ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS

21/02/2013

Boa noite a todos.
Caro presidente José Augusto Bezerra.
Caro………………………….., em nome de quem saúdo todas as autoridades integrantes da mesa.
Queridos Iracema, minha mulher; Alessandra, minha filha; Luana, minha neta; e irmão José Caminha de Oliveira, em nome de quem saúdo todos os componentes da minha família: filhas, irmãos, netos, genros, sobrinhos e demais parentes. Meus prezados Paulo e Cláudio, em nome de quem saúdo os membros da família Vale.
Senhores membros da Academia Cearense de Letras,
Colegas da Academia Fortalezense de Letras, da Associação Brasileira de Bibliófilos do Brasil, do Fórum de Líderes, da Sociedade Consular, e demais entidades das quais faço parte.
Caros companheiros de trabalho.
Colegas das faculdades de direito e administração.
Autoridades presentes.
Senhoras e senhores,
Reverencio, por justiça, todos os membros perecidos desta Academia nas figuras de Natércia Campos, amiga querida; de José Maria Barros Pinho, colega de faculdade, de lutas universitárias e de letras; e do Reitor Antônio Martins Filho, um dos maiores empreendedores cearenses de todos os tempos.
Confesso não ser tribuno. Vou falar com a razão molhada pela emoção. Do jeito como escrevo.
Peço, com acatamento, a atenção a todos. Ouçam, por favor. Silenciem, se possível.
Nesta noite, quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013, na imensidão da abóbada celeste ainda não de todo desvendada, paira o planeta Terra, no hemisfério sul, no Brasil, no Ceará, em Fortaleza, com a lua em quarto crescente, quase um plenilúnio. Somos apenas um nano ponto no Universo.
Desde 2000, a United Nations Education, Scientific and Cultural Organization – a UNESCO, responsável pela Educação, Ciências Naturais, Humanas e Sociais, Cultura, Comunicação e Informação, consagra este mesmo dia 21 de fevereiro como o Dia Internacional da Língua Materna. Estamos a fazer isto nesta noite solene. Cultuamos a linguagem mãe, a língua de Camões e Machado.
Ocupamos agora o centro histórico de Fortaleza, na Rua do Rosário, defronte à Igreja dos Homens negros, asilo de segregados pela escravatura envergonhadora.
Santuário esse ressaltado e descrito em tintas pelas pinturas e pelas músicas sincopadas no ritmo afro de Descartes Gadelha.
Peço licença à Acadêmica Beatriz Alcântara, e recorro a Fernando Pessoa, não o do lugar comum. Ele fala: “Viu-se a terra inteira de repente/surgiu redonda do azul profundo”.
Somos transitórios na vida. Do albor do nascimento ao ocaso da finitude, passamos todos, sem distinção do saber ou ter.
Reverencio os 119 anos desta Academia de Letras. Ela é, ao mesmo tempo, fortalezense como eu. Ela é cearense como já o desejava Thomaz Pompeu a exortar seus coevos a ter “a serenidade de investigadores da verdade”.
Reconhecer isso é ato de maturidade. A imortalidade, se acontecer, dar-se-á pós-morte, por conta da futura análise de nossas vidas concretas e das letras escritas.
Dizia o filósofo americano Waldo Emerson: “Everything in the universe proceeds by indirection. There are no straight lines”. “No Universo tudo procede por vias indiretas. Não existem linhas retas”.
Agradeço, reconhecido, aos 22 acadêmicos a me honrar com os seus votos. Esta é a linha e a via do reconhecimento.
Também é hora de pedir permissão a todas acadêmicas e acadêmicos para sentarmos lado a lado, em fraternidade. A todos. Confreiras e Confrades, os meus respeitos.
Vós sois a referência da cultura e das letras alencarinas.
Aos eleitores dos outros candidatos, agradeço igualmente, pois a academia deve primar pela diversidade de pensamento. Não o hegemônico, e sim o plural e sem preconceitos.

Lembro, cara acadêmica Marly Vasconcelos, ausente por falecimento de pessoa de sua família.
A cultura e a sociedade cearenses estão reunidas, para honra nossa, nesta posse, na cadeira 35, patroneada por Thomaz Pompeu.
Ele começou a escrever aos 20 anos, no jornal O Cearense, do qual depois foi dirigente.

Recorro à acadêmica Ângela Gutierrez para falar de seu bisavô, fundador e primeiro presidente desta casa. Ângela, em discurso aqui proferido, quando da comemoração dos 105 anos da entidade, destacar as suas múltiplas faces de jornalista, professor, pesquisador de história, geógrafo, educador, administrador público, pensador, homem de letras e, last but not least, empreendedor.

Sobre essa face singular a sua bisneta refere:
“Por que relembrar o empreendedor, o pioneiro, que fundou a primeira fábrica de fiação e tecidos do Norte-Nordeste, atentando para o aproveitamento de nossa vocação algodoeira, que foi sócio majoritário e gerente da primeira Companhia de bondes do Outeiro, que foi fundador e presidente do Banco do Ceará, do Centro Industrial e da Associação Comercial, colaborando para o progresso da terra, na crença de que progresso e ciência deveriam andar de mãos dadas”.

Fica claro e insofismável, caro colega Ednilo Soárez.
O patrono da cadeira 35, o fundador, Thomaz Pompeu, seu primeiro presidente indicado para dar o nome a esta casa, era um empreendedor.

Caro acadêmico Cid Carvalho.
Ouso falar agora na sua vivência e dimensão espiritual estudada, compreendida e exercida.
Evoque, Senador Cid Carvalho, os seus irmãos do além e transmita, se crível, a Thomaz Pompeu, uma mensagem:
Ele foi, por caminhos ínvios, uma referência para mim.
Modus in rebus, peço vênia:
Ele era formado em Direito. Também cursei Direito.
Thomaz Pompeu era administrador público. Também o fui.
Ele era pesquisador de história. Procurei sê-lo ao dirigir, por anos, profissionais de nível em diversas áreas do conhecimento, inclusive história e geografia, e dirigir / coordenei mais de 20 Planos Diretores de Desenvolvimento Econômico no Nordeste.
Agora, se consegui, é outra história. Tentei com afinco.
Ele grande; eu, apenas um aprendiz.
São estes os meus parcos dotes.
Dr. Thomaz Pompeu, posso ocupar a sua cadeira? Tentarei não desapontá-lo. Ilumine-me.
Por tal razão, caro acadêmico Virgílio Maia, ele foi douto, exponencial em tudo isso e está no panteão desta Casa.
Agora, vou contar como comecei a gostar de livros e da escrita. O meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, foi seminarista franciscano, colega de internato do professor Rebouças Macambira, e dali fugiu para casar com Margarida, moça bonita, sobrinha recatada e tutelada pelo Padre João Saraiva Leão. Viveram juntos por 50 anos. Ele era leitor voraz de romances policiais e comprou de José Maia para presentear-me, nos meus 15 anos, uma biblioteca com muitos livros de autores diversos, estantes em madeira e vidro. Em uma delas havia entalhada no frontispício a palavra Atheneu, em homenagem a Raul Pompeia. Começava aí o meu noviciado.
Esse menino escrevia diários, lia de forma continuada, ia a cinemas quase todos os dias e possuía ficha de empréstimo de livros na Biblioteca Pública, então na Rua Solón Pinheiro, vizinha ao Ibeu, Instituto Brasil Estados Unidos, onde procurava aprender a língua inglesa.
Aos 16 anos, fui levado por Dorian Sampaio, amigo dileto e colega de vereança do meu pai, o já citado Francisco Bezerra de Oliveira, ambos no além-mundo, para falar aos membros do Centro Cultural Humberto de Campos, uma presumível dissidência do Grupo Clã.

Não me lembro das minhas palavras. Ouvi, nervoso, palmas e comentários do Dorian e dos seus confrades. Eles diziam: “Esse menino promete”.

Caro acadêmico Juarez Leitão
Em seguida, fundei e presidi o Girafa, um clube de jovens e adultos onde praticávamos esportes, líamos e debatíamos temas sérios em júris simulados. Lembro até de ter sido defensor de Iscariotes. Ele foi absolvido. Judas, argumentava eu, seria um instrumento para cumprir um desígnio maior.
O Juiz de direito José Carneiro, a me suceder na presidência do Girafa, em 23 de junho de 1958, e a historiadora Valdelice Girão, então integrante do Conselho Superior da entidade, lembram-se dessas folganças. Naquela noite, esteve presente, entre outros, o escritor e poeta José Alcides Pinto, conforme relato em tinta preta, na página 41 do meu diário daquele ano. Guardo-o.
Em novembro de 1962, Pedro Henrique Saraiva Leão convida-me para substituí-lo na coluna diária “Informes Acadêmicos”, no jornal Correio do Ceará. Ele viajaria à Alemanha para aperfeiçoar-se na língua de Goethe. Agradeci e aceitei.
Cara poeta Giselda Medeiros.
Tomei gosto pela coluna e, acidentalmente, o jornalismo aproximou-me da Academia Cearense de Letras. Fui um dos divulgadores e um dos frequentadores do Curso de Arte e Literatura, coordenado pelo professor Artur Eduardo Benevides.
A aula magna de abertura, na noite do dia 12 de outubro de 1963, foi proferida no salão nobre da Reitoria pelo professor Parsifal Barroso sobre a música brasileira, especialmente Villa-Lobos, Alberto Nepomuceno e Ernesto Nazaré.
Era o primeiro “flirt” de um jovem universitário com a Casa de Thomaz Pompeu.

Caro acadêmico Dimas Macêdo.
Voltando à lide do jornal, o Diretor e empresário jornalístico Eduardo Campos, condômino dos Diários Associados e industrial, sem prejuízo de suas participações nesta Academia e no Instituto do Ceará, das quais foi presidente, dois anos depois convida-me para escrever outra coluna diária, sobre “Administração e Negócios”.

Foram anos naquele jornal, meu caro Eduardo Augusto. O salário recebido a cada mês era importante, pois havia outras tarefas a cumprir. Fazia, ao mesmo tempo, duas faculdades e trabalhava.
Dou um pulo no tempo e em outro novembro, este de 2012, o professor Pedro Henrique rides again na minha vida e me provoca: “Chegou a sua hora. Candidate-se. Estarei ao seu lado”.
Já havia firmado um princípio: não me candidataria à Academia em vaga por falecimento de amigo.
O professor Alberto Oliveira era de geração anterior à minha. Não havia impedimento moral. Inscrevi-me.
Outros três pretendentes também o fizeram.
Na campanha usei apenas os Correios, mototáxis, telefone e a Internet, sem visitar ou importunar a privacidade domiciliar ou profissional dos acadêmicos. Cumprimentei os dignos contendores e os respeitei. Acreditava no meu percurso cultural, nos sete livros já publicados e no apoio denodado de uma plêiade de acadêmicos cidadãos, a partir do poeta Virgílio Maia.

No dia 29 de janeiro último fui eleito com 22 votos, maioria consagradora e, a partir de hoje, 21 de fevereiro de 2013, conforme contagem rigorosa do acadêmico Murilo Martins, serei o centésimo octogésimo sexto (186º) integrante desta Casa de Letras. A mais representativa da cultura do Ceará, Estado hoje com oito e meio milhões de habitantes.

Cara Acadêmica Regine Limaverde, chegada dos EEUU, véspera da eleição.
Saiba ter sido o acadêmico Pedro Henrique Saraiva Leão o condutor desse pleito árduo. A posição dele foi aberta, decidida e catalisou forças. A ele já disse: muito obrigado. Repetirei, agora, por justiça e prazer: Danke shoen, Dr. Pedro.

Deixei por último o agradecimento já feito à Iracema Vale, minha mulher. Ela me manteve sereno ao dizer, todos os dias: vai dar certo. Assim o fiz. Assim o foi. A ela, mais uma vez, o meu obrigado.

Insigne acadêmico Napoleão Nunes Maia.
Agradeço seu modo gentil e franco em oferecer-se para saudar-me, desde antes da eleição, com o posterior agreement da presidência.
Sou grato por suas doutas palavras. Elas, por sua fé de ofício e trajetória ascendente como advogado, professor universitário, magistrado federal de carreira, hoje ministro de tribunal superior e intelectual, homenageado ontem pelo Tribunal Regional Federal da 5ª. Região, em Recife, com a mais alta condecoração, a Medalha da Ordem do Mérito Pontes de Miranda.
Suas credencias deram visibilidade e fulgor a cada passo do meu singular percurso cultural. Obrigado, acadêmico Napoleão Maia.

Caro acadêmico Pe. Manfredo Ramos.
tudo na minha vida foi construído com a energia, a fé e a coragem recebida dos meus pais, dois vencedores. Educaram nove filhos, todos em colégios particulares e com educação superior.
Tive a coragem, cedo despertada, para a inquietude, a aprender não o usual e sim o inédito. Germinar idéias e realizá-las. Aprendi isso em uma família com destemor e unida. Dona Margarida, minha mãe, aos 93 anos, é de uma inteligência e presença de espírito notáveis.
Vou contar um episódio recente: véspera do último Natal, perguntei-lhe: “Qual vai ser o meu presente?” Ela respondeu de bate pronto: “Podem ser as minhas mazelas?” Ela é assim. Se sou incisivo, é genético. Meu pai dizia: “Seja simples. Não se curve a ninguém”.
Cumpri o prometido, meu pai.

Caro acadêmico Mauro Benevides, a quem agradeço o registro desta solenidade nos anais do Congresso Nacional.
Sou impetuoso por ser visionário, e isso eu descobri lendo, estudando, aprendendo a escrever, admitindo erros, e pesquisando aqui e por continentes afora em viagens de trabalho, treinamento, cursos, seminários, congressos, palestras e debates com professores.
Faço tudo do meu jeito meio sem jeito. Não uso a vida como artimanha. Penso ser obrigatória a discrição pessoal no agir e no servir. Recolhi de Miguel de Cervantes, no clássico Dom Quixote, o ensinamento: “No puede haber gracia donde no hay discrición”. Não pode haver encanto onde não há discrição”.
Se desejei empreender, ler, viajar, escrever e estudar, não foi trabalho. Foi prazer. Sonho empenhado e cumprido.
Caro acadêmico Batista de Lima,
Acreditava e ainda creio: a cada dia a minha vida se encerra e recomeça na alvorada seguinte. Por tal razão, concordo com François-René de Chateaubriand, nascido em Saint-Malo, cidade pequena e linda, quando dizia: “Tous mes jours son des adieux”. “Todos os meus dias são adeuses.”

Caro acadêmico e Professor Emérito Paulo Bonavides, de quem fui aluno em três momentos distintos: na Escola de Administração, no bacharelado e, depois, na pós graduação da Faculdade de Direito da UFC. Sua presença é um voto de confiança. Honrá-lo-ei.
Volto a falar de seu colega e estudioso da ciência política, o professor Parsifal Barroso.
(Destaco as presenças do seu filho Régis Filho, meu colega na Faculdade de Direito e Igor Barroso seu neto).
Ele era governador e só possuía um carro de representação. Por conta disso dei-lhe carona, várias vezes, em meu simplório Anglia. O amigo Rui Filgueiras Lima era guapo oficial de gabinete do governador.

Senhoras e Senhores.
Ilustre Corregedora da Procuradoria Geral do Estado Cláudia Martins.
Este Palácio da Luz era um próprio do Estado e foi graças à audácia e perseverança da petição bem instruída do acadêmico e presidente da ACL, o notário Cláudio Martins, para aparecer um empreendedor e administrador, Tasso Ribeiro Jereissati, no exercício do Governo do Ceará, com descortino para doá-lo, em 1989, à Academia Cearense de Letras, então asfixiada em salas do Edifício Palácio Progresso.

Cara acadêmica Noemi Elisa Aderaldo, sobrinha do meu professor, Mozart Soriano Aderaldo, ilustre membro desta Casa
Por justiça, engrandeço-me haver sido precedido, em linha sucessória, por acadêmicos do quilate de Cândida Galeno; do poeta Cruz Filho; do médico e intelectual Argos Vasconcelos; e do historiador, intelectual e sacerdote Alberto Nepomuceno de Oliveira, depois professor Alberto Oliveira.
Alberto Oliveira nasceu em Pacatuba, terra natal do acadêmico Eduardo Campos e do Presidente de Honra desta ACL, o príncipe dos poetas cearenses, Artur Eduardo Benevides, na lucidez de seus 90 anos.
Alberto Oliveira estudou no Seminário da Prainha. Ali se ordenou padre, em 1949. Depois, formou-se em direito, licenciou-se em filosofia; em sociologia, na Itália; em pedagogia, na França; e foi a Israel fazer atualização pedagógica.
Era, igualmente, mestre da UECE e da Universidade Federal do Ceará. Escreveu, entre outros, os seguintes livros:
– Droga, um perigo nacional; Juventude, Crise e Educação; Projeto de educação Antitóxico; Educação Libertadora de Paulo Freire; e Ressonâncias.
Fácil é ressaltar haver na escritura do professor Alberto Oliveira uma preocupação objetiva com os jovens brasileiros, hoje a morrer às centenas em baladas de fogo. Temos milhões deles submergidos nas drogas, um endêmico problema nacional a precisar mais de soluções e menos de promessas.
Além de toda a sua titulação meritória e produção cultural, o professor Alberto Oliveira teve a coragem, a sensatez e a hombridade de deixar a vida clerical para, como é próprio da natureza humana, amar e casar-se com a Sra. Edna Oliveira, aqui presente, e constituir uma família cristã, com três filhos, tendo a sua fé permanecida intacta. O celibato não é dogma de fé. É ordem impositiva. Por esta questão e intrigas outras, Joseph Ratzinger renunciou.

Caro Acadêmico
Veja como as coincidências perseguem esta narrativa. Em um sábado, 11 de setembro de 1963, exatamente, na mesma página, ao lado da minha coluna “Informes Acadêmicos”, no Correio do Ceará havia um artigo do então padre Alberto Oliveira, sob o título: “A eternidade no Presente”. Dele, em certo trecho, lê-se: “a vida é a preparação para a morte”. Hoje, quase 50 anos depois, estamos relembrando e celebrando a sua vida.
De fato, ele já estava preparando a sua eternidade, ou ser imortal, no sentido acadêmico.

Desculpem, senhoras e senhores, o tempo decorrido. Não quis fazer uma homília.
A todos, mesmo assim, peço licença para uma reflexão final sobre a pesquisa, de janeiro deste 2013, do Instituto Ibope Media sobre leitura.

Imagine, caro professor e acadêmico Sânzio de Azevedo.
Entre nove capitais brasileiras, Fortaleza ficou em último lugar em índice de leitura. Dos entrevistados, somente 23% dos fortalezenses havia lido um livro nos últimos 30 dias. No país, como um todo 73% das escolas públicas não possuem bibliotecas. A média de livros lidos por brasileiros é de apenas um livro por ano.
Com amargura, o romancista maior e fundador da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis, já falava sobre o Brasil do seu tempo afirmando:
“Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu País. ‘O país real’, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o ‘país oficial’, esse é caricato e burlesco”.

Ilustre acadêmico e professor Genuíno Sales.
Só pela educação e pela cultura seremos livres e soberanos para cuidar do presente e sonhar num futuro com alvíssaras. É tempo, quem sabe, de se diminuir o culto a celebridades, rever as programações das emissoras, peritas em deformar a realidade. Talvez repensar os gastos da Petrobras com caravanas de todas
as naturezas e a patrocinar a Fórmula Um. É tempo, sugiro, de mudar e usar esses recursos desperdiçados em patrocínios amistosos, por exemplo, para a refinaria cearense, tão prometida e nunca cumprida.
É hora de melhorar as escolas públicas, adicionar aulas em tempo integral e disseminar a leitura, desde a educação básica.
Isto é atitude. A cidadania e a cultura do século XXI.

Devemos, repito, lutar pelo desenvolvimento dos jovens carentes e dos adictos, como desejava o acadêmico Alberto Oliveira, através da ajuda a eles próprios e às suas famílias.
É hora do estudo, da informação, do conhecimento e da cultura como corolários neste mundo tecnológico – e pouco cultural – a exigir qualificação para qualquer tarefa ou encargo. A educação e a cultura são chaves insubstituíveis.
A educação e a cultura precisam ser protagonistas da História nos nossos dias.
Como dizia o poeta, ensaísta e prêmio Nobel de Literatura, o mexicano Octavio Paz: “Las masas humanas más peligrosas son aquellas en cuyas venas ha sido inyectado el veneno del miedo… el miedo del cambio”. “As massas humanas mais perigosas são aquelas em cujas veias foi injetado o veneno do medo… o medo de mudar”.
Nós todos não devemos ter medo de mudar o pensar, o refletir e o atuar. Não podemos, por privilégio, ser insulados e acastelados no bem estar e no saber, cercados de problemas das comunidades carentes. Elas nos observam e clamam por respeito, cuidados e atenção.
O Ceará do século 21 brada por educação e cultura para ter massa crítica, lógica nos raciocínios da maioria e não aceitar o atraso como fadário.
Devemos ser mais abertos, menos personalistas, e mais receptivos.
Por essa razão, quando fui presidente da Academia Fortalezense incentivei a criação e a manutenção de academias de letras estudantis, destacando as dos colégios Maria Ester, Dáulia Bringel e Sete de Setembro. Os seus jovens integrantes são parte do futuro do novo Brasil.
Caro colega José Luis Lira, presidente da Academia Sobralense de Letras, a quem peço transmitir aos seus pares o meu apreço, especialmente ao acadêmico Pe. Francisco Sadoc, no seu vigor maduro.
Devemos ocluir o olhar sobranceiro e discriminador.
É preciso procurar a humildade esquecida e ativar os desejos, as sedes de leitura nos jovens, de aprendizado, de conhecimento, com a aptidão de transformar o medo em capacitação a demandar resiliência e cidadania plenas.
Senhoras e Senhores.
Agradeço, de verdade, a presença das autoridades, dos familiares, dos amigos, dos colegas de faculdades, colegas acadêmicos e, especialmente, à diretoria eleita desta ACL e ao presidente José Augusto Bezerra, empresário e bibliófilo, a capitanear esta Casa de letras.
Ela vai singrar com nova vela e equilibrado timoneiro os mares abespinhado da cultura.
Saiba, senhor Presidente, vim aqui não por vanglória. Vim para somar forças. Conte comigo.
Por fim:
Registro com respeito, o nosso dístico: Forti nihil difficile.
Para os fortes nada é difícil. Unidos, seremos fortes.
Deus nos abençoe. Muito obrigado a todos.
João Soares Neto,
21/02/2013

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