Todos, no Brasil, resolveram cobrar o outro. Cobram fraternidade expansiva, como se a maledicência e o uso indevido das confidências não fossem uma fraqueza do ser humano.
Falo de gestos, querendo significar atitudes, posturas, comportamento. O gesto conhecido, com testemunhas e datas marcadas, não deve ser o que mais representa e importa. Parece-nos que a exposição, a divulgação e o conhecimento reduzem os gestos a uma mera pantomima. O que deve importar a cada um não é esperar gestos dos amigos, é descobrir – cada um a seu modo – a maneira de enriquecer a relação ou dignificá-la por paradoxal que pareça, até com o silêncio.
A prestação de contas de cada pessoa é com a sua consciência, a sua crença ou os seus valores. Não acrescenta muito deixar que se saiba ou transparecer o que se faz em benefício do próximo.
Truísmos? Talvez. O fato é que a sociedade e as pessoas próximas nos veem não como somos, mas como imaginam que somos. Cada um refere o próximo a partir de seus próprios valores e do grau maior ou menor de empatia, simpatia ou antipatia que nutre.
Os grupos, as famílias, os companheiros de trabalho e os partidos políticos devem procurar uma nova equação para o relacionamento, não aferindo as reações do próximo com meros atos contrários aos nossos sentimentos, interesses e desejos, mas com manifestações de liberdade, de independência e do exercício do direito de viver.
É claro que tudo isso passa por uma peneira, que é a própria interação, a afinidade, a benquerença, a forma de pensar e o amor.
O filósofo Emmanuel Kant, na sua obra “Crítica da Razão Pura” faz a distinção entre coisas e pessoas. Segundo ele, o que diferencia coisas de pessoas é o valor. O valor das coisas é extrínseco, atribuído a elas por terceiros e se chama preço. O valor das pessoas é intrínseco, faz parte delas, não é atribuído por ninguém e é o que se pode chamar de dignidade. Assim, é que atitudes não devem ser classificadas como produtos para que nosso “preço” perante terceiros seja aumentado.
Atitudes não são meras representações ou dispêndios financeiros. Vêm lá do fundo, onde moram ou devem morar o que cada um tem de mais caro. Cada um careceria lembrar o que disse certa vez Abraham Lincoln: “Faço o melhor que sei, o melhor que posso, e o faço até o final. Se ao fim de tudo deu certo, o que dizem contra mim não importa. Se o fim resulta num erro total, dez anjos sussurrando em meus ouvidos que eu esteja certo não farão a menor diferença”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/09/2016.

