“Chorei e acreditei”. F.R. Chateaubriand, escritor francês.
Não somos iguais a ninguém. Temos as nossas próprias idiossincrasias. Nosso pai dizia: “não seja melhor, nem pior. Seja você”. Em 1999, depois de muito pensar e estudar, concluímos um projeto que durou cinco anos para ser executado: um centro comercial. Vale dizer que fomos desaconselhados, por consultores contratados, a fazê-lo no local escolhido.
A maioria das pessoas de referência sondada dizia ser uma loucura investir em bairro sem grande densidade habitacional. Argumentavam: na área de humanidades da UFC há política, comício e greve. Disseram também que estaríamos próximos das sedes de partidos de esquerda. Para desanimar, falaram: o metrô não seria concluído tão cedo e a sua construção nos importunaria, pois ruas seriam fechadas por anos.
E daí? Desobedecemos a todos os consultores. Ficamos surdos. Sofremos o pão que o diabo amassou. Cinco anos, sol a sol, algumas noites em claro, fazendo fé, aplicando o produto de toda uma vida árdua.
No dia da inauguração, manhã de sábado, 30 de outubro de 1999, aniversário de D. Margarida – a mulher que nos trouxe ao mundo- não havia tapumes. As lojas ainda não ocupadas foram rematadas com grandes pinturas de artistas plásticos cearenses. Era o nosso primeiro concurso público de artes.
Oferecemos, na exposição, duas premiações com passagem ida-e-volta aos Estados Unidos e à Europa. Emília Porto e Audifax Rios, os vencedores, preferiram o valor equivalente. Assim foi feito. Nascia o embrião da galeria de arte que se consolida até hoje.
A Camerata da Universidade Federal do Ceará tocava músicas clássicas e a fita simbólica foi descerrada pelas filhas, a pequena neta Luana, o Reitor Martins Filho, D. Margarida e convidados. Padre Hermano, padre-mestre dos Remédios, fez a benção. Na parede principal estava quadro com os nomes das pessoas que trabalharam na obra inaugurada. Uma a uma. Do servente ao engenheiro chefe. Nenhum esquecido.
Depois, começou a vida real, as dificuldades aumentavam a cada dia. O metrô fechou as duas principais vias de acesso e lojistas consagrados não compravam a nossa ideia. Primeiro, teríamos que nos fazer acreditados.
Assim, batalha a batalha, fomos sedimentando a história com a chegada dos Mercadinhos São Luiz, da Casa dos Relojoeiros e de corajosos novos lojistas. Aos poucos, com boa equipe, íamos abrindo lojas e resistindo às adversidades.
Conseguimos que uma grande empresa nacional de varejo aceitasse que fizéssemos, com nosso capital, todo o espaço, turn-key, de 1.600m2, de sua loja. A inauguração nos daria credibilidade. A loja foi inaugurada, mas, em seguida, fechada por decisão judicial que invocava uma “cláusula de raio”.
Explico: inócua reserva de mercado a impedir uma mesma empresa de montar outra loja em raio de 5 km. Depois de doloroso abre-fecha, a loja voltou a funcionar e lá permanece altaneira.
Um centro comercial pede alguns cinemas. Procuramos exibidoras nacionais e todas nos deram a mesma resposta: construa que, depois, entramos. Noites em claro. Resolvemos do nosso jeito. Ora, se iríamos construir para os outros, por que não fazê-lo para nós mesmos?
Sabíamos da dificuldade de captar filmes, sendo pequenos e independentes. Viajamos, trocamos ideias e assumimos que seríamos nós os exibidores. Teríamos que obter o aval das distribuidoras de filmes, ligadas aos exibidores. Outra batalha. Afinal, fizemos as salas.
Precisávamos mostrar que éramos organizados e planejados. Obtivemos, após inspeção, a certificação ISO-2001, através de empresa inglesa. Fomos o primeiro do Brasil na área de atuação. Paralelo a isso, lutávamos para que o Metrofor nos liberasse a frente Carapinima, ainda fechada. Marchas e contramarchas, conseguimos. Depois de anos.
Faltava a localização exata da Estação Benfica do Metrofor. Cedemos ao Estado área de nosso imóvel para que parte da citada estação ali fosse fincada. Hoje, março de 2015, o metrô já funciona, mas duas vias de escoamento jazem bloqueadas.
São 15 anos. Fizemos da ideia um projeto de resolução que atentava contra tendências do mercado. Optamos, por vocação e consciência, por ser um centro de referência para os clientes. Criamos 10 projetos sociais e culturais em pleno funcionamento. Por nossa conta e sem benefício fiscal.
Tornamos-nos amigos dos lojistas e clientes, sem ufania. Eles são o nosso trunfo. Assim o fizemos. Assim o somos. Há, inclusive, um deles, professor universitário, que possui os números dos nossos telefones e liga para o que bem quiser. Outros nos ajudam, de forma consistente. Conversamos com todos a qualquer hora.
Recebemos, por sete vezes, o selo de responsabilidade cultural conferido pela Secretaria da Cultura do Ceará. Somos a única empresa do Estado que possui este laurel. Temos espaço de leitura com biblioteca, uma fábrica artesanal para maiores de 55 anos, ginástica de baixo impacto, um clube de viver bem e mostras permanentes de artes. Promovemos o Gente de Bem, fazemos congraçamento anual com crianças portadoras de doenças, síndromes e em situações de desamparo com instituições acreditadas.
Trazemos a música, os cantores e os compositores locais para os nossos eventos. Oferecemos espaços para alunos de artes, pintores consagrados, grafiteiros, blogueiros e outros. Incentivamos o carnaval, os maracatus e as festas juninas. Formamos mais de 1.800 bombeiros voluntários em parceira com o Corpo de Bombeiros Militares do Ceará. Estamos abrindo a 50ª. turma. Nada da boca para fora. Tudo com nosso envolvimento e gratuito.
Novos centros comerciais foram surgindo nos últimos tempos e outros estão por vir. Sejam todos bem-vindos. O sol nasceu para todos.
Este texto é claro, sem presunção. É história vivida e sofrida que continua a cada dia novo para as quase duas mil pessoas que mourejam, acreditam no que fazem, recebem bem e com alegria milhares de clientes.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/03/2015.

