Com cartas brancas, senhor cônsul solta Pombos de papel. Erico Veríssimo
Talvez existam algumas coisas a dizer a você. Vejo o meu computador cercado de papéis, livros lidos e não lidos. Não quero falar do que todos proferem. Estou sentado na ponta de uma cadeira, ao contrário do que deveria fazer. Dizem os ortopedistas, os fisioterapeutas e os demais entendidos que essa não é boa postura corporal. Deixa para lá, estou errado. E daí?
Todos estamos envelhecendo. Até a minha neta mais nova fica menos nova a cada dia. Divisei uma foto e não me vi nela. Onde estão os cabelos? O castanho deles? Rarearam e sequer pediram licença. Olho à esquerda e diviso a impressora que nunca uso. Ela é nova ou seminova, pois faz algum tempo que a comprei. Usei-a muito pouco. Vai ficar igual ao meu DVD acoplado à TV. Envelheceu, sem uso.
À minha frente há uma parede repleta de livros. Nela encontro uma “História Universal” de Cesare Cantu, edição de 1965. São alguns volumes com arabescos nos dorsos das capas duras e com letras douradas. Foi caindo em desuso, pois hoje tudo é geométrico, tridimensional e descartável. Está no Google. Para quê História Universal?
Na prateleira acima, vejo “O Rabino”, de Noah Gordon. Na capa há um Menorah aceso com oito velas. Noah escreveu outros livros, entre ele “O Físico”. Folheio “O Rabino” e vejo alguns trechos grifados a lápis (tenho esse e outros defeitos), mas não os reproduzo aqui. Nada de sionismo. Preguiça, apenas.
Ao lado dele, na desorganização absoluta das minhas prateleiras, encontro John Updike em “Uma Outra Vida”. Será que não basta uma? São contos, todavia, e narram sobre mudanças de vida, de países, novos desejos e novos amantes: novas perspectivas de uma vida ‘depois da vida’ para os homens e mulheres destas histórias, mais perto da velhice que da juventude”. Papo furado, gente perto da velhice quer saber do colesterol, do diabetes, da enxaqueca, como anda a pressão medida por essas máquinas compradas em farmácia. Pague Menos, por certo. Ouviu Deusmar?
Agora me dei conta de que ia escrever uma carta, mas paro para desligar a televisão que faz um dueto entre desgraças e novelas manjadas, mesmo que aparentemente intrincadas. Tudo fica ao sabor das pesquisas. Se alguém não interpretou bem, tira-o do contexto flexível do enredo.
Ainda bem que o controle remoto resolve o meu – e o seu – problema. Decido dar por encerrado este artigo, sem a tal carta, sem falar de crise, sem imigrantes, sem terrorismo, sem promessas disso e daquilo. Cá para nós, parece que estou mesmo é sem assunto. Será? Desculpe, se concluir que sim.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/04/2016.

