JOHN GAY, WEILL, BRECHT E A ÓPERA DOS TRÊS VINTÉNS – Jornal O Estado

“O ritmo tem algo mágico; chega a nos fazer acreditar que o sublime nos pertence”. J.W. Goethe(1749-1832), em Máximas e reflexões, XIII, 6.
Esta semana, vendo apenas a parte derradeira de um filme, fui surpreendido pelo arranjo diferente de música já ouvida, por mim, tantas vezes. De tão ouvida, ouso, mesmo sendo desafinado, assobiá-la. Ela ficou na minha cabeça e decidi revolver um pouco mais de sua história, da sua letra, da sua harmonia, dos seus autores e das inúmeras quantidades de intérpretes que, através dela, fizeram sucesso.
“The Beggar´s Opera” (A ópera dos Mendigos), escrita por John Gay, composta em 1728, com anseio de texto épico, revolucionário, conta a miséria e a situação crítica de desemprego, a vida de criminosos e de mendigos, de então. Para se livrar de questões, a Itália foi usada como o pretenso local da ópera.
Damos um pulo ao começo do século 20. Exato no ano de 1928, quando o compositor Kurt Weill encontra-se com o ainda não famoso dramaturgo Bertold Brecht, ambos alemães. Eles transformam a obra de Gay, na “Die Dreigroschenoper” ou “Ópera dos três vinténs”.
A letra de Brecht produz um anti-herói, Mackie Messer, vilão consagrado, bígamo, charmoso, metido com polícia e assassino. Brecht, tal qual Gay, a situa em outro país. Elege a Londres de então, com misérias, igualmente, como pano de fundo para contar as injustiças sociais decorrentes da implantada Revolução Industrial.
A canção “Mackie Messer” virou “Mack, the Knife” ou Mack, o facão ou navalha, quando foi descoberta, nos anos 20 do século passado, pelos americanos. Tantas foram as traduções do original, quanto os intérpretes, a partir de Louis Armstrong, na versão de Marc Blitzstein. Depois, vieram Frank Sinatra, Bob Darin, outros e, recentemente, até o Michael Bublé ousou cantá-la do seu jeito e modo. O sucesso, como peça, nos Estados Unidos, em New York, começou fora da Broadway, mas virou enxame.
Depois do acontecimento vieram outras adaptações para mais de 18 línguas. Aqui no Brasil, Chico Buarque, em 1978, monta a sua intertextualidade de Mackie Messer como “Ópera do Malandro”, que teve êxito como música, peça e filme. A história, lógico, é apoderada e abrasileirada na música “Malandro”, com o mesmo ritmo, melodia e harmonia da criação de Weill e Brecht. Chico age com liberdade poética. Contextualiza a sua história no Brasil pré-industrial, anos 40, para fugir do rigor da censura vigente.
Os leitores deste texto despretensioso, feito no calor da recordação de música com quase 100 anos de composta, podem procurar – facilmente encontrarão – as muitas versões de “Mack, the Knife”, na internet. Cantoras de vozes potentes, Elza Soares e Alcione, também entoaram a versão brasileira de “Mack, the Knife”.
Glória, pois, a Weill e a Brecht, que souberam divisar na ópera original de Gay os vieses sociais, políticos e revolucionários. No compasso lento emerge, de soslaio, uma história sempre nova, pois fala das fraquezas humanas na figura de um mendigo/marginal, o personagem central. Vale ouvir e conferir a letra, em qualquer versão.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/07/2016.

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