O BRASIL, VICE A VICE – Jornal O Estado

Há tempo, muito tempo, o Brasil nos prega peças. Ou somos nós os que pregam peças ao Brasil? Não há como esquecer fatos históricos acontecidos desde a metade do século passado, época que tomei como partida. Hoje é sexta, 13 de maio de 2016.
Surge Eurico Gaspar Dutra, eleito presidente, com ideias de algibeira, a mando de sua extremada esposa: decretar o fim das brigas de galos, jogos de azar, fechar os cassinos e sobressair uma capela dentro da sede do governo. Fez o trivial. O povo queria Getúlio Vargas de volta, o dadivoso mentor de legislação trabalhista baseada em princípios italianos, de Benito Mussolini, que pressupõem o patrão, vilão, e o trabalhador, vítima.
Eleito, Vargas volta e monta estrutura íntima dentro do Palácio do Catete, incluindo ministros, filhos, jornalistas apadrinhados e curimbabas comandados por Gregório Fortunato. Fustigado por Lacerda e as evidências do crime da Rua Toneleros, opta pelo suicídio, com escrita premeditada, em 24 de agosto de 1954.
O homem baixo, rotundo, arguto e bom orador que veio de São Borja, no Rio Grande, para ser o “pai da Pátria”, por mais de duas décadas, leva milhares à visitação do seu corpo inerme. Vargas foi ditador, mito, impulsionou o surgimento da indústria nacional, mas perdeu a legitimidade por conta dos que o cercavam. O vice-presidente Café Filho assume e tenta comandar governo de transição que desemboca em atritos, crises, substituição e afins.
Surge, então, o audaz, médico e político Juscelino Kubitschek de Oliveira. Eleito em dura refrega, resolve mudar o foco do governo para a construção de uma nova capital, Brasília. Ela surge pelos lápis, réguas T, compassos, transferidores e esboços do arquiteto Lúcio Costa. E assim o fez, gastando no plano piloto e nos prédios projetados por Oscar Soares Niemeyer, o que o governo não possuía. Aumenta a dívida pública em relações de compadrio com empresas construtoras que já conhecia desde Minas. Sai com prestígio popular. Não existia a reeleição.

Entrega Brasília a jato, passa a faixa a Jânio da Silva Quadros, alguém que mereceria análise e ajuda profunda dos seguidores de Freud e de Winnicott. Como tal não aconteceu, Jânio perde a maioria no Congresso Nacional e intenta uma manobra que acaba em mal explicada e patética renúncia.
Naquele tempo, os candidatos a vice eram votados e não faziam dobradinha com os aspirantes a presidente. Outro mês de agosto, agora em 1961. O país fica, por dias, nas mãos de Auro Soares de Moura Andrade, até que se consuma a volta negociada de João Goulart, o vice, que passeava na China da revolução cultural de Mao Tsé-Tung. Políticos, juristas e militares engendram um Jango e Tancredo Neves, como primeiro-ministro. O parlamentarismo não resiste a um plebiscito. Jango passa a mandar, mas não leva jeito nas manhas e artimanhas palacianas.
Em 1964, depois do comício de 13 de março na Central do Brasil – com a inversão da hierarquia militar, no corpo de praças da Marinha – começam as confabulações para a derrubada de Jango. Magalhães Pinto, Lacerda, políticos trânsfugas e militares, entre os quais o cearense Humberto de Alencar Castelo Branco, reúnem-se e tramam. De Minas e São Paulo, avançam os aparatos militares que tomariam o poder.
Não houve tiros. Jango, de boa paz e não bom de gestão, não resiste e se manda para o Rio Grande do Sul. Em seguida, se autoexila em fazenda sua no Uruguai, onde, muitos anos depois, falece. No dia de sua morte havia viajado de avião, de barco e de carro. Janta, passa mal, a assistência médica demora e nasce a ideia de assassinato – por envenenamento – depois desmentida, com a exumação e múltiplos exames de peritos médicos.
Começa o ciclo militar. Duraria mais de 20 anos. Permanece sob a lupa crítica de historiadores, de jornalistas, de cientistas políticos e da Comissão da Verdade. Tancredo, Ulysses, Montoro, FHC, Lula e outros se unem e lutam pelas Diretas Já. Estamos nos anos 80. No meio operário, com a ajuda de religiosos católicos, surge um partido de sindicalistas e de parte da intelligentsia paulista. O PT e Luiz Inácio Lula da Silva inauguram um novo tempo.
Fernando Collor, um carioca-alagoano, com a ajuda de parte da mídia vai eleito. Deu no que deu. Itamar Franco, o vice, assume. E, querendo ou não, faz um bom governo. Café Filho, João Goulart e Itamar, foram vices. Como disse Tom Jobim: “O Brasil não é para principiantes”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/05/2016.

Sem categoria