A SENILIDADE E AS FAMÍLIAS – Jornal O Estado

“Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve”. A. Schopenhauer, filósofo alemão, morto aos 72 anos, em 1860.
A urbanização brasileira, a mudança de hábitos de higiene e de alimentação, o sofrível saneamento básico, o respeito aos avisos dos nossos corpos estão nos dando uma vida mais longa. O Brasil possui hoje 26 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Em contrapartida, o nosso precário sistema previdenciário (INSS) está repleto de aposentados que, por falta do que fazer, agrupam-se em rodas em praças, centros comerciais, bares, ou se quedam em suas casas em torno de uma televisão ou rádio.
Como é baixo o nível de leitura do brasileiro, poucos idosos se apegam a livros. Há aqueles que enfrentam quebra-cabeças, palavras cruzadas e “quizz” para dar uma escovada na teia de aranha mental dos que amanhecem o dia sem ter o que fazer. Vez por outra, amigos vão detectando sinais do que, antigamente, se chamava de “caduquice”. Na verdade, as doenças senis são cruciais. Uma atinge, não só a pessoa idosa, mas toda a sua família, o Alzheimer. O nome é em homenagem ao psiquiatra alemão Alois Alzheimer, que identificou esse mal há 110 anos, em 1906. Ele morreu em 1915, aos 51 anos, de doença cardíaca.
Apesar da sua identificação, não foi encontrada, ainda, a sua cura. Em ensaio para o Valor, a repórter Martha San Juan França apresenta história e dados sobre o que chama de “traição da memória” ou a “ausência da lembrança”. O dado mais assustador é que o “aumento da expectativa de vida deve triplicar o número de pessoas com Alzheimer nos próximos 30 anos”.
Hoje, o Brasil possui, diagnosticados, um milhão e duzentas mil pessoas com demências, das quais 30% recebem tratamento informal e só 37% usam assistência médica. O grande problema para o paciente de Alzheimer, uma das demências, é a dispersão de sua família, posto que não são muitos os filhos e netos que se dispõem a cuidar de alguém que não responde, com lógica, a estímulos e afetos.
Há muita literatura médica sobre o assunto, mas nada que mostre, em curto prazo, a solução razoável. Todas as famílias, inclusive a minha, se deparam com pessoas acometidas com o mal que vai se acumulando bem antes do diagnóstico. Assim, só depois de muito tempo as “esquisitices” vão sendo consideradas como o primeiro sinal. Daí para frente, há um crescendo que prejudica a concatenação da fala e até a ausência do sentimento de pertença.
Ao final, advém o desconhecimento do outro, a não comunicação e o descuido com os cuidados pessoais. É claro que este artigo é de leigo, não tenho formação médica, muito menos de geriatria ou neurologia, mas ele almeja ser um alerta para todas as famílias que, pelo menos, procurem entender os seus idosos. Eles devem merecer atenções redobradas. Neste mundo de dificuldades e de incertezas há uma filosofia de cuidar de si próprio, esquecendo o outro. A pessoa com Alzheimer precisa de cuidadores, familiares ou contratados, que o trate com humanidade e carinho. É preciso ficar claro, com consultas a especialistas exames, que nem toda demência é Alzheimer. Por fim, amar é cuidar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/06/2016.

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