“O cenário do mundo hoje me parece tão irreal, tão distante como se tivesse feito parte de um filme. Ou de um sonho”. Regina Marshall.
A jornalista Regina Marshall deixou, desde esta segunda-feira, de escrever a coluna diária que levava o seu próprio nome no Caderno 3 do jornal “Diário do Nordeste”. O faz após muitos anos no DN e, antes, em outros jornais locais. Há anos, Regina passou a editar o suplemento dominical “Gente”, que mesclava assuntos sociais e colunas de opinião.
Conheci Regina, antes de ela se tornar jornalista. Morava com a família em casa próxima do solar de Francisco e Beatriz Philomeno, em Jacarecanga, bairro então no auge. Ela é originária das famílias Sampaio e Meyer que, por laços matrimoniais, se entrecruzaram. A bela e inteligente jovem Regina Sampaio Meyer foi escolhida “Rainha” da Associação Cearense de Imprensa, contra a vontade do jornalista Dorian Sampaio. Depois, Dorian se rendeu e passou a ser seu amigo. No livro sobre os 85 anos da Associação Cearense de Imprensa – ACI, o fato é narrado com riquezas de detalhes.
Regina cursou comunicação social e tornou-se jornalista, por mérito próprio, e pela sua penetração natural na sociedade, posto que integrante, desde a meninice, do Ideal Clube. Casou com Henry Marshall, cidadão inglês de excelente formação profissional e cavalheiro no tratar a todos, em especial os que frequentavam a sua charmosa casa com área de lazer e piscina, aos fundos.
Essa casa foi das pioneiras na inexistência de muros frontais nesta Fortaleza amuralhada. Nela, a família reunia amigos, a maioria oriunda de roda que se reunia na pérgola de telha vã à direita de quem entra pela Avenida Monsenhor Tabosa, no Ideal Clube. Entre os quais pontificavam, Régis Jucá, Bob Sales e Ananias Cysne.
Do casamento com Henry Marshall, do qual é viúva há anos, vieram Marjorie, Vivian e Douglas. Este, jovem campeão de tênis, ceifado por sua generosidade, ao tentar salvar desconhecido de choque elétrico causado pela desídia da concessionária de energia, que interditou área com fios de alta tensão caídos ao chão molhado na área metropolitana de Fortaleza.
Pois bem, essa mulher de fibra, após a perda irreparável do jovem e promissor filho e da longa enfermidade e morte do marido Henry, juntou todas as suas forças ancestrais e continuou a fazer do trabalho a sua ferramenta de apoio para a continuidade de sua vida pessoal e profissional. Regina, na sua maturidade, é avó devotada, recebe o carinho de filhas, genro e netos.
Os seus registros jornalísticos vão da docilidade da simples divulgação de casamentos, aniversários e eventos de pouca ou grande monta à crítica acerba ao que considerava errado. Saía da zona de conforto para a análise séria, consequente e obstinada de fatos, de situações e de homens públicos que, no seu entender, estavam descumprindo os compromissos assumidos com o povo e ela ousava demonstrar isso.
O jornalista Lúcio Brasileiro no “O Povo” desta terça, 26.05.2015, sob o título “Perda Irreparável”, sumariza a trajetória de Regina Marshall: “Abdicação da confreira Regina Marshall desfalca reportagem social a qual emprestou brilho invulgar, não apenas por ser oriunda de dois troncos tradicionais incluso fundadores do Ideal mas também e sobretudo pela evidente vocação jornalística”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/05/2015.

