Anos 1980. Renovação rotária. Por Cláudio Martins, surgia o Rotary Aldeota e a imposição de dirigi-lo. Unimos bons companheiros. Um deles, Sylvio Leal Filho, oftalmologista, chegara da França com curso de pós-graduação. Sylvio, camisa social e gravata, vinha direto de sua faina médica para as reuniões semanais.
Tempos depois, problema ocular com uma filha minha. Escolhi-o. Cioso da amizade e do risco cirúrgico, quase abdicou. Insisti e, ele, com ciência e zelo, resolveu o caso.
O saudoso Régis Jucá recebia em Guaramiranga, sexta feira da paixão. Chovia. Ao sair, carro atolado. Marcos César Ferreira Gomes, amigo evanescido, apontou o primeiro veículo disponível. Era crepúsculo e a água a castigar os cansados limpadores do zurzido veículo que eu dirigia. Lusco-fusco. Curva, uma cabeça de ponte. Um amigo, ao lado, foi ter ao para-brisa. Não se usava cinto de segurança.
O grão senhor Tibúrcio Frota, dono do sítio frontal, cedeu-me camioneta. Sabedor de que o Sylvio estava em casa da sua família, ali perto das palmeiras imperiais, a ele apelei. Largou o descanso e desceu conosco para a sala de cirurgia da São Raimundo. Fez o preciso, explicando a todos as razões do ato.
Agora, décadas depois, narro o fato para dizer da sua presteza em deixar o repouso, da sua responsabilidade médica, sem honorário. Estive no velório e, agora, realço apenas alguns dos muitos gestos do Dr. Sylvio Leal Filho, entre eles o de duradouro preceptor na Universidade Federal do Ceará de médicos em formação oftalmológica. Missão altaneira.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/06/2015

