CAPIM ALTO – Diário do Nordeste

Quando você for às compras lembre-se como o dinheiro chegou às suas mãos. Se foi dado por alguém, que reabastece sempre, não tenha dó. Mande brasa. Se for suado, contado e fruto do seu trabalho, vá com calma. Procure fazer uma lista do que realmente precisa. O impulso é, muitas vezes, maior que a razão. Grife não produz, terceiriza e cola etiquetas.
Agora, quando for comprar comida, frutas e verduras veja se não está dentro de uma multinacional atrás de nome brasileiro. Acontece assim, um português/árabe/judeu/nordestino, chega à cidade grande e monta uma mercearia. Trabalha de sol a sol. O negócio prospera, o dono aumenta a área e, tempo depois, vira mercadinho, supermercado e loja de departamentos. O mourejador cansado infarta. Morre no hospital luxuoso. Filhos choram. Uns menos que outros. Passa o luto. Herdeiros fundam uma sociedade anônima e resolvem abrir o capital. Há anúncios, reportagem em TVs e os netos chegam à festa em carrões e cabelos vaselinados. O barco vai singrando e as famílias aumentam. Há filhos, noras, genros, netos, mulheres e maridos dos netos, uns com ciúmes dos outros. Brigam e ficam distantes. Uma assembleia geral extraordinária é convocada para ouvir proposta de grupo estrangeiro.
A cobiça aumenta e, após discusões, ouve-se a firma de consultoria contratada por hora. Ela diz: é hora de vender. Os “estranjas” assumem o controle e vocês recebem ações e uma parte em dinheiro. Exultam. O português/árabe/judeu/nordestino revira no túmulo que está com capim alto e as luminárias enferrujadas.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/01/2015

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