Enquanto o Brasil se debate com o desemprego de 12 milhões de pessoas, Cingapura, uma ilha-Estado, na Ásia, utiliza robôs para driblar a falta de mão de obra. Lá, dizem, estrangeiros pobres não são bem-vindos.
A notícia é do Financial Times, de Londres(via Valor), em reportagem de Jeevan Vasagar. Ele escreve: “São muitos os que temem os avanços rápidos da inteligência artificial na Europa e nos Estados Unidos, em meio aos alertas de cientistas sobre o desemprego em massa. Em Cingapura, contudo, onde as restrições à mão de obra estrangeira deixam muitas empresas em dificuldades para encontrar pessoal, as corporações de serviços encontram cada vez mais soluções automatizadas para contornar a falta de trabalhadores”.
O progresso da robótica nos deixa boquiabertos. No começo do século 20 Henry Ford criou a linha de produção em série para produzir carros da mesma marca e da mesma cor, preta. Eram homens nessa linha de montagem. Lembram de “Carlitos” no filme “Tempos Modernos”?
Hoje, depois do uso científico do silício, do chip, do computador que, juntos com o homem, formam a tecnologia da inteligência artificial, há um paradoxo a ser resolvido. A Organização das Nações Unidas-ONU e a Organização Internacional do Trabalho-OIT acreditavam e afirmavam: em 2030 não haverá mais desempregados no mundo. Quimera.
Com a já quase certa troca de milhares de motoristas por robôs para pilotar grandes caminhões transportadores nos Estados Unidos, haverá greves e afins nos próximos anos. Digamos, na próxima década. Pelo que sabemos os sindicatos dos motoristas de caminhões de carga de lá não vão deixar barato essa situação.
Hoje, 2016, há 156 milhões de indivíduos que vivem entre a extrema pobreza (menos de US$ 1,90 por dia/ pessoa) ou de pobreza moderada (de US$ 1,90 a US$ 3,10 por dia/pessoa). Na África do Norte, o nível de desemprego chega a 30%. Nos países emergentes, grupo onde o Brasil está incluído, há falta de emprego para 13,6% da população.
Nos países desenvolvidos, incluindo Estados Unidos e Europa, há uma taxa de 14,5% de desemprego que tende a aumentar por conta da imigração via Mar Mediterrâneo sem parar de crescer. Apesar das milhares de mortes nas travessias em balsas e navios sucateados, alugados a mercenários.
Em 2015, 248 mil robôs foram vendidos, segundo informações da Federação Internacional de Robótica. Assim, se de um lado cresce o desemprego, do outro surgem soluções como o robô humanoide Pepper, produzido pela SoftBanks Robotics.
Pelo que se vê, o desemprego e a indústria robótica crescem em linhas paralelas. Como se sabe, as linhas paralelas só se encontram no infinito. Enquanto isso não acontece, o mundo vive a perplexidade desse descompasso entre o progresso inevitável e o atraso não reduzido ao redor do mundo. E então?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/09/2016.

