O TRAJETO – Diário do Nordeste

O avião estava na aproximação final e eu olhava absorto pela janela ovalada. Cidade clara, sem favelas, rios fluíam em cursos lentos e arborização abundante. Enfim, o pouso. O “finger” logo aberto. Os passageiros saíam rápido, pois não havia tralhas a levar. Ninguém de bermuda ou chinelo. A comissária despedia-se de cada um com aperto de mão. E sorria, de verdade.
No aeroporto, música suave dava júbilo e as malas já rodavam na esteira. Peguei a minha. O saguão era pleno de obras de arte nas paredes. Fui ao banheiro, limpo. Ninguém escovava os dentes, nem trocava camisa. Leve cheiro de lavanda.
Saí da gare. Havia táxis em profusão, brancos. Entrei no primeiro. O motorista, de uniforme, abriu a porta, deu-me boa-tarde, pôs a mala no bagageiro e perguntou o endereço. Ligou o GPS e mostrou o caminho. Curto, rápido e barato. Do rádio, em tom baixo, despontavam notícias: o último crime passional fazia dois anos; o PIB do país em 3%; gente de todas as raças e gêneros criava cooperativas para gerar renda e emprego.
O sinal fechou. Uma jovem bateu gentilmente no vidro. Deu-me prospecto com fatos da semana. Festival de escoteiros, apresentação de cantor gospel, passeio noturno de velocípedes, jogo de futebol entre dois clubes locais na primeira divisão do campeonato nacional, recital de cantores cegos e, por fim, a inauguração de parque cívico, com dinheiro arrecadado pela população. Alguns muros com hera, casas com jardins e crianças fardadas saíam, em algazarra, de bela escola pública. O carro freou. Ops, acordei.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/06/2016.

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