neto seu freqüentar escola pública? O que é ser avô e como é a sua relação com os netos?

UBIRATAN AGUIAR: Fui aluno de Escola Pública quase toda a minha vida. Somente o ginasial é que cursei no colégio São João. Estudei no Grupo Escolar Gabriel Diniz, em Cedro, no Colégio Estadual do Ceará, onde fiz curso clássico, e na Faculdade de Direito da Universidade Federal. Hoje, as escolas públicas são relegadas ao descaso. Não há como imaginar um professor dedicado a sua missão com um salário que não lhe garante a sobrevivência. Como um professor municipal no Ceará, ganhando R$ 300,00 por mês, pode dispor dos meios que o mundo contemporâneo exige para ser um bom repassador de conhecimento? Você pode acreditar em uma escola que não dispõe de computadores, bibliotecas, laboratórios? Se a compararmos com a escola particular, veremos que estamos realimentando as desigualdades. Estamos criando criaturas de primeira e de segunda classe. Nessa situação sem condições, não deixaria meu neto ir para a escola pública.

Sonhei um dia em ser governador do meu Estado. A primeira coisa à qual me dedicaria seria a de recrutar, através de concursos, os melhores cérebros para a educação do Estado, pagando o justo salário. Com o dinheiro que é desviado, a construção de obras desnecessárias, a contenção das despesas de custeio e teríamos recursos necessários para pagar um salário digno ao professor, exigindo capacitação, tempo integral, dedicação exclusiva, cursos para seu aperfeiçoamento. A educação seria realmente a prioridade no meu governo.

Ser avô é algo indescritível. Quando minha primeira filha nasceu, a emoção molha as faces. O coração pulsa acelerado. Neto é um filho duas vezes. O pai carrega muito na disciplina e o avô carrega tão somente no coração. Deixa aos pais à disciplina e aos avós o carinho. Cabe ao avô orientá-los, acompanhá-los, viver e participar da vida dos netos da mesma forma que vive e participa da vida dos filhos. Procuro ter uma relação amiga e moderna com meus netos. Procuro, inclusive, aprender as suas gírias a fim de melhor entendê-los. Certa vez fui proferir uma palestra, a convite da diretora da escola onde minha neta estuda. Passei dias aprendendo algumas das expressões por eles usadas para ser melhor entendido. Depois, ela chegou para mim e disse: “Vô, tu foi massa!”. E eu perguntei: “e a turma não ficou zoando de minha cara?!” É uma relação amistosa, amiga, fraterna e companheira. Vibro com suas vitórias, com as suas alegrias. É uma coisa muito gostosa.

JOÃO SOARES NETO:Por que jovens queimam índios, atacam domésticas ou furtam computadores de universidade pública?

UBIRATAN AGUIAR: Problema da formação do povo brasileiro. Resultado da revolta com as injustiças, com a impunidade, com a sociedade perversa, com uma nação que não corrige as desigualdades sociais. Temos um percentual pequeno de pessoas com muito dinheiro e um percentual bastante elevado dos que não têm nada. O nordestino, que migrava na seca em busca de outras terras para encontrar o que comer, hoje, com a revolta acumulada, não vai nem mais atrás de buscar o que comer. Assalta para sobreviver. A continuidade do assalto, da violência, do seqüestro, está tornando a sociedade violenta, sem alma, sem sentimentos, sem escrúpulos, sem valores. É o problema da desagregação do lar. Hoje, o pai e a mãe saem para trabalhar, o filho vai para a escola e, quando muito, se encontram na hora de dormir. São famílias que não conversam, que não participam dos problemas, das alegrias, que não discutem as dificuldades, que não comemoram as vitórias. Também há a falta de crença religiosa, a falta de Deus. Deus não compartilha da queima de índios, do ataque a domésticas, de furto dos computadores e com o egoísmo que contamina o tecido social.

JOÃO SOARES NETO:Como o “Clube do Bode” se encaixa nos seus fins-de-semana e férias em Fortaleza? Qual a sua definição de amizade?

UBIRATAN AGUIAR: O Clube do Bode traz a marca do espírito alegre, moleque e irreverente do cearense. Acima de tudo, é o lugar onde as pessoas vão desinteressadamente, com o intuito de curtir a vida, de conversar, de bater um bom papo. A maestria com que o Sérgio Braga faz esse enlace entre as pessoas dá um sentido muito gostoso de viver. É bom a gente ver as mesas postas nas calçadas, ganhando a rua, e as pessoas felizes, jogando conversa fora. É bom ver o Pitombeira trazer uma panela de barro com um carneiro guisado dentro, outros chegarem e colocarem um queijo ou outra iguaria na mesa. O Flórida Bar fornecendo o combustível para a turma, a não ser que aquele que o próprio Sérgio Braga traz da livraria, a caninha reservada para o Dr. Lúcio. Os poetas que estão ali presentes, os artista plásticos, os que são da Academia, jornalistas, empresários, enfim, pessoas de todas as origens, e que fazem da sensibilidade o traço em comum na arte de fazer e cultivar a amizade.

O Clube do Bode é uma agremiação viva, sem caráter formal. São amigos de longas datas que se reúnem às sextas-feiras e aos sábados, na Rua D. Joaquim, lá em Fortaleza, para curtir a vida, beber, brincar, ouvir música. Começa ao meio dia e adentra a noite com música ao vivo no Flórida Bar. Às sextas-feiras, alguns dirigem-se ao Ideal Clube, para participar da sexta literária. A ata que registra todos os acontecimentos é escrita pelo “chiquerador-mor Audifax Rios”.

A amizade é aquela bem querença que envolve a vontade de servir, a preocupação com a pessoa, a identidade dos pontos de vista, a identidade nas idéias, no pensar, a identidade no construir, a solidariedade como um traço marcante. Mas é como uma via de mão dupla: não existe amizade sem reciprocidade. E, para ser amigo, não precisa dizer que é amigo, basta que os fatos falem por si, basta que os atos digam, basta que a vida mostre.

JOÃO SOARES NETO:Como a cidade de Cedro coexiste em seu tão rico imaginário? Se o menino que você foi em Cedro tivesse a capacidade de vê-lo agora, o que acha que diria?

UBIRATAN AGUIAR: A cidade de Cedro é meu ponto de partida. É a aldeia, é a província, é a história da família, é a lembrança da infância, é o grupo escolar, é um mundo diferente para o qual fui projetado. É como se eu saísse de um mundo de sonhos restritos mas de uma paz cuja dimensão seria incapaz de descrever. A inocência povoava a cabeça dos nativos de lá, em detrimento da maldade das megalópoles. Cedro tem, de fato, uma presença muito forte em mim, pois representa muito da minha formação, da humildade que colhi de minha gente, da simplicidade que vivenciei junto às pessoas, da capacidade de trabalhar para sobreviver, que busquei em cada trabalhador rural, em cada agricultor, em cada homem do povo. Além disso, a fé povoa a cabeça do sertanejo. É dessa maneira que vejo Cedro.

O menino que fui em Cedro talvez não imaginasse a capacidade que tinha de alcançar os vôos que alcancei, até porque não sabia que teria tantas mãos para ajudar na caminhada. Talvez não imaginasse que as lições que recebia da família, dos amigos e do povo seriam um alicerce em um edifício que, dentro das minhas limitações, pude construir. Nunca poderia imaginar que o menino da íngreme Rua do Caldeirão, correndo, jogando futebol nos campos de várzea, pudesse um dia ajudar a escrever a lei maior do país. Jamais poderia imaginar estar sendo ministro com acento na mais alta corte de contas do Brasil. Mas, de qualquer forma, se tudo isso posso dizer que devo a minha terra, posso muito mais afirmar que, naquele tempo, meu olhar não teria o poder da percepção de onde poderia chegar.

JOÃO SOARES NETO:Como é estar casado há tanto tempo? Você é pai de quatro filhas mulheres. O que significa isso para você? Como você vive em família?

UBIRATAN AGUIAR: Vivo o doce ciclo da dominação. Ao nascer, a mãe começa a dar as ordens. Quando a se pensa ter ganho autonomia de vôo, a mulher nos seduz e nos enlaça – vem o casamento e ressurge a dominação. O controle é muito mais efetivo do que o do Tribunal de Contas da União. Depois, quando ela começa a afrouxar as rédeas, vem as filhas e, se não mais bastasse, as netas. Ninguém escapa do ciclo da dominação. Ele é eterno. Todavia, é precioso quando essa dominação vem da mais bela criação de Deus: a mulher. Você tem que render-se à beleza da criação e colocá-la no santuário sagrado da nossa devoção. A mulher tem uma sensibilidade muito aguçada, uma antevisão dos fatos, um sexto sentido, como se costuma dizer. Essa perspicácia faz com que ela repasse para o homem uma série de ensinamentos. É a grande mestra de nossa vida. E eu, que Deus me presenteou com tantas mestras, teria que aprender alguma coisa. Essas lições muitas que aprendi me permite atravessar o tempo na leveza do vôo dos pássaros.

JOÃO SOARES NETO:Como se manifesta em sua fé em Deus. Você se considera cristão em plenitude? Qual a sua atividade nos Encontros de Casais com Cristo? A Igreja Católica é a única igreja de Cristo?

UBIRATAN AGUIAR: Minha fé em Deus está na crença de que esse mundo é presidiado por um ente superior. Nada vem do nada por acaso. Esse ente superior, dê o nome que se der – pode ser Buda, Jeová, Cristo Salvador – , existe. Um homem sem fé é um homem sem esperanças, é um homem triste, é um homem sem amanhã. As horas das dificuldades nos mostram isso. Quem, no momento da mais extrema dificuldade, não acredita em nada é um desesperado e desesperançado. Não quero que nunca morram em mim as esperanças. Então, a minha fé é algo que vem das minhas entranhas, daquilo de mais sagrado que possa existir dentro da alma. Minha fé em Deus é algo muito forte. Não só acredito como espero que Ele conviva comigo e me ilumine. Se plenitude for, na acepção do termo, estar presente em todos os atos litúrgicos, eu não poderia dizer que sou um cristão em plenitude. Mas se cristão em plenitude for aquele que faz da doação, da renuncia, do perdão e da caridade uma bandeira de vida, eu posso dizer que vivo em plenitude. Sinto uma vontade muito grande de ser útil, de servir, de ajudar o próximo, me contristo com as tristezas das pessoas que sofrem. Gostaria muito de ver um mundo mais justo socialmente. Se isso for um exemplo de cristandade, me considero realmente um cristão em plenitude.
De minha atividade nos Encontros de Casais com Cristo hoje encontro-me afastado. Vivi muito intensamente em Fortaleza, participando de todas as etapas, de todas as atividades, inclusive como palestrante que fui, durante muito tempo, com minha mulher.

Não posso dizer que a religião católica é a única, mas posso dizer que ela me preenche. Acho que todas aquelas que têm o Cristo como fonte, como origem e como destino final de suas orações, de suas súplicas, são caminhos, são atalhos, ora de chão batido, ora de asfalto, ora de pedra ora de pedregulho, mas são caminhos que levam ao Cristo. Agora, talvez quando o papa falou que a Igreja Católica é a única do Cristo, é porque ao vivenciar a vida, o martírio, a história do Cristo, os seus últimos momentos, a  caminhada de seus apóstolos que se tornaram santos ou a vida de sua mãe, fonte de amor, fez da palavra exressão de crença mais extremada. A diferença maior entre ela e as igrejas está na devoção de alguns ser voltada unicamente para o Cristo.

JOÃO SOARES NETO:Você se acha forasteiro em Brasília? O que é mais bonito ou relevante na estética da cidade? E o que o desagrada?

UBIRATAN AGUIAR: Eu não me sinto forasteiro. O que posso dizer é que não finquei raízes, a exemplo de outros que vieram com o animo de ficar, de morar, de residir, de constituir família. Meu intuito não foi este. Daí porque talvez não tenha criado raízes. Sinto-me, porém, em casa. Fiz várias amizades. Fui muito bem acolhido. Tenho tido momentos excepcionais, inclusive sendo condecorado com a maior comenda pelo governo de Brasília. Sou convidado para participar de vários eventos na cidade. Porém, mentiria se dissesse que é a mesma paixão e amor que dedico a minha terra.

Encanta a qualquer visitante o projeto urbanístico da cidade. O formato do avião, com sua cabine de comando repousando na Praça dos Três Poderes, é genial. A forma como represaram o Rio Paranoá e o transformaram no grande lago, amenizando a falta de umidade na região, transformou-se, também, em um ponto de atração da cidade. Para suas margens, convergiram os clubes, as mansões, além de vários equipamentos sociais que embalam as noites, como é o caso do Pier 21. Então, Brasília tem seu lazer e seu encantamento, propiciando aos habitantes as águas como refúgio de paz, de entretenimento, de encanto para os olhos. Há, neste cenário, monumentos, a Catedral de Brasília, o Teatro Nacional, os Palácios do Planalto, da Alvorada, a sede do Congresso Nacional, o Palácio da Justiça. São monumentos que chamam a atenção. A concepção de Brasília, sua realidade hoje a transformou em cartão postal, templo da humanidade.

O que me desagrada em Brasília? Não ter esquina, não ter o Clube do Bode, não ter esse encontro festivo. Agora que Brasília vai começar a ter sua face, seu rosto, sua própria identidade, à proporção que alcançou a sua maioridade. Seus filhos escreverão uma nova página. Desagrada-me em Brasília a falta do calor humano. Nunca senti esse aconchego, essa alegria que meu povo tem, essa amizade fácil que se constrói, a relação entre as pessoas. Disso sinto muita falta em Brasília. 

JOÃO SOARES NETO:Na hora da aposentadoria você esvaziará definitivamente seu guarda roupa em Brasília, usará roupas esportes em Fortaleza ou se dividirá pela atenção que precisa dar à sua família brasiliense?

UBIRATAN AGUIAR: Aposentando-me, desejo voltar para Fortaleza. É o reencontro com meu chão. Não quero não ter mais patrão. Quero ter uma atividade independente. Voltar a ser profissional de Direito. Sentar em meu escritório, que está fechado há mais de trinta anos – ou em outro local onde possa advogar as causas que mais me interessem, prestar algum tipo de Assessoria ou de Consultoria, emitir pareceres, enfim, ser um profissional do Direito. Quem sabe a gente montar uma mesinha para nos finais das tardes de sexta-feira, antes de chegar ao Clube do Bode ou em saindo de lá, bater o centro, como a gente chama, e jogar conversa fora. Não quero estar preso aos horários. Pretendo constituir uma empresa familiar e entregar aos mais novos a tarefa de comparecer nas audiências e proceder ao  acompanhamento dos processos. Desejo viver a informalidade, sem agendas obrigatórias. Quero ter a doce irresponsabilidade de deixar de comparecer a alguns eventos, com a compreensão dos amigos nas ausências, em nome de uma fase nova de curtição da vida. Se eu estiver, por exemplo, às 8h da noite no Clube do Bode, batendo papo com os amigos, e tiver algum evento naquela hora, é claro que eu não vou sair. Que me desculpem, mas eu não vou. Necessito de rebeldia às normas e convenções sociais nessa nova etapa existencial. Vou abolir o paletó, que vai ser usado em momentos raríssimos. Cansei de paletó e gravata. Claro que não posso deixar de dar atenção às duas filhas que ficam em Brasília. Serei aquele visitante que quer ser paparicado nas suas viagens à Brasília, para passar dois, três ou quatro meses, sem preocupação com o tempo. Daí para frente, serei o existencialista. Os dias que restarem são para viver a vida da forma mais gostosa e irresponsável possível. Minha santa mulher que me agüente.

JOÃO SOARES NETO:O que é o mundo? E você no meio dele?

UBIRATAN AGUIAR: Há um mundo interior e um mundo exterior. A melhor coisa é quando seu mundo interior está em paz com o mundo exterior. No mundo exterior, há muita coisa bonita, há muito para se aprender. Há também muito de tristeza e de coisas que desagradam, mas que independem de nós consertá-las. Você poder consertar a droga que contamina a juventude? Você poder consertar a miséria que mata de fome tanta gente? Você pode consertar o egoísmo e a inveja, que alimentam tantas pessoas? Não é um ato que dependa de qualquer um de nós. O mundo exterior nos mostra isso. Mas mostra também coisas belíssimas. Mostra gente da melhor qualidade, exemplos de virtudes, cientistas que ficam nos seus laboratórios pesquisando a cura para as doenças, pesquisando outros mundos, outras vidas, para melhorar o bem estar das pessoas com seus inventos. O que seria hoje da humanidade sem o avião? E o que dizer da televisão, como fonte de entretenimento e informação? Embora algumas coisas, ao meu ver, necessitem ser revistas nas programações. O que dizer do telefone que encurta as distâncias? Então, necessário se faz reverenciar todo o dia esses cientistas, pesquisadores e intelectuais que trazem lições existenciais em seus escritos. Realmente, o mundo exterior é o conjunto de tudo isso que eu acabei de falar. O mundo interior é o mundo da construção individual. Procuro fazer com que meu mundo interior seja como aquela fábula da ave no incêndio. Quero contribuir, fazendo minha parte, para que as coisas melhorem no mundo exterior.

No meio do mundo, sinceramente, sou um abençoado. Recebi muito mais do que dei. Recebi mãos que me apoiaram, ensinamentos que me foram úteis. Recebi solidariedade no momento em que precisei de solidariedade. Só tenho a agradecer. Nem com todos aconteceu o que aconteceu comigo. Em meio ao mundo, sinto-me um privilegiado de Deus e dos meus amigos.

JOÃO SOARES NETO:Os políticos têm eleitores. Os ministros tem admiradores. E daí?

UBIRATAN AGUIAR: Olha, eu vejo que os políticos também têm admiradores. Eu disse aqui que um Mário Covas, um Ulisses Guimarães, um Virgílio Távora detiveram minha admiração e fui eleitor deles. Fui eleitor porque os admirava, porque vi que realmente mereciam meu voto. Os ministros, não sei se têm admiradores. Sei que tenho meus amigos. Sei também que nem todos os que dizem que me admiram são meus amigos. Às vezes são amigos do ministro e admiradores do ministro. Prefiro aqueles que são amigos e admiradores do Ubiratan, pelas minhas virtudes ou pelo conjunto de virtudes e defeitos que conduzo. Os admiradores do ministro são nuvens passageiras; prefiro as nuvens permanentes, carregadas d’água, que venham fecundar a vida. 

JOÃO SOARES NETO:Você acredita que o Brasil possa ser realmente um país mais justo com seu povo? Quando?

UBIRATAN AGUIAR: Primeiro, quando houver um nível de politização em que as pessoas escolham representantes que se elejam para servir e não para se servir. Que o processo de formação nasça, exista, fecunde na escola e prospere em todos os lares, pois não basta ser somente um bom profissional. Repito: tem que ser um bom cidadão. O Brasil, para ser um país mais justo com seu povo, primeiro tem que dar um banho de cidadania. E esse banho é o processo de formação. Os valores que constituem o patrimônio interior, moral, ético e de formação religiosa. Sem isso, não vamos pôr cobro à injustiça na sociedade. Só vamos alcançar um país mais justo no momento em que o povo se rebelar e cobrar vergonha, firmeza e decisão dos que formam a elite dirigente do país.

JOÃO SOARES NETO:O Ceará está no rumo certo ou engatinha entre os ventos das praias e o calor do sertão?

UBIRATAN AGUIAR: Acho que os ventos das praias e o calor do sertão enchem a alma e os olhos, encantam a vida, mas não dão o rumo certo para o nosso Ceará. A não ser que o vento aponte para o turismo. A não ser que o calor do sertão clame pela fixação do homem no campo, pois a necessidade de mão-de-obra no campo evita que o cearense migre como seringueiro no Norte, candango em Brasília, soldado da borracha no Acre, ou ainda em atividade marginal nas periferias de São Paulo e do Rio, onde vão constituir outras famílias, abandonando as suas e agravando o quadro social. No momento em que os ventos da praia alimentarem o turismo, montando uma infra-estrutura que atraia o turismo interno e externo, haverá a geração de empregos e riqueza para o Estado. Desejo ver o vento soprando no sertão, em direção à  industria, à agricultura e no processo de integração das bacias, gerando emprego para a população. Seja essa imagem formulada na pergunta, dos ventos das praias e do calor do sertão, o farol que ilumina os governantes na produção e na geração de novas fontes de emprego.

JOÃO SOARES NETO:Que frase gostaria de ter dito e em qual situação teria proferido?

UBIRATAN AGUIAR: “No instante em que o homem conduzir suas ações movidas pelo sentimento do amor, onde devem estar presentes a solidariedade, a fraternidade e o poder de rever os seus próprios atos, teremos um mundo melhor”. Gostaria de ter dito isso em todos os momentos da vida, um a um, em especial. Neste mundo cada vez mais máquina e materializado, devemos propagar os valores d’alma sempre que tivermos chance. Seja a mais simples ou a mais solene situação, a gente não pode perder essa oportunidade. Eu diria mais: você já imaginou se todos os dias, ao andar pelas ruas, fazer caminhada, freqüentar os shopping’s, pegar transportes coletivos, enfim, se todos os dias em que nos encontrarmos diante de aglomerados humanos dissermos “Bom dia! Como vai?”, ou “Tenha um dia feliz”? Creio que essa mensagem diminuiria muito do ódio, da violência, da agressão, do palavrão do motorista que se impacienta no trânsito; teríamos um processo de reconstrução da sociedade.

JOÃO SOARES NETO:O que é maturidade? Como encarará a velhice?

UBIRATAN AGUIAR: A maturidade é resultado das experiências que tiveram êxito e das que fracassaram. É o momento em que o homem se sente maduro na reflexão, em que ele combina o vigor da juventude com o talento fruto da experiência do dia-a-dia, formatando algo que, na velhice, se converte em sabedoria. Por essa razão é que os povos mais antigos buscavam nos conselhos dos mais velhos, os sábios, os ensinamentos da vida. A forma empírica como o conhecimento se transmitia fazia com que aqueles mais vividos detivessem a caixa da sabedoria e pudessem derramar para os mais novos o que haviam aprendido. Era a transmissão do saber, das experiências, do conhecimento. E é dessa forma que nós devemos encarar a velhice, como uma alternativa de servir mais e ajudar na caminhada dos mais novos.

JOÃO SOARES NETO:Ubiratan, se você nascesse de novo, faria tudo o que fez novamente?

UBIRATAN AGUIAR: Essa pergunta já me fiz algumas vezes. Eu diria que praticamente faria tudo quanto já fiz. Procuraria apenas corrigir alguns momentos em que me deixei vencer muito mais pela raiva, que não constrói, pela mágoa, que não ajuda a viver, pelo ressentimento, que arruina. Eu teria tentado ser mais leve do que acredito que sou. Se começasse tudo de novo, tenho certeza de que faria tudo direito, porque entendo que o advogado cuida do bem maior da pessoa humana, que é a liberdade. Eu teria sido professor mais uma vez, porque vejo no mestre um formador de gerações; em cada aluno vai um pouco do interior de cada um de nós, professores, vai uma partícula de conhecimento, de ensinamento. Voltaria a constituir família e a construir uma base sólida de amigos. Em alguns momentos, me pergunto se a idade em que casei, aos 19 anos, foi a melhor idade. Por um lado, talvez fosse melhor ter casado em uma idade mais madura. Mas, por outro lado, eu ter me casado novo me fez aprender a trabalhar muito cedo e a adquirir responsabilidades. Então, até sob esse aspecto não me arrependo, pois permitiu que amadurecesse mais cedo e me preparasse para os embates da vida.

 

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