PARA TENTAR COMPREENDER O BRASIL – Jornal O Estado

“O tambor faz um grande barulho, mas é vazio por dentro”. Barão de Itararé
As boas notícias desapareceram das mídias brasileiras. Quem quiser ouvir, ler e ver o mal que falam de nosso País é simples: basta ligar o rádio, seja AM ou FM. Sintonizar a televisão, fora as estatais e as dos Poderes Legislativo e Judiciário, as demais espinafram o nosso País de todas as formas e maneiras. As mídias sociais têm de tudo. Até luz sobre “apagão”.
O que o Brasil, a terra brasileira, fez de errado? Aqui há praias e rios em profusão, não há abalos sísmicos e tampouco o tempo nos incomoda, pois os nascidos da Amazônia aos Pampas não padecem do calor da artificial Dubai, da inclemência que este ano assolou a Índia, dos terremotos na Ásia. Nada do frio da Sibéria. Neve? Só para fotos, em raros momentos.
O problema não é o Brasil. O problema é o Estado brasileiro destruído por pessoas que foram eleitas por nós, os eleitores. Não me refiro apenas aos desmandos dos últimos doze anos do Governo Federal, mas a coisa vem de longe. O poder atrai zangões.
O tão estudado Vargas, além da ditadura, foi um dos predadores e, o seu trabalhismo, copiado da Itália ainda fascista, que vige em pleno ano 15 do século 21, é um teatro do absurdo, puro Eugène Ionesco.
Depois de Vargas, vieram Café Filho, Jânio Quadros e João Goulart, fracos, dissimulados e sem nenhuma capacidade de gestão sobre seus subordinados. Apenas seguiam a onda “das ruas” e dos que sempre repassam notícias privilegiadas, escondem a verdade, rondam ministérios, cargos públicos e adoram sinecuras.
A revolução ou ditadura, como é dicotomicamente alcunhado o período que foi de abril de 1964 e perdurou por 24 anos, é ainda um mistério pouco desvendado. O tempo do “ Ame-o ou Deixe-o” provocou uma cisão entre brasileiros. Ainda hoje há discussões, nas comissões da verdade em todos estados brasileiros, sobre torturas, duplos agentes e o financiamento de alguns empresários às ações e torturas do Doi-Codi de São Paulo, espraiado Brasil afora. Há, ademais, o espectro fechado das polícias e dos quartéis. Governos atuais estão arcando com aposentadorias de gente, que exilado ou não, pouco trabalhou.
Fernando Henrique Cardoso é citado como um exemplo emblemático dos aposentados jovens, mas, além dele, há milhares que recebem por trabalhos que não executaram ou por torturas, umas comprovados, outras, nem tanto.
Ao que parece, segundo a historiografia contemporânea, não existem fatos concretos sobre enriquecimento ilícito dos generais presidentes. Alardeia-se, o contrário. Ao morrer Mário Andreazza, amigos e parentes fizeram uma “vaquinha” para as muitas despesas que envolvem doença e sepultamento.
Para não me alongar muito, passo batido por Collor, Itamar, Sarney e FHC. Detenho-me apenas, nos últimos 12 anos e na emergência de um partido político novo, amado por operários e o povo, e que teve a coragem de lançar um metalúrgico, jovem, mas, tal como FHC, aposentado aos 42 anos, à presidência. Lula, de intuitiva inteligência privilegiada e capacidade encantatória, suportou derrotas seguidas, até ganhar a presidência da República, para alegria das classes desassistidas e de grande parte da inteligência brasileira.
Não ouso, neste pequeno espaço, dissertar sobre os seus oito anos de governo, tampouco me alio às revistas e os jornalões que o condenaram a priori e hoje divulgam a suposta riqueza de seus familiares. O Brasil cresceu, mas o que houve, de fato, foi a elevação peculiar por muito tempo do preço mundial das commodities, produtos agrícolas e minerais. A maioria, pela crescente China. O mundo vive em ciclos.
Aí veio o suposto Brasil eufórico, acreditando-se parceiro dos que estavam e ainda permanecem no tal primeiro mundo, jargão econômico que refere à boa distribuição de renda e a um hipotético estado de Bem Estar Social. Depois, veio a queda.
Hoje, há quase cinco anos com Dilma, a sucessora, egressa do PDT de Brizola, e formatada por Lula, o Brasil está, como, desde quase sempre, em crise. A diferença é que o mundo tornou-se menor e tudo repercute de forma descontrolada. Agora, os preços das tais commodities estão muito baixos e, nas relações de troca, somos perdedores.
Não comungo com os que só falam dos governos e não expressam essa indignação nas múltiplas ocasiões do voto. O voto é o único sinal de igualdade dos brasileiros. A nossa ancestralidade não nos permite, como existe na Grã-Bretanha, a dualidade entre comuns e lordes. Somos quase todos, frutos da mestiçagem ou da forte imigração na virada do século 20.
Os escândalos que se sucederam na história brasileira, desde colônia, são alvitres da promiscuidade entre o governo e uma máquina de sangrar que foi crescendo e tornou-se gigante, infiltrada por capilaridade, afagos, viagens, doações lícitas ou não. Essas máquinas de sangrar são maiores e mais danosas que todos os PCCs juntos. O resto é balela.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/06/2015

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