Recebi, em 1962, do escritor, jornalista e empresário Eduardo Campos, superintendente dos Diários Associados, então maior grupo de comunicação do Brasil, a incumbência de substituir Pedro Henrique Saraiva Leão, titular da coluna diária “Informes Acadêmicos”, no Jornal “Correio do Ceará”. Pedro cumpriria bolsa acadêmica no exterior.
Nesse tempo, o grupo dos Diários Associados no Ceará era composto da pioneira Ceará Rádio Clube (hoje, Rádio Clube-AM), da TV Ceará, canal 2, e os jornais “Unitário”, matutino, e “Correio do Ceará”, vespertino. A coluna “Informes Acadêmicos” durou um ano. Em 1963, comecei a escrever uma nova coluna: “Administração & Negócios” que durou até o ano de 1966. A partir daí, passei a escrever artigos especiais.
Uma pequena digressão: o “Correio do Ceará” fora fundado por Álvaro da Cunha Mendes, em 2 de março de 1915. Nesse ano, ocorreu uma das maiores secas do Ceará, transformando Fortaleza em cidade sitiada, com medo de contaminação trazidas por flagelados do Interior. Criaram-se abrigos (“campos de concentração”, no dizer de Rachel de Queiroz, no romance “O Quinze”, 1930), meros depósitos de gente, nas entradas da Cidade, sendo o principal no então bairro do Alagadiço ou São Gerardo.
Álvaro Mendes pretendia ser independente e, em consequência, face seu destemor, chegou a ser preso no 23º. Batalhão de Caçadores – então localizado no atual Quartel General da 10ª. Região Militar – ao denunciar falcatruas na IFCOS, Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, criada em 1919, depois transformada em DNOCS.
Álvaro era empresário gráfico e manteve o jornal até 1937, quando o transferiu para o emergente grupo dos Diários Associados, comandado pelo paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, inovador da imprensa brasileira, a partir de Pernambuco, depois Rio, São Paulo e, por fim, todo o País. Surgia um grande condomínio de comunicação a incluir jornais, emissoras de rádio, estações de televisão e revistas, entre as quais brilhava “O Cruzeiro”.
Esse condomínio fechado compartia o poder em estados brasileiros, entre outros, com o já citado Eduardo Campos e Paulo Cabral, dirigente e locutor da PRE-9, Ceará Rádio Clube. Esse, em campanha para angariar mantimentos a flagelados da seca de 1950, ficou tão popular que conseguiu ser eleito prefeito de Fortaleza, entre janeiro de 1951 e março de 1955.
Foi, em seguida, eleito deputado estadual, mas o olhar clínico de Chateaubriand o transferiu para Belo Horizonte e, em seguida, ali sedimentou parte da presença dos Diários Associados. Deslocando-se, em seguida, para Brasília, já centro do poder.
Em 1970, em choque com o Governo Militar, a Rede Tupi (o símbolo era um pequeno índio) nome dado por Chateaubriand ao arquipélago de televisões, perdeu a força. Consolidava-se, a partir daí, a hegemonia da Rede Globo, da família Marinho, que fundara o Jornal O Globo, em 1925.
Os jornais “Correio do Ceará” e “O Unitário” funcionavam na Rua Senador Pompeu, no centro da cidade, perto da Tipografia Progresso, em imóvel que ia até a Rua General Sampaio. No nível da entrada, trabalhava a administração dos jornais; em seguida, ficava o espaço da redação, não nos moldes de hoje, mas com ortodoxas máquinas de escrever, não as elétricas, que só vieram depois.
Do meio para o fim do espaço do casarão – que ia da Rua Senador Pompeu à Rua General Sampaio – funcionavam as oficinas. Era o tempo da composição a chumbo nas linotipos (A line of type), máquina criada no final do século 19. Nas oficinas, o calor era escaldante. Pois foi lá que mourejei até o dia 22 de agosto de 1969, quando escrevi o artigo “O 5º. Aniversário do BNH no Ceará”.
Nesse artigo relato: “Na evolução do programa habitacional foi proposta e aceita pelo Governo do Estado a transformação da Companhia Cearense de Sondagens e Perfurações em Companhia Cearense de Saneamento”, atual Cagece. No fecho, destaco: “Este balanço que fazemos à guisa de esclarecimento demonstra que cerca de 80 bilhões de cruzeiros velhos foram carreados pelo Ceará em apenas três anos, provocando um surto animador na economia cearense, isto sem falar no número de moradias entregues para pagamento em longo prazo”. Era o tempo do BNH.
Começava eu, nova fase profissional, deixando o batente diário de jornal e tornando-me colaborador semanal deste Jornal O Estado e do Diário do Nordeste.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/10/2016.

