Já disse e repito. Minhas leituras são desorganizadas. Leio muito. De tudo, razão pela qual não sou profundo em nada. Esta semana, por exemplo, estava a ler o livro “Megalomania de Freud”, escrito por Israel Rosenfield e publicado, em português, pela Companhia das Letras.
Disserta sobre um livro, “Manuscrito”, atribuído a Freud. Explico: Uma neta de Freud, Bernadette Schilder, o apresenta após a morte dele. Ela era, na verdade, neta de Adelaide, amante por longo tempo de Freud. Da relação de Freud com Adelaide nascera Emma, mãe de Bernadette.
Dito isto, vamos ao que interessa. Em meio à leitura há uma referência de encontros entre Sigmund Freud e o arquiteto Maurice Koechlin, nascido na Alsácia, naturalizado suíço. Desses encontros, descubro que Koechlin foi um dos autores do projeto da “Torre Eiffel”.
Koechlin trabalhava nos “Estabelecimentos Eiffel”, empresa especializada em grandes projetos, na Europa e nos EEUU, de estruturas metálicas, tais como pontes, canais, monumentos etc. Nessa época (1885), a França preparava a “Exposição Internacional de Paris” quando seriam comemorados os 100 anos da “Queda da Bastilha” ou “Revolução Francesa”. Seria, mal cotejando, como os preparativos do Rio de Janeiro para sediar as Olímpiadas de 2016.
Gustave Eiffel era empresário altamente relacionado com o governo. Este procurava uma ideia para fincar como marco da Exposição. Foi aí que Koechlin e outro empregado de Eiffel, o engenheiro Émile Nouguier, sugeriam ao patrão que examinasse a ideia da construção de uma torre no jardim no centro de Paris.
Eiffel topou. Após um jantar sugeriu “que poderia explorar melhor a ideia deles por conta própria, propôs comprar os direitos exclusivos à patente, tanto na França como no resto do mundo. Pagaria, a cada um deles, um por cento de toda a renda auferida pela construção (pág.127)”. Houve um concurso para a criação do símbolo. O prazo para a apresentação do projeto foi de duas semanas. Eiffel ganhou. Óbvio.
A “Tour” foi erguida com honra e glória para Eiffel. Esse era um dos “grilos” de Koechlin e, em razão dele, 40 anos depois, foi parar nas mãos de Freud – ambos idosos – pois ganhara apenas “uma esmola”. Nesse “Manuscrito” surge a expressão “auto-engano”.
Koechlin não se conformava, pois além da Torre de Paris, Eiffel, engrandecido, entrara na licitação para a construção do Canal do Panamá, da qual depois fora alijado sob suspeitas, sendo, inclusive, preso. Depois, solto.
Notaram alguma analogia entre a Torre Eiffel e o “Museu do Amanhã”, no Rio de Janeiro? Ambos são estruturas metálicas belas, suntuosas, expostas à visitação pública.
O problema de Koechlin era a desilusão ou “auto-engano”. Passo a palavra a Freud (pág.126): “A moralidade é evidentemente, irrelevante para nossas estruturas sociais e para a nossa estabilidade mental. É nossa paralisia, e não nossa culpa, que caracteriza nossa relação com a autoridade; e essa mesma paralisia é o único desafio moral e psicológico que podemos oferecer àqueles que roubaram o que, por direito, consideramos nosso”.
Qualquer semelhança não é mera coincidência. Se me entendem.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/12/2016.

