RASCUNHO DE TEXTO E DE VIDA – Jornal O Estado

“Passei metade da minha vida vendendo palavras e, espero, ideias”. Winston Churchill, político e intelectual.
Esta semana, ao organizar o espaço atulhado de livros, escritos, papéis, revistas, jornais, onde, todos os dias leio e escrevo, fiz uma descoberta. Encontrei rascunho de palestra que fiz em 1984, em curso/seminário promovido pelo Instituto Delmiro Gouveia. Falei para professores, administradores, estudantes de administração e outros profissionais.
O texto é mero rascunho aligeirado, com erros de digitação, do que falaria no dia seguinte. Deixei-o tal como o encontrei, cincas e sem correções. Nele, relato um pouco de minha vida pessoal, profissional e intelectual até fins de 1984.
Resolvi, agora, repassá-lo, sem ressalvas, às filhas. Digo-lhes que esse rascunho deve ser entendido como a minha marca registrada de ser. Direto, tal como sempre fui e sou.
Não é texto para divulgação, claro. Mas ficarei feliz se as queridas filhas, e os seus descendentes, tomarem conhecimento do teor, agora ou no futuro. Não acredito que encontrem respostas para as suas vidas pessoais e profissionais. Cada um faz o seu roteiro. O texto, quando muito, dá ideia da minha personalidade e do meu modo de agir. Que pouco mudou, constato.
Passaram-se trinta anos. A vida e o mundo são outros. Pondero, nesse texto há linhas gerais de um projeto de vida, ajustando cada situação ao momento e à realidade de um país que continua a nos surpreender, por tudo o que sabemos, sentimos e vivemos.
Agora, maio de 2015, refiro que sou o saldo de tudo o que nele escrevinhei e, em muitos outros textos que, depois, viraram livros, estes passados a limpo. Mas o rascunho é tal como a minha vida foi, até então. Um ‘making off’ pontilhado de ações e de adversidades que tentei abduzir e superar.
É claro que sofri, mas há alegria em saber que não mudei a essência, não me violentei. Fiz da resposta imediata, sem rodeios, a qualquer desafio ou afronta, referência como identidade
Hoje, acredito, deveria ter pegado mais leve comigo. O trajeto exigia energia, estudo, coerência, trabalho e determinação. Sofri represálias e balelas. Alguns foram sutis; outros, escancarados. Tive que redobrar energias, sem nunca deixar de ser eu mesmo.
Digo, agora, que a essência do que narro no texto, não mudou. O resultado sou eu, o que construí, o que li e estudei, o que escrevi e o que vivi. O rascunho serviu como base da palestra, na qual intercalei improvisos e respostas ao perguntado.
Nada há de importante no texto, tampouco é manual. Mas, essa descoberta, tornou-o significativo para quem andou só, levou tundas e caminhou por estradas de inovação, aqui e mundo afora, de peito aberto.
Nunca fui áulico de quem não acreditava. Caminhei só, sem ajuda, a não ser a que me foi transmitida pela minha família, na convivência e na herança genética, por ciência e por trabalho duro ao qual me engajo como operário. Vi, li e estudei mundo afora, sem usar tutores ou facilitadores.
Cito um exemplo, a honra de, por concurso, participar, na Harvard University, do saber de Henry Kissinger de quem se podia discordar, mas a quem se devia respeitar por sua cultura polimorfa. Ele foi um dos mais importantes atores da política americana e mundial. Ouvi muitos outros. Outras ideias.
Este relato é réstia que surge dessa descoberta circunstancial, ao mexer no que tenho aquietado, esperando apenas que o revolva.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/06/2015.

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